
A 34ª Convenção Nacional de Livrarias se encerrou nesta quinta-feira (3) e precedeu a 28ª Bienal Internacional do Livro no Distrito Anhembi, e reuniu profissionais do mercado editorial com a pauta de discutir rumos do setor no país. Em meio a ações comunitárias e espaços de convivência, clubes de leitura e atividades para crianças, as livrarias vêm ampliando seu papel para além da venda de livros: enquanto se consolidam como pontos de encontro, formação de leitores e circulação cultural, enfrentam uma questão essencial: como sustentar economicamente um negócio cuja função, cada vez mais, ultrapassa o balcão e o caixa? Essas questões perpassaram os debates da quinta-feira.
Com o tema "A Livraria como lugar de encontro", o último dia de programação foi aberto por Adalberto Ribeiro, livreiro da Livraria Simples e idealizador da Feira do Livro da Rocha, evento literário comunitário realizado na região do Bixiga, e da Biblioteca Comunitária Saracura, inaugurada em julho deste ano.
A apresentação de Beto, como é conhecido no mercado, partiu de uma premissa central: vender livros é apenas uma parte do trabalho da livraria. "A gente não está fazendo filantropia, não tem dinheiro sobrando, por isso estamos investindo na formação de novos leitores", afirmou. A frase, que ecoou ao longo do dia, quebra a falsa oposição que existe entre negócio e cultura.
A Feira do Livro da Rocha (Flir) nasceu justamente dessa perspectiva. Em vez de esperar o leitor chegar até à livraria, a iniciativa propõe levar o livro para onde as pessoas já estão. Inspirada nas manifestações culturais do Bixiga, como a Festa de Nossa Senhora Achiropita, que cresceu de 26 para 1,2 mil voluntários em anos de atuação, a Flir incorpora elementos do cotidiano do bairro: brinquedos para crianças, atendimento jurídico, corte de cabelo gratuito, entre outros.
A lógica é deliberadamente diferente de um festival literário convencional. "Eu acho que não existe não leitor", provocou Beto, ao explicar que o objetivo é atrair pessoas que não se identificam como leitoras de livros. Os números da edição mencionada impressionam: três dias de evento, oito livrarias envolvidas, aproximadamente 15 mil visitantes, mais de 60 editoras, mais de 90 atividades sociais e culturais e mais de 40 mil livros disponibilizados. A iniciativa envolveu diversas organizações do território — entidades culturais, escolas, projetos sociais, lideranças comunitárias, grupos religiosos e movimentos ligados à cultura negra.
O desafio da formação continuada de leitores
Na sequência, a mesa "Clubes de leitura como ferramenta de engajamento" reuniu Bel Santos Mayer, da Lucia Livraria, Alessandra Effori, da Livraria Bibla, com mediação da professora e diretora da Escrevedeira, Luciana Gerbovic.
O debate trouxe a reflexão de que a formação de leitores não termina na alfabetização. "Tenho certeza. É um contínuo”, afirmou Bel Santos Mayer, ao falar da metodologia dos círculos que coordena em bibliotecas comunitárias. Ela destacou também que seu método possui três etapas: primeiro, a conversa sobre como a literatura encontra o leitor, a leitura de cada participante sobre a obra e o debate e a discussão, que ficam reservados para um momento posterior. "A gente tem vivido um tempo muito epidérmico, discutindo coisas que a gente nem sabe o que é", observou Mayer.
Alessandra Effori trouxe a experiência do clube da Livraria Bibla, na Zona Oeste de São Paulo, destacando o caráter horizontal dos encontros. "Não é palestra, não é professor, não é acadêmico. É um clube de encontro, de escuta e de muitas histórias", disse. Uma das perguntas do público provocou uma reflexão sobre a ausência masculina nos clubes de leitura. A resposta apontou para o patriarcado como fator estrutural: os clubes são espaços de vulnerabilidade e conversa, onde homens, socialmente educados para não se mostrar frágeis, encontram mais dificuldade de participar.
A experiência argentina e a defesa do preço fixo
A convidada internacional Laura Forni, proprietária da Librería Trem Nocturno, em Buenos Aires, e secretária-geral da Câmara Argentina de Livrarias Independentes (CALI), apresentou a campanha em defesa da Lei de Atividade Livreiro na Argentina (lei 25.542). A lei, promulgada em 2002, estabelece que o editor ou importador determina que o preço do livro deve ser respeitado em todos os pontos de venda. A proposta baseia-se em dois pilares: combater a concorrência desleal que poderia sufocar livrarias independentes, e preservar a bibliodiversidade, evitando que a concorrência por preço privilegie apenas best-sellers e grandes grupos editoriais.
A apresentação mostrou números expressivos de crescimento do setor argentino entre 2001 e 2022: as livrarias passaram de 500 para 1.623; as editoras, de 1.598 para 4.000; e os lançamentos anuais, de 13.428 para 35.500.
A CALI nasceu oficialmente em dezembro de 2023, a partir de um grupo informal com cerca de 250 livrarias surgido durante a pandemia do covid-19. Em 2024, com a posse de Javier Milei, surgiram tentativas de revogação da lei, mobilizando o setor em uma frente ampla com profissionais do mercado e que ganhou o apoio do público leitor. "O preço fixo não anula a concorrência, a desloca do preço para o serviço", destacou Laura Forni, sob o argumento de que, quando o preço é igual em todos os lugares, a concorrência passa a ser por atendimento, curadoria e experiência.
Livrarias infantis e o equilíbrio entre permanência e venda
O painel "Livrarias infantis e formação de leitores" reuniu Júlia Souto, da Livraria Miúda, e Jéssica Nolte, da Casa Cosmos, ambas na capital paulista, com a mediação de Kin Guerra, editora Solisluna e Terra Libris livraria. A pergunta que norteou o debate foi: como estimular as pessoas a permanecerem no espaço sem perder de vista que a livraria precisa vender livros para sobreviver? A resposta de ambas foi semelhante: a permanência não é inimiga da venda. Na Miúda, famílias frequentam quase diariamente; algumas visitas não resultam em compra, mas, em outras, essas mesmas famílias compram livros. "Só abrir a porta e esperar chegar, não vai funcionar", afirmou Júlia Souto.
Jéssica Nolte contou que sua relação com a literatura infantil se aprofundou quando sua filha nasceu e a família enfrentou um período delicado de doença na família. "O livro infantil vai muito além da infância", disse. Seu marido faleceu pouco antes da abertura da Casa Cosmos, e os livros infantis foram particularmente importantes no processo de luto.
O último dia da 34ª Convenção Nacional de Livrarias deixou uma mensagem clara: a livraria contemporânea é mais do que um ponto de venda: é um espaço de formação de leitores, de promoção da cultura e de articulação comunitária. A sobrevivência das livrarias e sua manutenção depende de uma rede mais ampla que envolva curadoria, comunidade, formação de leitores e política econômica e cultural.






