Foi um sábado de público minguado durante a maior parte do dia na Fliporto, o que começou a mudar só no fim da tarde, quando a Praça do Carmo finalmente encheu. O Congresso Literário, a principal atração em Olinda, teve na programação Frei Betto, diversas palestras sobre Gilberto Freyre e, para fechar a noite, o poeta Derek Walcott, convidado que carrega o maior prêmio de literatura da feira, mas cuja palestra atraiu poucos ouvintes e, um tanto hermética, não empolgou.
Walcott, ganhador do Nobel de literatura em 1992 e também do prêmio T.S. Eliot este ano, conhecido no Brasil pelo renomado Omeros, subiu ao palco e nem um terço das 900 cadeiras da maior tenda da Fliporto estavam preenchidas. Não ajudou o início lento, quando Walcott e Marcus Accioly, poeta pernambucano que mediou a palestra, leram poemas em inglês e português. Perguntas relacionadas ao universo da literatura grega e pouco acessíveis a quem tem pouca familiaridade com poesia também esfriaram o debate.
Walcott contou sobre suas criações e as questões provenientes do fato de ser de Santa Lúcia, ilha caribenha colonizada por franceses e ingleses. Ele avalia que chamar sua poesia de épica seria inseri-la numa tradição da qual ela não faz inteiramente parte, visto que é fruto de uma mistura original de culturas que tem dívidas com a herança dos colonizadores, mas não está restrita a ela. É uma das ambigüidades de ser colonizado. Outra é que “você ama a sua língua (herdada dos colonizadores), mas detesta a política", observou Walcott.
Pela manhã, quem cativou a plateia foi Frei Betto. Em conversa com Bia Corrêa do Lago sobre "O processo de criação literária", o escritor e frade dominicano, muito acostumado a falar em público, entreteu os ouvintes – que ocupavam pouco menos da metade da tenda – com bom humor e relatos contundentes sobre sua trajetória religiosa, política e literária.
"Milhares de pessoas nascem para escrever. O difícil é se tornar autor e publicar o que se escreve. Eu tive essa sorte e foi graças aos generais brasileiros", disse, em referência ao seu primeiro livro, Cartas da prisão, que é uma compilação das cartas redigidas durante os quatro anos em esteve preso pela ditadura militar. "A única coisa boa da prisão é que lá você pode falar mal do governo sem o risco de ser preso", brincou. Também falou bastante sobre Batismo de Sangue, livro onde denuncia a violência do regime e a atuação da Ordem dos Dominicanos junto à Ação Libertadora Nacional (ALN), que em 2007 foi adaptado para o cinema e é considerado pelo autor "o filme brasileiro mais realista sobre a ditadura".
Com 53 livros publicados, Frei Betto contou ter esgotado a capacidade de escrever ensaios. "Meu projeto agora é escrever ficção", algo que exige, segundo ele, libertar-se da "camisa de forças" do papel de militante político. A realização mais recente nesse sentido é o romance histórico Minas de Ouro, que levou 13 anos para ser escrito e exigiu a leitura de 120 livros. O escritor revelou também que está "grávido" de mais três obras, porém fez mistério em relação aos temas de cada uma delas. "Falar antes dá azar. Eu tenho lá as minhas superstições", confessou.
Já a programação de sábado à tarde da Fliporto foi dominada por debates acerca de Gilberto Freyre, o homenageado da sétima edição da feira. A fruição dos textos saborosos do sociólogo e autor pernambucano, suas experiências como viajante e tradutor e as amizades com escritores foram temas das mesas, nas quais falaram Marcos Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), e a ensaísta e tradutora Kathrin Rosenfield, entre outros.
A quarta conversa da tarde sobre Freyre abordou-o como um "grande sedutor", o tema do livro lançado este ano por Edson Nery da Fonseca, um dos maiores amigos e intérpretes do pensador. Em conversa mediada pelo jornalista e escritor Humberto Werneck, Nery, com quase 90 anos, contrariou orientações de seu médico para que evitasse emoções fortes e encantou o público ao declamar poemas de Freyre e o famoso “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, texto que o poeta escreveu após ser instigado pelo grande amigo sociólogo.





