A Feira do Livro discute diferentes formas de libertação em feriado cheio
PublishNews, Beatriz Sardinha, 05/06/2026
Programação da feira engrena durante feriado do Corpus Christi; ainda na quarta-feira (3), Gregório Duvivier lotou o auditório da Praça Charles Miller

Praça Charles Miller durante a Feira do Livro | © Matias Maxx / A Feira do Livro
Praça Charles Miller durante a Feira do Livro | © Matias Maxx / A Feira do Livro

Um dos grandes temas d'A Feira do Livro no feriado desta quinta-feira (4) foi o da liberdade: no esporte, na política, na religião. Depois de um movimentado final de semana, a Feira voltou a ter um grande público ainda na quarta à noite (3), com um pocket show de Gregorio Duvivier para marcar o lançamento de seu livro Aos pés da letra (Companhia das Letras), que já figurou na lista de mais vendidos de sábado e domingo passados. O evento segue nesta sexta-feira (5) e vai até o domingo (7), na Praça Charles Miller, em São Paulo (SP).

Gregorio Duvivier apresenta versão curta de show sobre língua portuguesa | © Matias Maxx / A Feira do Livro
Gregorio Duvivier apresenta versão curta de show sobre língua portuguesa | © Matias Maxx / A Feira do Livro

Logo às 11h da quinta (4), a programação discutiu diversidade religiosa ao trazer o livro Café da manhã com os orixás: guia de reflexões para cada dia do ano de João Tokunbó Carneiro (Pallas) para debater como a religião se insere no cotidiano do brasileiro. Pouco depois, o Auditório do Museu do Futebol recebeu o painel "Os libertadores da América", com Alejandro Droznes e Fabio Luis Barbosa dos Santos discutindo como o cenário do futebol latino-americano é atravessado pelas mudanças políticas e econômicas dos séculos XX e XXI, a partir de políticas homogeneização do esporte, dentro e fora de campo. Nei Lopes terminou a noite trazendo anedotas sobre sua relação com o amor e como tem lidado com a viuvez.

A mesa mais disputada do feriado ocorreu no auditório do Museu do Futebol. Com um ligeiro atraso por conta da extensa fila e do esquema de segurança reforçado, a conversa entre Norman Finkelstein e Patricia Campos Mello trouxe como grande tema o debate da guerra em Gaza. Norman é uma voz crítica da política de Israel nas duas últimas décadas e veio ao Brasil para divulgar a edição em português de A indústria do Holocausto (Autonomia Literária). A obra do pensador trabalha como o Holocausto passou a ser articulado como uma arma ideológica para desviar críticas ao Estado de Israel.

Norman Finkelstein e Patricia Campos Mello | © Beatriz Sardinha / PublishNews
Norman Finkelstein e Patricia Campos Mello | © Beatriz Sardinha / PublishNews

O estadunidense falou sobre o ambiente das universidades americanas, vigilantes das opiniões políticas de seus alunos, e capazes até de expulsá-los e deportá-los por manifestações a favor da Palestina. Ele lamentou que há um crescimento geral de ressentimento contra pessoas judias, e ressaltou a responsabilidade do Estado de Israel nesse processo, que insiste em se autodeclarar como um Estado Judeu. "Não há futuro em Gaza, está tudo destruído, demoraria 15 anos apenas para limpar os estragos, e mais oito anos para reconstruir", disse.

O poder da palavra

Daniela Catrileo, Daniel Munduruku e Leão Serda | © Matias Maxx / A Feira do Livro
Daniela Catrileo, Daniel Munduruku e Leão Serda | © Matias Maxx / A Feira do Livro

Outro destaque do dia foi conversa das 14h30 do Palco Principal, que trouxe os xarás Daniela Catrileo e Daniel Munduruku para discutir narrativas de resistência de populações indígenas. O escritor de mais de 70 livros fez uma analogia sobre a dor da passagem da infância para a adolescência, e a relacionou ao caso brasileiro: "o Brasil precisa sofrer a dor de uma passagem, isso passa pela necessidade de olhar para trás e para o passado", afirmou.

Em 2025, Munduruku publicou seu novo romance Fantasmas (Record). Nele, quis construir uma narrativa para provocar leitores não indígenas. Seu protagonista busca vingança depois de testemunhar o massacre de seu povo. Ele comentou que "Fantasmas tem como objetivo fazer com que o leitor não indígena olhe para si e reflita como a sociedade constrói um estereótipo que justifique os massacres históricos do Brasil".

O poder e o acesso à palavra foram outros temas na conversa entre Daniel e Daniela. Ainda que o avanço na luta das causas indígenas seja notável, ele falou que autores indígenas tiveram mais acesso ao mercado editorial brasileiro apenas nos últimos 20 anos. "A oralidade é um instrumento de aprendizado para quem não pode carregar uma biblioteca nas costas", afirma.

Daniela Catrileo, autora chilena de Chilco (DBA), explicou sobre a relevância do ensino da palavra e da escrita no papel para os mapuche. Para além da transmissão de conhecimento, a escritora falou como documentos físicos funcionaram como importantes registros da cultura mapuche, além de ferramentas contra a violência do Estado e da Ditadura chilena.

[05/06/2026 10:26:57]