'Gavião' leva tema do abuso sexual infantil para a literatura ilustrada
PublishNews, Redação, 11/05/2026
Obra recebeu o selo internacional 100 Outstanding Picturebooks 2026, da plataforma DPictus, e foi exibida na Feira do Livro de Bologna

Sem mostrar diretamente a ameaça que atravessa suas páginas, o livro ilustrado Gavião (Mil Caramiolas), de Lulu Lima e Eric Farpa, utiliza metáforas e silêncios para abordar o abuso sexual na infância e adolescência. A obra acompanha a angústia de crianças que não se sentem seguras dentro de seus próprios lares e chama atenção para o papel de educadores na observação de mudanças de comportamento, muitas vezes percebidas como primeiros sinais de alerta.

O lançamento será realizado na próxima sexta-feira, 15 de maio, às 19h, na Casa Cosmos (Rua Natingui, 544 - Vila Madalena — São Paulo / SP), com um bate-papo entre Lulu, Eric e Dani Gutfreund, a editora.

Ainda que nunca mencione explicitamente a violência sexual, o livro constrói sua narrativa nas entrelinhas, tratando de um tema que atravessa diferentes classes sociais, idades e contextos familiares. Voltado ao público infantil e juvenil, Gavião também dialoga com leitores adultos ao propor uma reflexão sobre escuta, acolhimento e proteção.

A ideia do projeto chegou à editora Dani Gutfreund, que trabalhou o livro ao lado da autora a partir da preocupação em abordar o tema com responsabilidade e cuidado.

“Um livro sobre abuso não admite negligência. Precisávamos falar disso com honestidade e respeito, lembrando que pessoas que sofrem, sofreram ou tiveram qualquer relação com situações de violência e abuso sexual se sentissem acolhidas e contempladas. A gente não poderia, por exemplo, ter um ‘e viveram felizes para sempre’. Sabemos que mesmo vítimas que conseguiram sair de situações de relações de abuso carregam marcas, e isso não pode ser tratado como se nada fosse”, afirma Dani, no release.

Lulu Lima e Eric Farpa © Divulgação
Lulu Lima e Eric Farpa © Divulgação

As ilustrações de Eric Farpa ocupam papel central na narrativa. Produzidas com lápis grafite e manchas feitas com borracha, elas dialogam diretamente com o tema da obra.

“O lápis carregava a sobriedade que a história precisava. Além disso, ele também é uma das primeiras ferramentas da criança no ambiente escolar, o que fortalece um subtexto narrativo. É o desenho a lápis de Bruna que desencadeia a atenção da professora e o desfecho da narrativa. Já a borracha cria as manchas de uma história que não pode ser apagada por completo. Ela deixa vestígios para toda uma vida”, explica o ilustrador, no material de divulgação.

Outra escolha narrativa importante é a ausência da representação visual do gavião que dá nome ao livro. Para Lulu Lima, a decisão reforça a dimensão simbólica da história.

“O Gavião é uma ave de rapina, traiçoeira: ele ataca justamente quando a mãe está longe dos filhotes. O personagem em si nunca é retratado no desenho. E não poderia. Porque, infelizmente, o Gavião que nos ameaça não tem um rosto. Uma cor. Uma idade ou uma classe social. O Gavião se aproveita do fato de ser uma pessoa comum e familiar, um suspeito pouco provável, para agir à luz do dia, sem deixar rastros. É preciso cercá-lo antes do voo”, diz a autora, na nota à imprensa.

Em março de 2026, Gavião recebeu o selo internacional 100 Outstanding Picturebooks 2026, concedido pela plataforma DPictus. Com isso, a obra foi exibida na Feira do Livro de Bologna, na mostra homônima realizada no Hall 25, estande B144. Em outubro deste ano, estará na Jeonju International Picture Book Fair, na Coreia do Sul. O livro também ficará disponível integralmente na plataforma digital da DPictus ao longo do ano.

[11/05/2026 11:45:53]