Das telas aos livros
PublishNews, Sevani Matos e Hubert Alqueres, 17/09/2026
Os dados sobre consumo e a Bienal de São Paulo revelam novos caminhos da leitura

Uma das imagens mais marcantes da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi a de milhares de jovens fazendo fila para encontrar escritores. Esperaram horas, acompanharam conversas, pediram autógrafos, encontraram amigos que conheciam das redes sociais. Muitos chegaram com malas vazias e saíram com elas cheias de livros. A cena ganha ainda mais significado quando confrontada com um dado preocupante: a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que o país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024 e que, pela primeira vez na série histórica, os não leitores passaram a representar a maioria da população.

Não há contradição entre essas duas fotografias. Há um fenômeno que precisamos compreender melhor. Os dados mais recentes do Panorama do Consumo de Livros, pesquisa da Câmara Brasileira do Livro realizada pela Nielsen BookData, mostram que cerca de três milhões de brasileiros passaram a integrar o universo dos consumidores de livros em 2025, com o maior crescimento entre os mais jovens: somadas, as faixas de 18 a 34 anos avançaram 3,4 pontos percentuais. É preciso, naturalmente, distinguir as pesquisas. Comprar um livro não significa necessariamente lê-lo, assim como ser leitor não implica ter comprado os livros que se lê. Mas, quando colocamos esses dados ao lado do que aconteceu durante os dez dias da Bienal, surge uma questão importante: se o Brasil enfrenta uma redução do número de leitores, o que podemos aprender com os jovens que estão se aproximando dos livros e demonstrando tamanho envolvimento com autores, histórias e comunidades de leitura?

A Bienal oferece algumas pistas. Terminou com 760 mil visitantes, o maior público de sua história, e teve cinco dos dez dias com ingressos esgotados. Mais importante do que a dimensão dos números, porém, foi observar o comportamento desse público. Jovens ocuparam os espaços de programação, transformaram encontros com escritores em acontecimentos e demonstraram uma relação com os livros que não corresponde à imagem tantas vezes repetida de uma geração que teria abandonado a leitura. O que vimos convida a olhar menos para essa oposição e mais para os caminhos pelos quais os livros estão sendo descobertos.

Durante muito tempo estabelecemos uma separação quase automática entre telas e livros. De um lado estariam TikTok, Instagram, YouTube, games e outras formas de entretenimento digital; do outro, a leitura. O crescimento de um significaria necessariamente o enfraquecimento do outro. Os dados mostram uma realidade bem mais complexa. Entre os consumidores de livros, as redes sociais estão entre os principais hábitos de lazer, ao lado da própria leitura. Mais revelador ainda: 65% acompanham algum criador de conteúdo sobre livros ou literatura nas redes sociais, com forte presença dos mais jovens.

Na Bienal, vimos a expressão presencial desse fenômeno. Autores e obras que ganharam projeção no ambiente digital mobilizaram multidões no Anhembi. Comunidades formadas nas redes se transformaram em filas, encontros, conversas e sessões de autógrafos. O ambiente digital, que tantas vezes aparece no debate educacional e cultural apenas como concorrente do livro, também pode funcionar como espaço de descoberta, recomendação e pertencimento. Em muitos casos, a tela não interrompeu o caminho para o livro. Foi parte dele.

Foi atento a essa transformação que o Prêmio Jabuti criou, em 2026, a categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital, destinada a reconhecer criadores de conteúdo que utilizam as plataformas digitais para aproximar pessoas dos livros e estimular a leitura. Durante muito tempo, quando falávamos em mediação, pensávamos principalmente em professores, bibliotecários, livreiros, críticos e famílias. Todos continuam fundamentais. A eles se juntou uma nova geração de mediadores, capaz de recomendar uma obra a milhares de pessoas, formar comunidades em torno de autores e gêneros e despertar o desejo de ler. Reconhecer esse trabalho significa compreender que o ecossistema da leitura se ampliou.

Passamos tempo demais perguntando como tirar os jovens das telas. Uma pergunta mais produtiva é como compreender e ampliar os caminhos que podem levá-los das telas aos livros. Isso não significa ignorar os problemas associados ao excesso de exposição digital nem supor que todo conteúdo sobre literatura produza leitores. Significa reconhecer que mudaram os mecanismos de descoberta, recomendação e pertencimento. Para escolas, bibliotecas, editoras e políticas de leitura, compreender essa transformação é condição para dialogar com os leitores que estão se formando.

A Bienal tornou concreta outra dimensão essencial desse processo: a escolha. Em parceria com a Prefeitura de São Paulo, foram destinados R$ 20 milhões em vales-livro a estudantes e educadores. O cashback também ajudou a transformar parte do valor do ingresso em crédito para aquisição de livros. Há uma diferença enorme entre dar um livro a uma criança e permitir que ela escolha o seu livro. Percorrer estantes, olhar capas, ler sinopses, ouvir uma recomendação, conversar com amigos, desistir de um título e descobrir outro são gestos que ajudam a construir gosto, autonomia e identidade como leitor.

Formar leitores, portanto, não significa apenas ensinar a ler ou colocar bons livros à disposição. É preciso criar desejo, curiosidade, encontro e memória afetiva. Uma criança que visita a Bienal com a escola, um adolescente que espera horas para conhecer e conversar com um escritor ou alguém que compra um livro com seu próprio vale leva para casa mais do que uma obra. Leva uma experiência. A leitura é um ato intelectual e individual, mas o vínculo com os livros se constrói também por emoções, descobertas, referências e pertencimento.

Eventos literários de grande escala cumprem, nesse sentido, uma função que ultrapassa, sem negar, sua dimensão comercial. Não precisamos nos constranger porque uma feira vende livros. Livros precisam circular, editoras precisam vender, autores precisam encontrar leitores e livrarias precisam prosperar. Mas uma Bienal pode fazer muito mais: pode aproximar do livro pessoas que não frequentam regularmente livrarias, bibliotecas, clubes de leitura ou festivais literários. Formação de leitores também exige furar a bolha da leitura.

Há ainda muito a conhecer sobre esses novos leitores. O protagonismo juvenil observado na Bienal não deve ser tratado apenas como curiosidade ou fenômeno de mercado. Que livros esses jovens escolhem? Como chegam a eles? Qual é o peso dos amigos, dos algoritmos, dos criadores de conteúdo e das comunidades digitais? Como transitam entre fantasia, romance, quadrinhos, clássicos, poesia e não ficção? E, principalmente, o que faz alguém passar do primeiro livro para o segundo, o terceiro e o décimo? Se a Retratos da Leitura mostra a dimensão do problema, pesquisas sobre consumo e comportamento podem ajudar a identificar caminhos para enfrentá-lo.

A Bienal reforçou uma convicção: a leitura é um ato individual, mas a formação de leitores é profundamente coletiva. Lemos sozinhos, mas quase nunca chegamos aos livros completamente sozinhos. Um professor, um bibliotecário, um livreiro, um amigo, um escritor, uma família, um crítico ou um criador de conteúdo digital pode abrir essa porta. O desafio não é escolher entre esses mediadores, nem entre o mundo físico e o digital. É multiplicar as portas de entrada para o livro.

Os estandes já foram desmontados e os corredores do Anhembi voltaram a ficar vazios. Os números entrarão para as estatísticas do setor. Mas milhares de livros saíram dali nas mãos de seus novos leitores. Alguns serão esquecidos numa estante; outros serão lidos, emprestados, comentados e recomendados. E alguns representarão o início de uma relação que continuará por décadas.

É aí que os números já não conseguem contar toda a história. A Bienal dura dez dias. O encontro de alguém com um livro pode durar uma vida inteira.


*Sevani Matos é presidente da Câmara Brasileira do Livro. Hubert Alqueres é presidente da Academia Paulista de Educação, editor na Editora Jatobá, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e Curador do Prêmio Jabuti.

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