Lídia Jorge é a vencedora do Prêmio Camões de Literatura 2026
PublishNews, Redação, 03/07/2026
Premiação é a mais importante da língua portuguesa; autora portuguesa, que tem suas obras publicadas no Brasil pelo selo Autêntica Contemporânea, receberá 100 mil euros

Escritora portuguesa Lídia Jorge; obras no Brasil saem pela Autêntica Contemporânea | © Luisa Ferreira
Escritora portuguesa Lídia Jorge; obras no Brasil saem pela Autêntica Contemporânea | © Luisa Ferreira

A escritora portuguesa Lídia Jorge é a vencedora do Prêmio Camões de Literatura 2026, a distinção mais importante da língua lusófona. O resultado foi anunciado nesta quinta-feira (2), após a reunião virtual do júri. A autora receberá premiação no valor de 100 mil euros – concedida por meio de subsídio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN/ MinC do Brasil) e do Governo de Portugal – além de um diploma assinado pelos chefes de estado dos dois países.

Recentemente, o selo Autêntica Contemporânea publicou dois de seus livros no Brasil: Diante da manta do soldado e Misericórdia. A editora anunciou que A costa dos murmúrios também será publicado em breve. O Grupo Editorial Record também tem obras da autora em seu catálogo.

"Foi com muita alegria, como não poderia deixar de ser, que recebemos a notícia de que Lídia Jorge foi agraciada com o Prêmio Camões 2026", diz ao PublishNews a editora do selo Autêntica Contemporânea, Rafaela Lamas. "A distinção reconhece uma obra de rara densidade, capaz de comover ao revisitar temas fundamentais da história de Portugal e de seu passado ditatorial. Ao mesmo tempo, sua escrita ultrapassa fronteiras geográficas ao refletir sobre questões que dizem respeito a todos nós enquanto sociedade, como a condição feminina, o peso das tradições, as rupturas familiares e os conflitos entre gerações, tudo isso marcado por um lirismo muito particular."

Segundo a organização do Camões, Lídia Jorge é uma das escritoras mais proeminentes da literatura portuguesa contemporânea, com uma obra reconhecida pela análise profunda da história recente de seu país, pela reflexão social e pela defesa dos direitos humanos e das mulheres.

“Desde O dia dos prodígios, de 1979, o diversificado conjunto da obra de Lídia Jorge contribui para enriquecer o património literário e cívico-cultural da língua portuguesa, trazendo experiências do último período da guerra colonial. A costa dos murmúrios, de 1988, é um marco importante na sua obra, uma vez que destaca a sua experiência de vida em Moçambique e desconstrói as versões da guerra colonial sob a perspetiva de uma mulher. Um dos seus últimos romances — Misericórdia, de 2022 — trata a velhice, a urgência da vida, a resistência ao fim. A sua escrita, marcada por uma prosa poética densa, aborda o passado ditatorial de Portugal, a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida quotidiana, o significado das revoluções, a emigração, as tensões entre a sociedade moderna e pós-moderna, os conflitos entre gerações, as ruturas familiares, com um estilo literário de forte carga lírica e foco na memória coletiva. Por todos estes motivos, o júri considerou, unanimemente, Lídia Jorge merecedora do Prémio Camões 2026”, diz a ata do júri.

Os jurados nesta edição foram o professor José Carlos Seabra Pereira (Universidade de Coimbra – Portugal); a professora, poeta e ensaísta Ana Mafalda Leite (Universidade de Lisboa – Portugal); a professora e pesquisadora Lucia Santaella (PUC-SP, Brasil); o professor, jornalista, historiador e doutor em Letras, José Ribamar Bessa Freire (Brasil); e o escritor e crítico literário Lopito Feijó (Angola); a escritora, poeta, professora universitária e pesquisadora Odete Semedo (Guiné-Bissau).

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, se manifestou sobre a premiação da escritora portuguesa: “A escolha de Lídia Jorge para o Prêmio Camões de Literatura 2026 celebra uma das grandes vozes da literatura em língua portuguesa, cuja obra reafirma o poder da escrita para preservar memórias, ampliar horizontes e promover reflexões sobre a condição humana. O Prêmio Camões simboliza a riqueza da nossa língua comum e o compromisso permanente do Brasil e dos países lusófonos com a valorização da cultura, da literatura e do diálogo entre os povos. Celebrar Lídia Jorge é também reconhecer a força transformadora da palavra e da criação artística na construção de sociedades mais democráticas, diversas e humanas”, afirmou, em nota.

Para o presidente da FBN, Marco Lucchesi, Lídia Jorge merece todo reconhecimento. "Ela vive no coração do presente. Aponta para todas as contradições, dentro de uma perspectiva em que a política e a poética mostram-se inseparáveis, muito embora prevaleça, do começo ao fim, a altitude textual, a dinâmica profunda da língua literária. Seu profundo conhecimento da África, sobretudo de Moçambique, de Portugal e dos países língua portuguesa empresta grande riqueza ao conjunto da obra. Lídia Jorge possui uma consciência vigilante, crítica diante de um passado colonial e de todas as práticas de injustiça, na defesa de um largo estatuto de emancipação. Uma obra vasta, de extrema riqueza de abordagem e de gêneros literários. É uma das glórias da língua portuguesa”, disse o também autor.

Quem é Lídia Jorge

Nascida em Boliqueime, Algarve (Portugal), em 18 de junho de 1946, Lídia Jorge é graduada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. No início dos anos 70, durante a Guerra Colonial Portuguesa, viveu em Angola e Moçambique — experiência que marcou sua produção literária. Seu primeiro romance, O dia dos prodígios (1980), inaugurou uma nova fase na literatura portuguesa ao romper com o realismo tradicional e com o tom documental, dominante à época. Suas obras estão traduzidas em diversos idiomas e já receberam prêmios como Prémio Pessoa, Médicis Étranger e Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia.

Prêmio Camões

O Prêmio Camões é o mais importante da língua portuguesa. Instituído em 1988 pelos Governos do Brasil e de Portugal, tem como objetivo estreitar os laços culturais entre as nações que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e enriquecer o património literário e cultural da língua portuguesa. O prêmio é atribuído aos autores, pelo conjunto da obra, que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. A primeira edição ocorreu em 1989.

O Ministério da Cultura português organiza a premiação pela parte portuguesa, cabendo à Fundação Biblioteca Nacional a organização pela parte brasileira. Em todas as edições do prêmio, o júri é composto por dois portugueses, dois brasileiros e dois representantes das demais nações da CPLP — Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Timor Leste e São Tomé e Príncipe. O mandato para os jurados é de dois anos.

O diploma entregue aos laureados contém o nome de todos os países lusófonos e é assinado pelos chefes de estado do Brasil e de Portugal. Entre os 36 vencedores encontram-se autores de cinco países lusófonos (Brasil, Portugal, Moçambique, Angola e Cabo Verde).

Confira todos os vencedores do Prêmio Camões, por ordem cronológica:

  • Miguel Torga (Portugal)
  • João Cabral de Mello Neto (Brasil)
  • José Craveirinha (Moçambique)
  • Vergílio Ferreira (Portugal)
  • Rachel de Queiroz (Brasil)
  • Jorge Amado (Brasil)
  • José Saramago (Portugal)
  • Eduardo Lourenço (Portugal)
  • Pepetela (Angola)
  • Antonio Cândido (Brasil)
  • Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)
  • Autran Dourado (Brasil)
  • Eugénio de Andrade (Portugal)
  • Maria Velho da Costa (Portugal)
  • Rubem Fonseca (Brasil)
  • Agustina Bessa-Luís (Portugal)
  • Lygia Fagundes Telles (Brasil)
  • Luandino Vieira - recusado (Angola)
  • António Lobo Antunes (Portugal)
  • João Ubaldo Ribeiro (Brasil)
  • Arménio Vieira (Cabo Verde)
  • Ferreira Gullar (Brasil)
  • Manuel António Pina (Portugal)
  • Dalton Trevisan (Brasil)
  • Mia Couto (Moçambique)
  • Alberto da Costa e Silva (Brasil)
  • Hélia Correia (Portugal)
  • Raduan Nassar (Brasil)
  • Manuel Alegre (Portugal)
  • Germano Almeida (Cabo Verde)
  • Chico Buarque (Brasil)
  • Vítor de Aguiar e Silva (Portugal)
  • Paulina Chiziane (Moçambique)
  • Silviano Santiago (Brasil)
  • João Barrento (Portugal)
  • Adélia Prado (Brasil)
  • Ana Paula Tavares (Angola)
  • Lídia Jorge (Portugal).
[03/07/2026 11:12:16]