O show de abertura das Olimpíadas de Londres foi diferente e inusitado. Ao invés de um mega-show pirotécnico, os ingleses exibiram capítulos históricos e símbolos do que consideram importante em sua presença e legado econômico, social e cultural no mundo.
Foi bastante curioso iniciar esta história com a Revolução Industrial, estrela do show (e não, por exemplo, com a Carta Magna), lembrando o progresso econômico e industrial acima do marco político que foi a Carta na Idade Média. A política apareceu em uma manifestação pelo direito ao voto das mulheres. A outra estrela do show foi o sistema público de saúde, estatal e público, conquista de décadas de lutas trabalhistas no País. Não houve nenhuma menção ao colonialismo e ao império britânico, aquele onde “o sol nunca se põe”
Além de música, o show da abertura em Londres exibiu ícones dos livros e da literatura, incluindo Shakespeare, Mary Poppins e J. K. Rowling, autora de Harry Potter, lendo um trecho de Peter Pan.
Confesso que me emociono ao assistir o desfile das delegações dos países: excetuando, talvez, uma assembleia geral da ONU, é a única situação em que os mais de duzentos países (e “territórios”) se encontram e participam juntos de um evento que, ainda por cima, é uma festa. O mundo não melhora um milímetro, lembrarão, não sem razão, os que acham o espetáculo kistch e enfadonho; e assim que acaba a cerimônia atletas e países estão se degladiando por medalhas. Mas há regras: as duas Coreias se enfrentaram no tênis de mesa após os atletas se cumprimentarem.
No desfile contemplamos, por duas horas, uma visão panorâmica e completa de todos os países e continentes do planeta, e, assim, nos sentimos uma pequena parte da Humanidade, incluindo os 17 (!) países da Oceania e 53 da África, cuja presença no nosso dia a dia é em geral mínima.
Com isso, poderíamos pensar na abertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016 para além dos tradicionais emblemas “made in Brazil”, tais como carnaval, samba, futebol e uma apresentação das belezas culturais e naturais do Rio, Amazônia e outros pontos. Será que, na música, a organização mesclará Carmen Miranda e Sepultura, Heitor Villa-Lobos e João Gilberto? E os personagens: Zumbi dos Palmares, Santos-Dumont, Carlos Chagas, Chico Mendes...
No território dos livros e da literatura, o que eventualmente deveria ser mostrado que fizesse sentido a espectadores de 202 países? Alguns dos nomes que me ocorreram, pensando alto, foram Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado. Faria sentido ler a poesia de Drummond? Se os britânicos mostraram James Bond (e Ian Fleming) e J. K. Rowling (e Harry Potter) – e não Agatha Christie, Mary Shelley, Oscar Wilde, Adous Huxley, Edgar Allan Poe, W.H. Auden ou George Orwell –, seria o caso de encarar que Paulo Coelho é, de fato, o autor brasileiro mais traduzido, lido e conhecido no mundo? Neste caso, em paralelo a J. K. Rowling lendo Peter Pan e Kenneth Branagh lendo um trecho de “A Tempestade”, de Shakespeare, poderíamos imaginar Paulo Coelho lendo Monteiro Lobato (um trecho de “A Chave do Tamanho”)...
E não seria o caso de lembrar, por exemplo, Camões, que é o início, em português, de nossa história como nação? E por que não estender o Brasil geográfica e culturalmente e lembrar que somos parte de uma história atlântica (e mundial) com ramificações europeias e africanas, e ler ou lembrar escritores em português que fazem estas aproximações e rompem as fronteiras nacionais?
É claro que tudo isso é apenas uma conversa informal suscitada a partir das Olimpíadas sobre como representar o País em um evento desta magnitude e que lugar escritores, livros e a literatura têm em um show de abertura de um evento deste porte.
Talvez o desafio maior seja fazer algo que os britânicos não fizeram: pensar em uma abertura que seja menos uma exibição da singularidade de um único País (e que celebra a realeza) e realizar um show que se ramifique e inclua o máximo de continentes e países. A perspectiva brasileira bem poderia ser essa. E, nesse sentido, talvez seja o caso de, através dos livros e da literatura, assumirmos nossa face – pensando nos povos formadores e nos imigrantes – indígena, americana, europeia, africana e asiática.
Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.
Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.
** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.
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