
PARATY (RJ) — As ruas cheias desde a última quarta-feira já davam uma pista. Livros e revistas desaparecendo das pilhas, casas movimentadas o tempo todo e auditórios disputados transformaram Paraty, mais uma vez, na capital literária do país. Os números apresentados pela organização no encerramento da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), neste domingo (26), confirmaram a percepção: a edição reuniu cerca de 40 mil visitantes, o maior público de sua história, um aumento de cerca de 17,65% em relação aos últimos anos, e registrou um recorde de 46 casas parceiras e quase mil atividades entre as programações oficial e paralela. Em 2025, foram 35 mil visitantes, segundo a prefeitura, e 39 casas parceiras.
Os recordes marcaram a estreia da livreira e crítica literária Rita Palmeira na curadoria da festa. Inspirada na obra da poeta paulista Orides Fontela (1940-1998), homenageada desta edição, a programação acolheu escritores de diferentes gerações e nacionalidades e convidou ao palco a literatura contemporânea — os livros mais vendidos confirmam essa sensação, com Valter Hugo Mãe, Socorro Acioli e Paulliny Tort no topo da lista —, reafirmando o valor da Flip para o mercado editorial.
Ao longo de cinco dias, as ruas de Paraty voltaram a reunir leitores, autores, editoras, livreiros, bibliotecários, agentes e profissionais do livro em um ambiente no qual a programação oficial conviveu em harmonia com dezenas de iniciativas espalhadas pela cidade. Além das 21 mesas no Auditório da Matriz, que trouxe novos nomes na mediação, as casas parceiras mantiveram uma agenda intensa, com atrações de grande repercussão, como a participação de Angela Davis na Casa Sesc Caborê. Pela primeira vez, o roteiro alternativo dessas atividades foi reunido em um livreto organizado pela influenciadora Tatiany Leite.

Durante a coletiva de encerramento, a organização comemorou o crescimento da festa, mas reconheceu que a expansão da programação também traz novos desafios. Entre eles estão a convivência entre as atividades oficiais e paralelas, a sustentabilidade do modelo e a preservação da experiência do público em uma cidade histórica com capacidade limitada para receber um evento que segue em expansão.
Os desafios também apareceram na infraestrutura. Criada para ampliar o acesso às mesas do Auditório da Matriz, a tradicional tenda do telão concentrou parte das reclamações do público. Além da redução no número de assentos em relação às edições anteriores, espectadores relataram problemas no áudio, interrupções na transmissão e dificuldades na tradução simultânea de alguns encontros internacionais, pontos que deverão entrar no balanço da organização para as próximas edições.
A falta de energia registrada na quinta-feira (23), antes da chegada do maior fluxo de visitantes para o fim de semana, e um tumulto durante a mesa que reuniu a escritora Conceição Evaristo e a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, também expuseram os limites da infraestrutura diante do crescimento da festa.

Mesmo diante desses desafios, a edição de 2026 deixa um indicativo valioso para o mercado editorial. Em um ano eleitoral e marcado pela cautela de patrocinadores diante das incertezas do cenário mundial, a Flip viu seu orçamento encolher 48% em relação a 2025. Ainda assim, realizou a maior edição de sua história e demonstrou que uma programação construída a partir da literatura, reunindo autores consagrados e novas vozes, brasileiras e estrangeiras, continua mobilizando milhares de leitores.
Na coletiva, o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz — presença na Casa PublishNews na mesa O mapa da mina: A força dos eventos literários, ao lado de Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros, e de Fabiano Piúba, secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura — defendeu uma maior articulação entre a programação oficial e as iniciativas independentes, para que a expansão da festa continue acompanhada de planejamento e responsabilidade compartilhada.
Livraria da Flip (Travessa)— Livros mais vendidos (resultado parcial, de 22 a 26 jun - 12h)
- O século dos imbecis, de Valter Hugo Mãe (Biblioteca Azul)
- Amar é inadiável, de Socorro Acioli (Planeta)
- Os imortais, de Paulliny Tort (Fósforo)
- Pela mão do povo: voto e democracia no Brasil, de Cármen Lúcia (Bazar do Tempo)
- Malária, de Carmen Stephan (Tinta-da-China Brasil)
- O boxeador polonês, de Eduardo Halfon (Autêntica Contemporânea)
- Bom dia, inverno, de Tamara Klink (Companhia das Letras)
- Os enigmas singulares: antologia poética, de José Tolentino Mendonça (Círculo de Poemas)
- A paixão pela mentira, de Paulo Schiller (Todavia)
- A pediatra, de Andréa Del Fuego (Companhia das Letras)
- O aniversário, de Andrea Bajani (Companhia das Letras)
- A era de Ricardo III: guerra cultural como método, de João Cezar de Castro Rocha (Autêntica)
- Teia, de Orides Fontela (Hedra)
- O sentido das águas, de Drauzio Varella (Companhia das Letras)
- Alba, de Orides Fontela (Hedra)






