Dos 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom anunciados na noite desta terça-feira (31), no Consulado Geral de Portugal em São Paulo, os 10 são homens, 8 são brasileiros, 8 escreveram romances, 2 são poetas e 6 foram editados pela Companhia das Letras.
Estão no páreo: José Saramago, Chico Buarque, Reinaldo Moraes, Carlos Brito Mello, Ondjak, Armando Freitas Filho, Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzenberg, Rodrigo Lacerda e Carlito Azevedo.
O presidente da Portugal Telecom no Brasil Shakhaf Wine ressaltou que o compromisso da empresa desde a criação do prêmio é com a língua portuguesa.
A curadoria é de Benjamim Abdala, Leyla Perrone-Moisés, Manuel da Costa Pinto e Selma Caetano, que compõem o juri final ao lado de Alcides Villaça, Antonio Carlos Secchin, Cristovão Tezza, José Castello, Lourival Holanda e Regina Zilberman.
O vencedor, que ganhará R$ 100 mil, será anunciado em 8 de novembro. O segundo colocado ganha R$ 35 mil e o terceiro, R$ 15 mil.
Finalistas
A passagem tensa dos corpos
Carlos de Brito Mello
Companhia das Letras
Construído de forma original, com 156 capítulos curtos, trata de um tema consagrado, a morte, com uma abordagem e ambientação surpreendentes. O narrador-personagem, figura indefinível e incorpórea, não é visto nem percebido por ninguém. Sua principal ocupação é percorrer cidades e registrar as mortes que encontra pelo caminho. Numa dessas localidades, há um morto insepulto, cuja família não parece disposta a velar ou enterrar. Como se nada tivesse acontecido, o cadáver é mantido amarrado à cadeira na mesa da sala, enquanto a esposa e a filha se ocupam dos preparativos para o casamento da menina, e o filho do morto permanece trancado no quarto. Se a civilização se ergue sobre uma pilha de cadáveres soterrados, também a vida de cada um precisa da morte para se constituir. Diante da situação surreal testemunhada na casa, o narrador aos poucos se dá conta de que, para existir de fato, necessita, ele mesmo, se apropriar de um dos corpos que encontra.
Carlos de Brito e Mello nasceu em Belo Horizonte, em 1974. É mestre em comunicação social, professor universitário e integra o Coletivo Xepa, de projetos ligados às artes plásticas. Publicou O cadáver ri dos seus despojos (contos) e fez parte das coletâneas Entre duas mortes e Sombras. Foi vencedor, em 2008, do prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Jovem Escritor Mineiro. “A passagem tensa dos corpos” é seu primeiro romance.
AvóDezanove e o segredo do soviético
Ondjaki
Companhia das Letras
A PraiaDoBispo é um bairro tranquilo de Luanda: o VelhoPescador cuida de sua rede, o VendedorDeGasolina espera um cliente que nunca chega, AvóAgnette e AvóCatarina conversam com a vizinha e ralham com os miúdos. As obras de um mausoléu, porém, transformam e ameaçam o cotidiano: soldados soviéticos comandam os trabalhos de construção do monumento, e o projeto de revitalização do local ameaça desalojar os moradores. As crianças da PraiaDoBispo assistem a tudo com seus olhos inocentes mas agudos, e divertem-se com as brincadeiras de rua e com a presença extravagante dos estrangeiros. Elas começam a desconfiar que os "lagostas azuis", como chamam os soviéticos, podem estar tramando algo confidencial. Mas o segredo do soviético pode ter a ver com outras coisas: a enorme quantidade de sal grosso encontrada no depósito da construção, os pássaros de plumagens coloridas mantidos presos em gaiolas ou a dinamite estocada nos barracões do canteiro das obras.
Ondjaki nasceu em Luanda, em 1977. Prosador e poeta, é autor, entre outros, do livro de poemas Há prendisajens com o xão, dos romances Quantas madrugadas tem a noite e Bom dia Camaradas e dos contos de Os da minha rua (os dois últimos finalistas do prêmio Portugal Telecom em 2007 e 2008). Recebeu em 2008 o prêmio "Grinzane for Africa" na categoria jovem escritor.
Caim
José Saramago
Companhia das Letras
Saramago reconta episódios bíblicos do Velho Testamento sob o ponto de vista de Caim, que, depois de assassinar seu irmão, trava um incomum acordo com deus e parte numa jornada que o levará do jardim do Éden aos mais recônditos confins da criação. Num itinerário heterodoxo, o autor percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. No trajeto, o leitor revisitará episódios bíblicos conhecidos, mas sob uma perspectiva inteiramente diferente.?Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.
José Saramago nasceu em 1922, na província do Ribatejo, em Portugal. Exerceu diversas atividades profissionais: serralheiro mecânico, desenhista, funcionário público, editor, jornalista, entre outras. Seu primeiro livro foi publicado em 1947. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente da literatura, primeiro como tradutor, depois como autor. Romancista, teatrólogo e poeta, em 1998 tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Saramago faleceu em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, em 2010. A Fundação José Saramago mantém um site sobre o autor www.josesaramago.org
Lar,
Armando Freitas Filho
Companhia das Letras
Lar, não é um livro de memórias, mas pode ser um livro sobre a memória. A continuidade, por isso mesmo, não é linear. O autor sentiu esses sobressaltos e não procurou corrigi-los, pois como bem anota Vagner Camilo na sua apresentação, "a autobiografia poética não se restringe [...] nem parece obedecer a uma cronologia estrita. E aqui temos que considerar o próprio desajuste do gênero lírico para lidar com a pretensa tarefa autobiográfica de recompor a gênese do indivíduo, mais adequada ao fio contínuo da prosa". O Lar do título com a vírgula sem o seu aposto - uma vírgula em suspenso, ou em suspense -, dá, logo de entrada, visualmente, uma dica do que se vai encontrar de semelhante nos poemas, no fluxo interno e externo deles. Lar, é composto de três partes: "Primeira série" agrupa as sensações e situações pretéritas do autor; "Formação" reúne de forma mais explícita os resultados, as variações e as vivências dessas mesmas sensações e situações, e "Numeral" continua a enumeração que começou no livro Numeral/Nominal, que abre Máquina de escrever - poesia reunida e revista, de 2003. Essa série, que consiste de poemas numerados e datados pelo autor, não tem fim ou acabamento: poderá ser sustada pelo autor ou pelo leitor - por quem piscar primeiro.
Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa, secretário da Câmara de Artes no Conselho Federal de Cultura, assessor do Instituto Nacional do Livro no Rio de Janeiro, pesquisador na Fundação Biblioteca Nacional, assessor no gabinete da presidência da Funarte. É autor de Palavra, Dual, À mão livre, 3x4 (Prêmio Jabuti de Poesia, 1986), De cor, Números anônimos, Fio terra (Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, 2000), entre outros livros. Reuniu sua obra poética em Máquina de escrever (2003).
Leite Derramado
Chico Buarque
Companhia das Letras
Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. A fala desarticulada do ancião cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da personagem parece espontâneo, mas o escritor domina com mão firme as associações livres, as falsidades e os não ditos, de modo que o leitor pode ler nas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a personagem não consegue enfrentar. Tudo, neste texto, é conciso e preciso; como num quebra-cabeça bem concebido, nenhum elemento é supérfluo. Percorre todo o livro a paixão mal vivida e mal compreendida do narrador por uma mulher. Os múltiplos traços de Matilde, seu "olhar em pingue-pongue", suas corridas a cavalo ou na praia, suas danças, seus vestidos espalhafatosos, ao mesmo tempo que determinam a paixão do marido e impregnam indelevelmente sua lembrança, ocasionam a infelicidade de ambos. Embora vista de forma indireta e em breves flashes Matilde se torna, também para o leitor, inesquecível. Outras figuras, fixadas a partir de mínimos traços, circulam pela memória do protagonista: o arrogante engenheiro francês Dubosc; a mãe do narrador, que, de tão reprimida e repressora, "toca" piano sem emitir nenhum som; a namorada do garotão com seus piercings e gírias.
Chico Buarque nascido no Rio de Janeiro em 1944, é cantor e compositor. Obras publicadas por outras editoras: - Roda viva. Sabiá. - Calabar. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1973. - Fazenda modelo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1974. - Gota d'água. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975. - Ópera do malandro. São Paulo, Cultura, 1978. - Chapeuzinho amarelo. Rio de Janeiro, José Olympio, 1979.
Monodrama
Carlito Azevedo
7 letras
Monodrama vem quebrar o jejum de 13 anos de Carlito Azevedo, autor de destaque no atual cenário poético brasileiro. Poemas extensos e uma multiplicidade de personagens surgem destas páginas nas quais predomina a figura do imigrante, do clandestino, do outro a quem o mundo hostil fecha portas. Se o desencanto político dá o tom dos poemas iniciais, a pauta mais autobiográfica da série “H.” é uma novidade no estilo do autor. Neste texto dedicado à experiência da doença e morte da mãe, o autor convoca a ironia e a emoção para afrontar a grande contradição humana: a certeza e a inconformidade com a perda.
Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Rio de Janeiro, 1961) é um editor, crítico e poeta. É editor desde 1997 da revista de poesia Inimigo Rumor (mesmo título do livro Enemigo Rumor, de Lezama Lima), primeiro em parceria com o poeta Júlio Castañon Guimarães e posteriormente ao oitavo número com o poeta Augusto Massi. É coordenador da coleção de poesia Ás de colete. Azevedo cursou a faculdade de letras na UFRJ, voltando sua atenção para a poesia francesa, a qual vem traduzindo regularmente. Conhece José Lino Grünwald que o apóia em sua estréia com o livro Collapsus Linguae (1991), com o qual ganhou o prêmio Jabuti. Em seguida publicou As Banhistas (1993), que tem como centro uma série de poemas com o mesmo título, que pode ser vista como o modelo de sua poética; Sob a Noite Física (1996); e Versos de Circunstância (2001). Em 2001, reuniu seus poemas na antologia Sublunar (1991-2001).
O filho da mãe
Bernardo Carvalho
Companhia das Letras
Em O filho da mãe, Bernardo Carvalho orquestra uma multiplicidade de vozes e pontos de vista, sem nunca perder de foco o motivo recorrente da maternidade, imbricado com o seu avesso: o sentimento de orfandade, de desamparo e desajuste, cuja representação mais crua é a guerra. "As mães têm mais a ver com a guerra do que imaginam", diz a certa altura uma personagem. Embora o pano de fundo da história seja a segunda guerra da Tchetchênia, em 2003, Carvalho volta-se neste romance à figura da mãe, ao tema da maternidade. Serão as mães, moduladas e refratadas nas diversas histórias que aqui se entrelaçam. Do Oiapoque ao Nieva, de Grozni ao mar do Japão, chegam os estilhaços desses dramas de mães culpadas, filhos extraviados e pais tirânicos ou ausentes. Todos os personagens parecem, em alguma medida, estar fora do lugar, em famílias e países alheios - daí a força que adquire, no contexto, a figura monstruosa da quimera, aberração rejeitada pela natureza e pelo homem.
Bernardo Carvalho nasceu em 1960 no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Foi editor do suplemento de ensaios Folhetim e correspondente, em Paris e em Nova York, da Folha de S.Paulo. Publicou: Aberração (coletânea de contos), Onze (romance), Os Bêbados e os Sonâmbulos (romance), Teatro (romance), As Iniciais (romance), Medo de Sade (romance), Nove Noites (romance) - recebeu, a meias com Dalton Trevisan (Pico na Veia), o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, Mongólia (romance) - distinguido com o Prêmio APCA da Associação Paulista dos Críticos de Arte, edição 2003, bem como o Prêmio Jabuti de 2004, ambos na categoria romance, e O Sol se Põe em São Paulo (romance)
Olhos secos
Bernardo Ajzenberg
Rocco
Em Olhos secos, o autor conta a história de Leon Zaguer, um homem dividido entre as anotações de um diário de viagem da juventude e a papelada do cartório em que trabalha, já adulto; entre o desejo de partir e voltar para casa; entre as tradições da família judia e suas próprias escolhas; entre a admiração e o ódio ao próprio pai; entre a passividade de seu temperamento e a necessidade de reagir às ameaças que passa a sofrer de um cliente. Um sujeito, enfim, angustiado pela vida que poderia ter sido e não foi, resignado com o fracasso.
Bernardo Ajzenberg (São Paulo, 1959) é um escritor e jornalista brasileiro. Ajzenberg é coordenador executivo do Instituto Moreira Salles. Também é tradutor e jornalista, tendo trabalhado na revista Veja, jornais Última Hora, Gazeta Mercantil e Folha de S. Paulo, onde exerceu, dentre outras, as funções de secretário de redação e ombudsman. Além de contos em revistas e coletâneas, publicou os romances Carreiras cortadas (1989), Efeito suspensório (1993), Goldstein & Camargo (1994), Variações Goldman (1998), A gaiola de Faraday (2002, prêmio de Ficção da Academia Brasileira de Letras) e o livro de contos Homens com mulheres (2005, finalista do prêmio Jabuti).
Outra vida
Rodrigo Lacerda
Objetiva/Alfaguara
Um homem, uma mulher e sua filha de 5 anos aguardam o momento de embarcar no ônibus que os levará de volta à pequena cidade litorânea de onde vieram. Com a viagem, o marido espera começar uma vida nova, depois de um período cruel na cidade grande. Funcionário de uma estatal, pressionado por necessidades financeiras, ele quebrou seu código de conduta e agora enfrenta a culpa e a perseguição. Mas ela criou raízes onde vive, profissionais e sentimentais, que a fazem desconfiar da salvação no passado e negar o retrocesso de seu projeto conjugal. Por isso, luta até o último minuto para ampliar os horizontes da família. Lentamente, contudo, raízes mais profundas do impasse vão se apresentando. Novos acontecimentos, e novos personagens, perturbam o momento da decisão.
Rodrigo Lacerda nasceu em 1969, no Rio de Janeiro. Mora em São Paulo e trabalha como editor. Publicou os seguintes livros: O mistério do leão Rampante (novela, 1995, prêmio Jabuti e prêmio Certas Palavras de Melhor Romance), A dinâmica das larvas (novela, 1996), Fábulas para o séc. XXI (livro infantil, 1998), Tripé (contos, 1999), Vista do Rio (romance, 2004, finalista dos prêmios Zaffari & Bordon, Portugal Telecom e Jabuti), O fazedor de velhos (romance juvenil, 2008, prêmio de Melhor Livro Juvenil da biblioteca Nacional, prêmio de Melhor Livro Juvenil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; incluído no catálogo White Ravens), Outra vida (romance).
Pornopopéia
Reinaldo Moraes
Objetiva
O protagonista do livro é um produto do nosso tempo, com seu individualismo atroz e sua busca pelo prazer imediato. Sua ambição não é grande, mas seu apetite (por orgasmos e substâncias ilícitas) beira a voracidade. Essa fome o faz mergulhar numa jornada desregrada, de proporções quase épicas, que o autor narra com um texto fluido, inquieto, sempre em movimento, como o personagem. Na contramão dos (anti-)heróis tradicionais, Zeca não está atrás de redenção ou disposto a se transformar. Na maior parte do tempo, quer (muito) sexo, (muitas) drogas e mais nada. Não enxerga o ontem e o amanhã, só o agora. Esse jeito de ser eventual-mente o incomoda (“Porra, às vezes desconfio que não aprendi nada com a vida. No resto das vezes tenho certeza disso.”), mas é algo que ele resolve com mais uma dose.
Reinaldo Moraes (1950, São Paulo, Brasil) é autor de Pornopopeia (2009), um dos grandes livros da safra mais recente da ficção brasileira. Publicou ainda Tanto faz (1981), Abacaxi (1985), Órbitas dos caracóis (2003), um romance para jovens, e Umidade (2005), uma antologia de contos. Além disso, escreveu diversos roteiros para a TV.