
O editor egípcio Yehia Fekry recebeu o Prix Voltaire de 2026 da Associação Internacional de Editores (IPA) durante a cerimônia de premiação do 35º Congresso Internacional de Editores em Kuala Lumpur, na Malásia. A IPA também anunciou um Prêmio Especial Prix Voltaire para o falecido editor egípcio Mohamed Hashem.
Os indicados ao Prix Voltaire são editores — indivíduos, grupos ou organizações — que publicaram obras controversas sob pressão, ameaças, intimidação ou assédio, seja por parte de governos, outras autoridades ou interesses privados. A El Maraya, editora de Yehia Fekry, foi fundada no Cairo em 2016. Com mais de 250 títulos que demonstram uma postura editorial independente, a casa tem sido alvo de pressões institucionais, incluindo a exclusão da Feira Internacional do Livro do Cairo em 2025 e 2026. Sua sede foi invadida cinco vezes entre 2018 e 2024, resultando na prisão de funcionários e no confisco de todas as cópias de alguns livros, além da proibição de a editora republicá-los. É possível consultar o catálogo da editora, em inglês, neste link.
Na cerimônia, celebrando o 20º aniversário do prêmio, os laureados de edições anteriores — Khaled Lotfy (Tanmia, Egito, 2019), Rasha Al Ameer (Dar Al Jadeed, Líbano, 2021) e Nadia Kandrusevich (Koska, Bielorrússia, 2025) — debateram sobre a liberdade de publicação e a importância da premiação.
Durante o evento, Jessica Sanger, presidente do Comitê de Liberdade de Publicação da IPA, declarou: "Por meio da lista de finalistas deste ano, vemos mais uma vez editores sendo obrigados a operar no exílio. Editores sendo excluídos de feiras de livros e festivais literários; editores defendendo a diversidade de ideias e desafiando leis restritivas, dando voz a comunidades que, de outra forma, seriam privadas da chance de contar suas histórias. Editores vivendo em contextos de guerra e, ainda assim, tentando publicar livros que ajudem a dar sentido ao mundo ao nosso redor. Como Comitê de Liberdade de Publicação, temos plena consciência de que não temos apenas a responsabilidade de gerir o prêmio com base nas indicações que recebemos, mas também de que cada novo ano traz um compromisso renovado com os laureados dos anos anteriores."
Fazendo referência a reportagens recentes, ela acrescentou que a Associação segue muito preocupada com a sentença de Sihem Bensedrine, laureada de 2009, a 25 anos de prisão por seu trabalho em defesa da liberdade na Tunísia.
Ao aceitar o Prix Voltaire de 2026 da IPA, Yehia Fekry, fundador e CEO da El Maraya, afirmou: "A El Maraya foi fundada em 2016 com uma missão simples, mas ambiciosa: fornecer uma plataforma para as vozes jovens que surgiam das novas correntes democráticas e liberais do Egito, e para perspectivas críticas que frequentemente lutam para encontrar espaço no discurso intelectual e político dominante. Ao longo do tempo, a El Maraya conseguiu construir uma ampla comunidade de leitores e seguidores. No entanto, a natureza da nossa missão cultural — e as perspectivas críticas refletidas em nossas publicações — nos expôs a inúmeras pressões institucionais que desafiaram nosso trabalho desde o início e continuam a fazê-lo hoje. Apesar dessas pressões contínuas, permanecemos comprometidos com nossa missão e determinados a levá-la adiante. Continuamos comprometidos com o direito das pessoas ao conhecimento e com o direito de escritores e pesquisadores de expressarem suas ideias livremente."
Gvantsa Jobava, presidente da IPA, disse acreditar que a edição é uma profissão para pessoas de coragem e de responsabilidade. "Exige coragem porque as ideias progressistas que escritores de diferentes épocas ofereceram por meio da literatura muitas vezes nunca teriam visto a luz do dia se os editores tivessem medo — medo de novas ideias, da ousadia de seus autores, de palavras afiadas, de denúncias destemidas, de verdades desconfortáveis, da livre expressão e das ideias de liberdade; medo de reconhecer e abraçar a singularidade dessas ideias. E exige responsabilidade porque a dignidade de editores, autores e leitores, testada nos tempos mais difíceis, sempre dependeu, e ainda depende hoje, de permanecermos fiéis às responsabilidades de nossa profissão. No entanto, as histórias extraordinárias de editores que lutaram pela liberdade de publicação, preservadas na história de vinte anos do Prix Voltaire, estão acima até mesmo da coragem e da responsabilidade. São exemplos de heroísmo genuíno! Heroísmo em defesa da dignidade humana; heroísmo a serviço da profissão editorial; e heroísmo na causa da própria liberdade. É assim que se forja a aliança harmoniosa entre editor e autor, preservando o valor único e a dignidade duradoura dos livros e da profissão editorial."
Sobre o Prêmio Especial Prix Voltaire
Periodicamente, o Comitê de Liberdade de Publicação da IPA concede o Prêmio Especial Prix Voltaire, uma homenagem póstuma a indivíduos que morreram recentemente por exercerem sua liberdade de expressão ou que foram defensores notáveis da liberdade de publicação em vida. O objetivo é dar visibilidade ao engajamento excepcional do laureado em prol da liberdade de expressão e expor como ele ou ela foi silenciado(a).
Mohamed Hashem, laureado com a homenagem deste ano, foi o corajoso fundador da Merit Publishing House, uma editora egípcia independente dedicada à liberdade de expressão e à promoção de escritores emergentes e vozes marginalizadas no mundo árabe desde 1998. Ativista assumidamente antiautoritário, Hashem cofundou o Movimento Kefaya em 2004 e o Movimento de Escritores e Artistas pela Mudança em 2005, o qual sediou na Merit. Mais tarde, ele transformou a editora em um quartel-general permanente para a Revolução de 25 de Janeiro de 2011, fornecendo ajuda crucial aos manifestantes.






