
A Espanha é o País Convidado de Honra desta 28ª Bienal Internacional de São Paulo (4 a 13 de setembro), e trouxe uma comitiva de 50 autores e autoras, sob curadoria da escritora Marta Sanz — vencedora do Premio Herralde (2015) e de outras distinções espanholas, a autora também está lançando seu primeiro livro no Brasil: Minha clavícula e outros imensos desajustes (DBA Literatura), com tradução de Silvia Massimini Felix. Marta recebeu o PublishNews no Pavilhão da Espanha neste sábado (5) de Bienal, e explicou que tentou montar uma programação em torno dos assuntos principais da literatura espanhola contemporânea, ao mesmo tempo buscando um diálogo com a produção brasileira.
"Eu queria mostrar algo que não fosse o óbvio do ponto de vista do mercado", explica. "Queria dar visibilidade a propostas literárias e culturais que fazem parte da musculatura cultural da Espanha, mas que às vezes não chegam tão facilmente a outros lugares. Para mim isso era absolutamente prioritário: mostrar uma literatura que fosse literária. Uma literatura literária que reflete as contradições, as metamorfoses do mundo em que estamos vivendo e que o fizesse de um modo formalmente intrépido. Isso para mim era fundamental."
Entre os autores que integram a comitiva, estão nomes como Xesús Fraga, Bernardo Atxaga, Candela Sierra, Alana S. Portero, Sabina Urraca, María Folguera, Katixa Agirre, Berta Dávila, Gemma Ruiz Palà, Azahara Palomeque, Carlos Zanón, Elena Medel, Isaac Rosa, María Canosa, Sara Barquinero, Harkaitz Cano, Marc Collel, Elvira Navarro e Rosario Izquiedo — e outros mais conhecidos do leitor brasileiro, como Patricio Pron e Gabriela Wiener (argentino e peruana, mas que vivem na Espanha há muitos anos).
Mesmo antes da seleção dos nomes, Marta explica que pensou nas linhas gerais da literatura espanhola. "Acredito que os temas fundamentais sejam a memória, a viagem, as convicções, os novos limites sob todos os pontos de vista. Como estamos fazendo uma tentativa para que sejam iluminados lugares de fala que não tinham peso na literatura. Pensei também em como tudo isso poderia se sobrepor a uma cartografia da literatura brasileira, que eu passei a ler e estudar e que me pareceu maravilhosa. É como se puséssemos em transparência a literatura espanhola com os aprendizados que eu tinha da literatura brasileira, da leitura de Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Guimarães Rosa, e até de Nelson Rodrigues. Era um pouco essa ideia de buscar essas confluências e, a partir daí, pensei nos nomes. Na seleção dos nomes, para mim foi muito importante buscar personalidades literárias que, de algum modo, não estivessem muito presas a um único gênero. Gente que pudesse ter a sua própria maneira de entender a literatura, que já tivesse escrito ensaio, mas que também fossem poetas, que tivessem feito indagações na narrativa viva...", comentou.

Tal como o Brasil e os países de língua espanhola da América do Sul, a autora avalia que a interação literária entre Portugal e Espanha ainda tem muito a evoluir. "Dentro do nosso eurocentrismo, o peso da literatura francesa, por exemplo, sempre foi muito grande. Então, acho que temos uma oportunidade e devemos reivindicar esses laços que estão aí, mas que não são tão frequentados."
Programa da Espanha na Bienal
A programação da Espanha na Bienal tem 30 sessões que abordam alguns desses temas e tendências mencionados: transgressão de identidades e fronteiras, a estranheza e o terror, a escrita do espaço, a ecologia, as literaturas do eu e as novas formas de autoficção, a memória democrática e a revisão crítica da história, entre outras.
Uma parte dos autores e autoras da delegação espanhola também estará em diferentes sedes do Instituto Cervantes no Brasil, nas quais farão apresentações, conversas e oficinas.
O pavilhão da Espanha, de 500 m², foi idealizado pelo PeiPe Estudio SL. Sob o lema “Confluências”, o estande, inspirado nos mosaicos do artista Roberto Burle Marx, "se configura como uma paisagem contínua de peças, cuja geometria irregular e fluida evoca a diversidade da literatura espanhola contemporânea e o seu diálogo com o Brasil", diz o material de comunicação do país. O espaço está estruturado em diferentes âmbitos conectados entre si: uma área de exposição de livros (que não estão à venda), um espaço para encontros profissionais, um espaço para compra e venda de direitos e um auditório para a programação literária e musical.
'Clavícula'
No livro Minha clavícula e outros imensos desajustes (DBA Literatura) — publicado agora em agosto no Brasil —a própria escritora está em uma viagem de trabalho quando sente, pela primeira vez, uma dor aguda na clavícula. "Em busca da causa, inicia um périplo de consultas aos mais variados especialistas, mas não encontra um diagnóstico definitivo para o sintoma que persiste. Em meio à indeterminação, ela se analisa no medo, na paranoia, no privilégio e na precariedade, construindo uma peculiar — às vezes hilária — personagem de si", diz a sinopse da editora — lá fora, a obra foi classificada como autoficção.

"Este livro foi algo que escrevi em um momento crítico da minha vida, a respeito da minha visão do corpo, da minha experiência com a menopausa, com a fragilidade, que se manifestou por uma dor", explica a autora ao PublishNews. "Essa dor disparou muitos medos, fundamentada no receio do fracasso da minha relação sentimental, da precariedade laboral. Então, a partir daí, me dei conta de que é muito difícil separar o íntimo do público, o pessoal do econômico, as classes de vida, o gênero. Esse livro nasceu dessa experiência e deu lugar a um texto literário com uma estrutura fragmentada. Este livro tem poesia, tem reflexões, tem cenas muito cotidianas e cômicas; tem essa fragmentação um pouco como a experiência que temos no corpo quando experimentamos dor."






