
A nova fase de um estudo com inteligência artificial mostrou que a IA está se disseminando entre títulos de livros disponíveis online. Conduzido por pesquisadores nos EUA, a pesquisa selecionou 14.419 e-books de ficção vendidos principalmente na Amazon norte-americana. Os resultados pré-publicação da pesquisa indicaram que 20% dos títulos da amostra possuem mais de 25% de texto detectado como gerado por IA.
Na versão 3 do estudo Generative AI floods and dilutes the market for books (A IA generativa inunda e dilui o mercado de livros), publicada em 3 de agosto, os autores Tuhin Chakrabarty, Xinyue Liu, Jane C. Ginsburg e Paramveer Dhillon analisam 14.419 e-books de ficção lançados entre janeiro de 2023 e março de 2026, além de suas vendas até 29 de junho. O texto continua sendo um preprint (pré-publicação), portanto ainda não representa um resultado definitivo.
Os textos selecionados para o estudo foram submetidos ao detector Pangram 3.3, capítulo por capítulo. Depois disso, os textos foram classificados em três grupos: nenhum trecho sinalizado de IA, até 25% de texto detectado, e mais de 25%. Talvez a principal ressalva da pesquisa até o momento seja a de que os resultados indicam livros cujo conteúdo foi "detectado como IA", e não que sua criação artificial seja um fato comprovado. Além disso, os pesquisadores destacam que nenhuma das 14.419 obras analisadas indicava se continha texto gerado por IA.
As diretrizes da plataforma do Kindle Direct Publishing exigem que a Amazon seja informada quando um texto, imagem ou tradução for gerado por IA, mesmo após edições significativas. Por outro lado, o uso de ferramentas para corrigir, aprimorar ou ter ideias se enquadra como "IA assistida" e não precisa ser declarado.
Cabe ressaltar que o escopo da pesquisa limita-se à ficção de gênero, majoritariamente autoeditada e ativa na Amazon — apenas cerca de 0,3% do acervo foi identificado como publicação tradicional.
Livros com com indício de IA não têm sucesso de vendas
Nessa contagem, 2.880 títulos (o que representa 20% do acervo) ultrapassam o limite de 25%. No entanto, eles representam apenas 12,1% das vendas e 11,3% da receita observada durante o período de lançamento. No outro extremo, as obras sem nenhum texto sinalizado representam 62,9% da amostra, mas correspondem a 71,7% dos exemplares vendidos e 72,5% do faturamento.
Esse mesmo raciocínio se repete no topo de vendas: entre os 5% de títulos com as melhores vendas iniciais, a proporção de livros com alta detecção de IA cai para 10%. Produzir com muita IA — ou pelo menos deixar vestígios suficientes para disparar os alertas do Pangram — ainda não se traduz em uma receita mágica para o sucesso editorial. Esse encaminhamento vai de encontro com outro estudo publicado pela Cambridge University Press na revista Judgment and decision making, em que leitores avaliam melhor textos de IA quando acreditam que foram escritos por humanos.
No entanto, o comparativo ao longo dos anos mostra um avanço das obras com traços de IA. A fatia de vendas pertencente aos títulos que superam os 25% saiu de quase zero no início de 2023 para se aproximar de 20% no segundo trimestre de 2026. Nos rankings Top 25 reconstruídos a partir das posições na Amazon, a presença desses livros entre os novos lançamentos chega a 31%.
Entre o início de 2023 e o primeiro trimestre de 2026, o número de títulos do grupo estudado que registraram vendas em um trimestre foi multiplicado por 19,2. As vendas individuais, por sua vez, cresceram apenas 7,3 vezes, e o faturamento, 8,9 vezes. Essa desproporção entre a concorrência tem sido chamada pelos autores de "diluição".
Nesse sentido, as obras com forte indício de uso de inteligência artificial ganham espaço justamente por demorarem muito menos tempo para entrarem no mercado. A pesquisa demonstra que entre os 385 perfis de autores que publicaram outros títulos com alto teor de IA após o primeiro lançamento, 287 aumentaram seu ritmo de publicação mensal e seus números de faturamento são significantes no mercado:
- Oito títulos associados ao perfil de autor mais lucrativo geraram US$ 1,7 milhão em receita bruta nos doze meses seguintes à sua primeira publicação com alta detecção de IA
- O livro de maior sucesso arrecadou US$ 643 mil com 80.431 cópias vendidas em seu primeiro ano






