Criação imperfeita promete polêmica
PublishNews, Redação, 30/03/2010
Os direitos do novo livro de Marcelo Gleiser já foram vendidos para oito países; lançamento foi simultâneo no Brasil e nos Estados Unidos

O físico Marcelo Gleiser subverte mais de 25 séculos de pensamento científico ao desmontar o maior mito da ciência e da filosofia ocidentais: o de que a Natureza é regida pela perfeição. Em Criação imprefeita (Record, 368 pp., R$ 49,90), Gleiser discorre de forma simples e instigante sobre a importância da imperfeição no universo no desenvolvimento da matéria e do próprio ser humano. Com isso, contesta também o discurso dos ateístas radicais, como Richard Dawkins, mostrando que a ciência não prova a inexistência de Deus. O livro chega ao Brasil simultaneamente ao lançamento nos EUA, e seus direitos já foram vendidos para oito países, antes mesmo de sua publicação.

Por milênios, xamãs e filósofos, ateus e religiosos, artistas e cientistas tentam dar sentido à nossa existência sugerindo que tudo está conectado e que uma misteriosa unidade nos liga ao resto do universo. As pessoas vão a templos, igrejas, mosteiros e sinagogas para rezar para as diversas encarnações divinas dessa Unidade.

De forma surpreendentemente similar, cientistas afirmam que por trás da aparente complexidade da natureza existe uma realidade subjacente mais simples. Gigantes da ciência, como Galileu, Kepler, Newton, Planck e Einstein, nos ensinaram a explicar o universo em termos de simetria, harmonia e ordem. Em sua versão moderna, essa “Teoria de Tudo” uniria as leis físicas que regem corpos muito grandes (A Teoria da Relatividade de Einstein) àquelas que controlam os pequenos corpos (mecânica quântica) em apenas uma estrutura. Mas apesar dos corajosos esforços de muitas mentes poderosas, a Teoria de Tudo permanece evasiva. O universo não é elegante. É um glorioso caos criativo.

Gleiser argumenta que a busca por uma Teoria de Tudo está fundamentalmente desorientada e explica as implicações gigantescas que essa mudança ideológica traz para o ser humano. Todas as evidências apontam para um cenário no qual tudo emerge de imperfeições fundamentais, assimetrias primordiais na matéria e no tempo, acidentes cataclísmicos no início da vida na Terra e de erros na duplicação do código genético. O desequilíbrio estimula a criação. Sem assimetrias e imperfeições, não estaríamos aqui: o universo não teria nada além de radiação.

Na contramão da maioria dos grandes cientistas da atualidade, Gleiser defende ainda que a ciência jamais poderá explicar a realidade por completo. Uma das razões é que simplesmente não podemos conhecer tudo o que existe. Criação Imperfeita propõe nada menos do que um novo “humanocentrismo”, capaz de refletir nossa posição na ordem do universo. Um novo tipo de espiritualidade, que nada tem a ver com religião, centrada não no além, mas na vida. Todo o tipo de vida, mas em particular a inteligente, é um acidente raro e precioso. A complexidade não planejada do ser humano é ainda mais bela por sua improbabilidade. É tempo de a ciência deixar de lado a velha estética que diz que a perfeição é bonita e que a “beleza é a verdade”. É hora de olhar para o mundo com novos olhos, sem séculos de bagagem monoteísta.

Marcelo Gleiser é professor de Filosofia Natural e de Física e Astronomia no Dartmouth College, onde dirige um grupo ativo de pesquisa em física teórica. É autor, dentre outros volumes, de A dança do universo (Companhia das Letras, 434 pp., R$ 59) e de O Fim da Terra e do Céu (Companhia das Letras, 368 pp., R$ 58,50), ambos vencedores do prêmio Jabuti. É também articulista da Folha de S. Paulo.
[30/03/2010 00:00:00]