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Ler o Som: a voz brasileira de Carrère e uma literatura que gosta de incomodar
PublishNews, Monica Ramalho, 18/09/2026
Obra de Jessé de Souza foi toda vertida para audiolivros pela Record, Amelinha Teles por ela mesma em episódio da 'Escute as mais velhas' e o sucesso de vendas da ficção científica brasileira da Aleph

A notícia correu bem: Emmanuel Carrère vai encontrar os seus leitores no Brasil na próxima semana. Há quem já tenha passado muitas horas com as palavras do escritor francês antes mesmo de ele chegar por aqui. O narrador Spencer Toth deu voz às versões em português de alguns de seus livros e conhece por dentro o ritmo, as pausas e o tom de uma escrita que, segundo ele, sempre encontra uma maneira de incomodar.

Spencer transportou para o formato audiolivro títulos como Ioga, V13, Outras vidas que não a minha e Um romance russo, além de ter produzido O adversário. Às vésperas da passagem de Carrère por São Paulo e pelo Rio de Janeiro, a Ler o Som conversou com o experiente narrador, que soma 9.173 livros narrados em 23 anos de ofício, sobre a experiência de levar essa literatura aos ouvidos, o trabalho em estúdio e as escolhas feitas para aproximar do ouvinte uma obra que pode soar jornalística, íntima, dura e até “razoavelmente derrotista”. Leia a entrevista e toda a coluna!

1. Em poucos dias, o escritor Emmanuel Carrère estará na ponte aérea para conversar sobre os seus livros. Como foi a experiência de dar voz a alguns deles?

Narrar parte da obra do Emmanuel Carrère foi muito emblemático para mim porque ele me surpreendeu, de alguma forma, em todos os livros. A maneira como escreve é bem diferente, por exemplo, do Karl Ove Knausgård, que estou narrando agora. Carrère sempre consegue incomodar. Tem um jeito de falar as coisas de uma forma mais macabra, mais dura, mais agressiva, que nos faz pensar sobre a realidade da vida. Gosto, em especial, da pegada razoavelmente derrotista. O Karl também tem essa característica, mostra muito o lado ruim da vida dele, o que é bem interessante em tempos de autopromoção nas redes sociais.

2. Algum desses livros exigiu um preparo diferente? Quanto tempo em estúdio? Você lê o livro antes de gravar?

Sou um profissional de voz muito dedicado e, desde que iniciei na narração, há 23 anos, sempre me aprofundei muito na performance. Dos 9.173 livros narrados até hoje não li nenhum antes de apertarem o rec. Narro tudo de improviso, sentindo cada palavra pela primeira vez. As escolhas vão surgindo em estúdio. Gravo, em média, de 40 a 50 páginas por dia. Isso significa que uma obra de 300 ou 400 páginas leva entre oito e dez dias para ser gravada. Um livro como Um romance russo, com cerca de 400 páginas, levou aproximadamente duas semanas.

3. O que mais chama atenção nesses audiolivros como produto final?

Foi conseguir transportar para a narração o tom que o Carrère imprime nos textos. Com exceção de V13, que tem uma pegada mais jornalística, há sempre uma aura um pouco depressiva, que me impressiona. E, quando você faz uma narração num tom mais baixo, o livro se torna mais íntimo para quem escuta. O ritmo e o tom da narração fazem com que a obra fique muito próxima dos ouvintes, que têm a possibilidade de sentir as palavras chegando devagar, quase como se estivesse ouvindo um diário.

GRAÚDAS

TODO JESSÉ EM ÁUDIO | O que os livros A herança do golpe, A elite do atraso, Brasil dos humilhados e A construção social da subcidadania têm em comum, além de terem sido escritos por Jessé de Souza e publicados pela Civilização Brasileira, selo da Record? Chegam em breve à Audible, completando a narração de toda a obra do sociólogo, mais urgente do que nunca neste conturbado período eleitoral. Dentro de três semanas o brasileiro escolherá o próximo presidente do país e dá um respiro saber que O pobre de direita, narrado por Bruno Villa, é o mais avaliado de seus livros dentro da plataforma americana. Quem sabe Jessé ajude a pensar o país que vai às urnas? O narrador Fernando Peiter emprestou a sua voz às páginas de A herança do golpe e Camilo Schaden narrou os outros livros, que incluem Por que a esquerda morreu?, A ralé brasileira e A classe média no espelho. Todos gravados em praticamente um ano e a tempo de serem lidos para o voto consciente em 4 de outubro.

BALANÇO CIENTÍFICO | A Editora Aleph está felicíssima com o balanço de vendas pós-Bienal do Livro de São Paulo. Isso porque quatro de seus novos livros de ficção científica, escritos por brasileiros e lançados simultaneamente em papel, digital e áudio, venderam super bem. A besta, de Felipe Castilho; Sol de limão, de Lady Sybylla; Uma longa órbita, de Jana Bianchi; e Repetição, de Alexey Dodsworth entraram nos dez títulos com mais saída durante o megaevento que bateu todos os recordes de público — com os prós e contras embutidos. Gravado por Livia Simardi, em parceria com a BW, Repetição trouxe um desafio a mais: ela assumiu a persona de uma voz de Inteligência Artificial para fazer a sua narração. Será que deu certo? Essa a gente só vai saber com os fones nos ouvidos! Escute aqui!

MORTINA PARA MENORES | A pequena zumbi Mortina, criação da escritora e ilustradora italiana Barbara Cantini, está prestes a ganhar voz em português. O primeiro livro da coleção, publicado pela Companhia das Letrinhas para brasileirinhos a partir dos 6 anos, está sendo transformado em um audiolivro sonorizado, em plena produção no estúdio Alma Sintética, no Rio de Janeiro. O projeto tem a participação e aprovação da autora e parte de uma referência importante: o universo de Mortina já ganhou versões em áudio no idioma original, o italiano, e a ideia é transportar para o português essa identidade sonora. E não deve parar no primeiro volume. Pelo contrário! O plano é levar aos ouvidos brasileiros toda a coleção da personagem, mantendo o diálogo com os originais. Em uma história que nasceu cercada pelas ilustrações deliciosamente macabras de Cantini, a passagem para o áudio propõe ainda outra brincadeira às crianças: esquecer um pouco as telas acesas e deixar que os cenários sejam desenhados pela imaginação.

IA EM ESTÚDIO | Para ser discutido na mesa do bar: o Spotify avançou na versão beta de uma ferramenta que permite a autores independentes transformar as suas narrativas em audiolivros com vozes sintéticas da ElevenLabs. Por enquanto, vale só nos Estados Unidos e não inclui editoras. Integrado ao Spotify for Authors, o recurso recebe o original em EPUB, permite escolher a voz, ajustar pronúncias e ouvir prévias dos capítulos antes da publicação. Cada conta pode criar gratuitamente até cinco audiolivros, com textos de até 150 mil palavras, sem assinatura de exclusividade. Os títulos são identificados na plataforma como narrados por voz sintética. A ferramenta foi anunciada em maio e testada inicialmente com um grupo de convidados. Desde 2025, o Spotify aceita audiolivros produzidos com vozes da ElevenLabs, mas a novidade leva a criação do áudio para dentro da própria plataforma.

ESCUTA ESSA

Amelinha Teles n'A Feira do Livro © Nilton Fukuda
Amelinha Teles n'A Feira do Livro © Nilton Fukuda

AMELINHA TELES NO OUVIDO | Nas ondas sonoras desde março de 2025, o podcast Escute as Mais Velhas coloca duas mulheres extraordinárias para conversar com outras mulheres, todas com quilômetros acumulados de experiências no ativismo. Sueli Carneiro, 76 anos, e Neca Setúbal, 75 anos, gravaram um dos 25 episódios lançados até agora com Amelinha Teles, uma das principais referências do movimento feminista do Brasil. Jornalista, escritora e ativista dos direitos humanos e pelo fim da violência contra a mulher, Amelinha nos deixou essa semana, aos 81 anos. O seu nome está gravado na luta contra a ditadura militar, a favor da democracia e em memória aos mortos e desaparecidos políticos. Delicie-se com o papo das três, que rebobina a vida e a obra de Amelinha, neste link.

ÁUDIO EM VERSO | A newsletter foi descontinuada, mas existem dez edições prontinhas para serem garimpadas e devidamente curtidas. Criada por André Palme, profissional com longa atuação no setor, a Audioverso guarda em seu endereço no Substack um baú de reflexões, notícias e tendências de 2022, além de entrevistas e indicações de conteúdos sonoros. A proposta era fazer apanhados mensais sobre esse universo, pensados tanto para quem já vive de fones nos ouvidos quanto para profissionais da indústria. Entre os assuntos que fizeram os olhos de Palme brilhar estão hábitos de consumo, duração e formatos das produções, criação de comunidades, propriedade intelectual, inteligência artificial e a circulação de conteúdos entre diferentes mercados. Atualmente, o executivo — que também é colunista do PublishNews — está tocando a Newsletter do Palme. Aproveita e assina a nova enquanto descobre a antiga.

*Monica Ramalho é jornalista e fotógrafa, comunicadora e parecerista de editais de cultura, segmento no qual atua há mais de 25 anos e tem um nome consolidado. É também criadora de Um Oceano Delas, podcast e newsletter sobre literatura feita por mulheres que vai lançar a sua terceira temporada dentro de algumas semanas, e equilibra pratinhos com muita alegria à frente da sua Belmira Ideias e Conteúdo. Trabalha como editora-assistente do PublishNews desde agosto de 2025.

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José Luís Peixoto
Escritor português

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