A partir desta sexta-feira, 31 de outubro, leitores, editores e livreiros estarão com os olhos voltados para a capital gaúcha, que vai ser palco de um dos grandes eventos brasileiros voltados à literatura. Às 18h será aberta oficialmente a 54º edição da Feira do Livro de Porto Alegre. Neste ano, a programação está recheada de momentos para diversos públicos e gostos. A Praça da Alfândega, local que concentra o evento desde sua primeira edição, em 1955, receberá, até o dia 16 de novembro, mais de 700 sessões de autógrafos e quase 700 autores e especialistas, que participarão de quase 300 eventos entre mesas-redondas, oficinas e programação artística. E não só os adultos têm espaço garantido na Feira - na área infantil e juvenil, mais de 100 escritores e ilustradores farão à festa da garotada. Com tantas atividades, a expectativa da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) é grande – espera-se comercializar cerca de 450 mil exemplares durante a Feira. O patrono desta edição é o poeta e ensaísta Charles Kiefer, conhecido por sua produção ficcional de romances. Em entrevista concedida por e-mail ao Publishnews, Kiefer relembrou sua história com um dos maiores eventos literários do País, revelou seus projetos e falou da expectativa de representar a Feira.
1 – Como foi receber a notícia que seria patrono da 54º Feira do Livro de Porto Alegre?
Inicialmente com espanto; depois, com alegria. Sempre defendi a tese de que deveria ser patrono o mais velho da lista de patronáveis, que são eleitos pela Câmara Rio-grandense do Livro e apresentados à sociedade gaúcha a cada ano. Desde o início do novo modelo de escolha, em 2001, estive entre os patronáveis, mas imaginava que somente venceria depois dos 60 anos. Veio aos 50. E já que veio tentarei ser um patrono empenhado e atuante.
2 - Qual a sua história com a Feira do Livro de Porto Alegre? Que lembranças tem deste evento literário?
Minha primeira participação na Feira foi em 1977, quando lancei meu primeiro livro, hoje excluído de minha bibliografia: O lírio do vale. Essa primeira participação me marcou profundamente, pois eu era muito jovem, tinha 19 anos. Deste evento, em 1977, recordo-me que toquei violão e cantei na praça. No dia seguinte, dei página em jornais da capital, com manchetes como "Jovem autor canta e chama o povo a ver seu livro". E foi nessa feira que, depois de ler meus poemas, Mario Quintana, desolado com O lírio do vale, me disse: "Meu filho, escreva duzentos poemas; publique vinte". Levei outros dezessete anos para lançar o segundo volume de versos, Museu de coisas insignificantes!E só em 2000 lancei um terceiro livro de poesias, O perdedor. Sou mais prosador que poeta. Embora seja apaixonado por poesia. Dou aulas de poesia na Graduação e no Mestrado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
3 - Qual a sua expectativa para estes 17 dias de Feira? A Praça da Alfândega será teu segundo lar?
Espero que seja uma grande feira e que supere a feira do ano anterior, como têm acontecido sempre. Quem sabe, com a crise econômica mundial que desponta, as pessoas se dediquem mais a ler. Livro é lazer barato, e mais profundo. Minha rotina como patrono já está terrível, dei mais entrevistas em duas semanas como patrono-eleito do que em trinta anos de atividade literária. Durante a Feira, pretendo participar de todos os eventos possíveis. Sim, creio que sim, passarei a maior parte das horas dos dias na Feira, representando os escritores, os livreiros, os distribuidores e os editores.
4 - Muito jovem, aos 24 anos, você publicou Caminhando na Chuva, um dos grandes sucessos da tua bibliografia. A história de Túlio tem referências na tua adolescência?
Caminhando na chuva é meu quarto livro publicado, mas o primeiro a sobreviver à minha própria destruição. É o primeiro com qualidade literária suficiente para merecer ser reeditado. Está na 18º edição, pela Editora Ática. E há edição em Portugal, pela Editora Figueirinhas, do Porto. Sim, tem algumas coisas da minha adolescência, especialmente o sonho de ser escritor e de sair de uma cidade pequena, como eu próprio fiz.
5 - O que você achou do resultado de seu livro Valsa para Bruno Stein em filme? Qual a sua opinião sobre a adaptação literária para o cinema?
Gosto do filme, mas sou suspeito. Com o pequeno orçamento que Paulo Nascimento tinha, fez um bom filme. Entendo que cinema e literatura são artes muito diferentes. A adaptação é muito fiel ao livro, mas não sei se isso é bom para o cinema. Este é o quarto trabalho que Paulo faz com minha obra. E ele é sempre fiel aos meus enredos. Ele diz que meus livros já têm os roteiros quase prontos.
6 – Desde que começou a escrever, até os dias de hoje, como classifica as mudanças do mercado editorial no Brasil? Que avanços podem ser comemorados pelos escritores?
Mudou muito. Multiplicou-se de forma exponencial e geométrica o número de autores e de forma aritmética o número de leitores. Hoje, proporcionalmente, sou lido por menos gente do que na década de 90. O único avanço que percebo é na rapidez de produção de um livro. Quando comecei, um livro levava seis meses para ser produzido; hoje, é possível fazê-lo em dias. Não falo do trabalho do autor, que continua o mesmo, mas do processo mecânico, editorial. O advento da internet está provocando uma nova revolução na área do livro, como foi a passagem das tabuletas de argila para o papiro, do papel de pano para o papel de celulose. Não interessa o suporte, o livro sobreviverá. O livro é o próprio Proteu na terra!
7 - Teus leitores podem aguardar a publicação de um novo livro em breve?
Sim, para inícios de 2009, a Editora Record, minha principal casa editorial, prepara o lançamento de A revolta das coisas. E estou escrevendo um novo romance, com o título provisório de Dia de matar porco.
8 - Como avalia a produção de literatura no Rio Grande do Sul?
Há uma grande produção dos autores gaúchos, bem como uma grande produção de novos autores. Ainda esta semana, lancei o 104 que contam, um livro de contos com 104 autores que são ou foram meus alunos de oficinas literárias. Coloco no mercado gaúcho, por ano, em torno de 200 novos autores. Se apenas estes comprassem os livros uns dos outros, já teríamos um bom sistema literário em funcionamento. Para ajudar a melhor os índices de leitura, fundei a Associação Jovem Leitor, entidade sem fins lucrativos que se dedicará a divulgação, incentivo e doação de livros a pessoas interessados em ler.