
O PublishNews conversou com Monique Leite, 39 anos, única brasileira entre as finalistas do Prêmio PublisHer de Excelência 2026, na categoria Inovação. À frente da Editora PlenaVoz, ela desenhou um projeto que vai além do livro como produto final: um ambiente aconchegante que reúne iniciativas como a Biblioteca Humana do Sul de Minas, a Farmácia de Poesia, a Academia PlenaVoz, saraus, projetos em escolas e uma revista dedicada a histórias de vida — tudo articulado em torno da literatura como prática de encontro real e transformação.
Monique é pouco conhecida no mercado editorial brasileiro, mas entrar na short list do PublisHer, iniciativa internacional criada para fortalecer a presença das mulheres no mercado editorial — especialmente em cargos de liderança e inovação —, criado pela sheikha e editora Bodour Al Qasimi, iluminou o seu nome e o seu projeto independente, sediado em Bueno Brandão, cidadezinha no Sul de Minas Gerais, para os seus pares.
Mais do que aumentar o catálogo, a casa editorial de Monique e Zezinha Lins atua como plataforma de formação e circulação de autoras, especialmente mulheres, conectando escrita, desenvolvimento pessoal e atuação comunitária. Nesse modelo, o livro passa a operar como ponto de partida — ganhando desdobramentos em territórios diversos, de salas de aula a festivais literários. A trajetória de Monique ajuda a entender essa arquitetura.
Antes de fundar a PlenaVoz, ela morou em cinco países, viajou sozinha por mais de uma década, trabalhou em comunicação e na área social de uma multinacional e concluiu um mestrado em desenvolvimento socioambiental. Dessa bagagem nasceu a inquietação de “dar um sentido maior ao que fazíamos” — e de reunir, em torno do livro, não só sua própria experiência, mas a de centenas de mulheres que hoje ocupam as diferentes frentes da editora. Leia a entrevista completa:
PUBLISHNEWS — Você é finalista do Prêmio PublisHer de Excelência 2026 na categoria Inovação. O que, na sua visão, está sendo reconhecido no seu trabalho?
MONIQUE LEITE — Na minha visão, o que está sendo reconhecido é a capacidade de inovar sem depender exclusivamente da tecnologia, mas sim da promoção da conexão humana. A PlenaVoz cria um ecossistema em que publicação, formação e comunidade se entrelaçam, dando voz principalmente às mulheres e transformando a literatura em ferramenta de empoderamento e inclusão.
Em 2024 nós entrevistamos para a Revista PlenaVoz a renomada pesquisadora de futuros Ligia Zotini, que nos contou que o diferencial humano no futuro estará justamente naquilo que é inédito e profundamente nosso: a capacidade de nos conectarmos de forma verdadeira, de desenvolvermos criatividade, consciência e espiritualidade. É nesse sentido que nossos projetos, desde as publicações de livros, a Biblioteca Humana do Sul de Minas Gerais, a Farmácia de Poesia, os saraus, os trabalhos nas escolas, a Academia PlenaVoz, a Revista... Enfim, tudo que fazemos se destacam. Eles não são apenas iniciativas editoriais, mas espaços de encontro, escuta e transformação coletiva.
Na ocasião da entrevista, Ligia fez um comentário que me marcou muito, ela disse: “vocês são a editora do futuro! Acredito profundamente no poder da mídia, da arte e das narrativas criadas para expandir a consciência, oferecendo um repertório de inspiração de alta vibração, em vez de gatilhos de consumo e narrativas de manipulação baseadas no medo e no ódio. A PlenaVoz realiza isso com maestria”.
A fala dela ecoa em mim até hoje e eu realmente acredito que não há nada mais necessário e inovador hoje em dia do que isso. A indicação para o Prêmio PublisHer reconhece essa inovação que nasce da literatura como prática educacional, social e cultural, capaz de unir pessoas em torno de suas histórias e de criar futuros mais humanos.
PN — Estar entre finalistas de 34 países muda a forma como você lê o próprio projeto? O que esse reconhecimento reorganiza internamente?
MONIQUE — Isso mostra que estamos no caminho certo, não somente como executoras do projeto, mas sinaliza o tipo de aliança que estamos criando e quem estamos atraindo. A PublisHer é uma organização belíssima, acompanho o trabalho (de longe) dessas mulheres há um tempo e tenho uma admiração muito grande por elas. Estamos trabalhando incansavelmente para nos juntarmos à mulheres potentes, a instituições que realmente enxergam como nós, para que possamos aprender e evoluirmos cada vez mais.
Acredito que o reconhecimento vai ampliar nosso alcance. Nós queremos crescer, mas mais importante do que o crescimento em números, é que realmente queremos atingir as pessoas certas. Entendemos muito rápido que não basta publicar, as pessoas precisam de mais, não mais dinheiro, não mais poder: mais conexão e humanidade. E os livros e nós como fazedoras de cultura e da literatura, podemos dar isso!
Pessoalmente, como mulher e idealizadora da PlenaVoz, o reconhecimento é imenso! Sou mãe solo, a ideia da PlenaVoz nasceu em uma noite em claro fazendo meu filho mais novo dormir. Estava desnorteada, tinha voltado há pouco tempo da República Tcheca, o último país que morei, com uma bebê no colo e outro na barriga, financeiramente e emocionalmente quebrada.
Contatei a Zezinha Lins, uma escritora de Pernambuco, e falei da minha ideia. Ela prontamente topou. Nós duas então começamos a criar a PlenaVoz do nada. Nesses anos, a PlenaVoz se tornou nossa identidade, a minha, a de Zezinha, e a de centenas de mulheres espalhadas pelo Brasil, que trabalham conosco, ou que publicam, estudam ou atuam em uma das nossas frentes. O reconhecimento da PublisHer me faz olhar para trás e ver toda essa trajetória com muita gratidão e me faz olhar para frente também com muito entusiasmo e vontade de fazer ainda mais!
PN — A PlenaVoz não se apresenta como uma editora tradicional. Como e quando você percebeu que o modelo clássico não dava conta do que queria fazer?
MONIQUE — Antes mesmo de completarmos um ano de existência eu já estava inquieta. Percebi que o modelo clássico de editora, focado apenas na publicação de livros, não dava conta daquilo que eu queria construir. Reuni as mulheres que trabalham comigo, redefinimos a rota, trocamos o nome da editora, redesenhamos nossa missão e começamos a assumir outras frentes além da publicação.
Minha trajetória já apontava para isso: morei em cinco países, viajei sozinha por mais de uma década, sempre em contato profundo com culturas e comunidades; trabalhei em comunicação e na área social de uma multinacional; e minha última formação foi um mestrado em desenvolvimento socioambiental. Essa bagagem me trouxe a inquietação de dar um sentido maior ao que fazíamos e de aproveitar não só minha experiência, mas também a de todas as mulheres que se uniram à PlenaVoz.
Hoje, a PlenaVoz é uma causa. Entendemos os livros e a literatura como ferramentas potentes e os usamos estrategicamente para atingir pessoas e lugares, desenvolver comunidades, promover saúde mental e empoderar mulheres. Existe muita ação: os livros ganham vida em diferentes formatos e espaços, tornando-se parte de um movimento cultural e social.
PN — Quando você fala em “dar voz” a autores, isso se traduz como prática editorial concreta de que forma? O que muda no processo?
MONIQUE — Estimulamos nossos escritores (especialmente as escritoras) a usarem suas publicações como palanque para serem ouvidas. O processo editorial é marcado por diálogo constante, incentivo e acompanhamento próximo, com um trabalho de assessoria que ajuda cada autora a reconhecer e fortalecer sua própria voz.
Além disso, oferecemos ferramentas que ampliam esse alcance por meio de diversos projetos socioculturais ligados à literatura, nos quais toda a comunidade e nossos autores são convidados a participarem, como a Biblioteca Humana do Sul de Minas – iniciativa que trouxe da Dinamarca –, a Farmácia de Poesia, os inúmeros trabalhos nas escolas, clubes do livro, saraus literários, a produção de festivais de literatura no sul de Minas Gerais, exclusivamente feito por autores e artistas locais; a Revista PlenaVoz, que é uma revista de histórias de vida, de literatura e desenvolvimento pessoal — tudo interconectado — e acervo do podcast PlenaVoz. Outras duas frentes importantes são a Antoliterapia e a Academia PlenaVoz.
Chamamos de Antoliterapia a promoção de antologias para mulheres escritoras, cada livro colocamos um tema relevante, como liberdade da mulher, coragem e amor-próprio, e fazemos um trabalho intenso com essas mulheres sobre este tema antes da publicação.
Já na Academia PlenaVoz, nossa escola de formação para escritoras, não trabalhamos apenas escrita criativa: trazemos psicanálise, arteterapia e empreendedorismo literário, criando uma base sólida para que essas mulheres transformem suas experiências em palavras e suas palavras em livros que alcançam mais pessoas. Dentro da matéria de empreendedorismo literário ensinamos marketing e caminhos para participar de editais, por exemplo. Isso estimula as escritoras a agirem em suas localidades e amplia o alcance das ações culturais com apoio da editora em outros territórios.
Assim, o que muda no processo editorial é justamente essa dimensão de escuta, acolhimento e formação, somado ao caráter artístico e cultural da literatura. O livro não é apenas um produto final, mas um instrumento de empoderamento e de circulação de vozes que, muitas vezes, estavam silenciadas.
PN — Que tipo de autor chega até você hoje — e esse perfil mudou desde o início da editora?
MONIQUE — Hoje atraímos um público variado, mas que vem se afunilando cada vez mais. Majoritariamente são mulheres que se identificam com a missão da PlenaVoz e que buscam um espaço de pertencimento e escuta. Muitas delas estão na faixa dos 40+, muitas são mães — o que cria uma conexão natural, já que nossa equipe também é composta por mulheres mães.
Esse perfil mudou desde o início da editora e continua mudando conforme nos afirmamos como uma casa editorial com propósito cultural e social. No começo, recebíamos autores de perfis diversos, mas à medida que fomos consolidando nossa identidade, passamos a atrair principalmente mulheres que querem transformar suas experiências em literatura e encontrar na escrita uma forma de se fortalecer e de transformar suas comunidades.
PN — Quando se fala em inovação no mercado editorial, muitas vezes o foco recai sobre tecnologia. No seu caso, parece haver uma inovação mais ligada a processos e relações. Como enxerga isso, Monique?
MONIQUE — É verdade, quando se fala em inovação no mercado editorial, o foco costuma estar em tecnologia. No nosso caso, a inovação acontece nos processos e nas relações: na forma como pensamos o ciclo editorial e como nos conectamos com os autores e comunidades. A PlenaVoz não vê o livro apenas como produto final, mas como parte de um percurso formativo e coletivo.
Isso significa que inovamos ao criar metodologias próprias — como a Academia PlenaVoz, que une escrita criativa, psicanálise, arteterapia e empreendedorismo literário — e ao desenvolver projetos culturais que transformam a literatura em experiência viva, como a Biblioteca Humana e a Farmácia de Poesia. São processos que mudam a lógica tradicional da edição e criam uma cultura editorial baseada em escuta, pertencimento e impacto social. E isso não tem nada a ver com filantropia. A PlenaVoz não é uma ONG, nós somos uma editora de livros que entendeu o livro e a literatura de uma forma abrangente e poderosa.
Nossa inovação não está em ferramentas digitais, mas em reinventar o como e o para quem se publica, mostrando que o futuro do livro também pode ser construído a partir de relações humanas e de práticas culturais transformadoras.
PN — A PlenaVoz combina publicação, formação e comunidade. Como essas frentes se sustentam financeiramente e se retroalimentam?
MONIQUE — A PlenaVoz combina publicação, formação e comunidade em um ecossistema que se sustenta de forma integrada, mas com cada frente mantendo seu próprio caixa. Os projetos são financeiramente independentes, mas todos estão conectados pela mesma missão: democratizar o acesso à literatura e fortalecer vozes que muitas vezes não encontram espaço no mercado tradicional.
Na Academia PlenaVoz temos as alunas regulares e as bolsistas. Quanto aos projetos nas comunidades, grande parte é realizado em parceria com secretarias municipais de Cultura, e projetos de maior extensão ou complexidade contam com apoio da Secretaria de Cultura de Minas Gerais, por meio de leis de incentivo. Além disso, nossas escritoras, incentivadas pela editora, multiplicam iniciativas em seus próprios territórios, criando dezenas de projetos locais que ampliam o impacto da PlenaVoz pelo Brasil. Esse movimento retroalimenta o ciclo: a publicação abre espaço para a formação, a formação gera novas lideranças culturais, e a comunidade fortalece e expande o alcance das ações.
PN — Há um componente pedagógico forte no seu trabalho. Você se vê também como educadora dentro do mercado editorial?
MONIQUE — Sim, eu me vejo também como educadora dentro do mercado editorial. A PlenaVoz não se limita a publicar livros, mas cria processos formativos que ajudam autores e comunidades a se reconhecerem e se transformarem pela escrita. Esse componente pedagógico está presente tanto na Academia PlenaVoz, na qual trabalhamos escrita criativa junto com psicanálise, arteterapia e empreendedorismo literário, quanto nos projetos socioculturais que realizamos em escolas e comunidades.
Ser educadora, nesse contexto, acredito que significa usar a literatura como ferramenta de aprendizagem e de desenvolvimento humano.
PN — Quais são os principais preconceitos e/ou resistências que você ainda enfrenta ao tocar a PlenaVoz nesse mercado?
MONIQUE — Um dos principais preconceitos que ainda enfrentamos é a ideia de que o que fazemos seria “perfumaria”, algo bonito, mas descartável. Nosso trabalho não é apenas estético: ele é essencial, porque mostra o poder da literatura como ferramenta de transformação social e pessoal. A indicação ao Prêmio PublisHer de Excelência justamente reforça isso, reconhecendo que nossas práticas têm impacto real e duradouro.
Além disso, há o preconceito de gênero. Somos uma editora formada por mulheres, e muitas vezes ainda encontramos resistências de pessoas que não compreendem nossa proposta ou tentam nos diminuir com ideias ultrapassadas. Mas seguimos firmes, porque sabemos que nosso trabalho abre caminhos para outras mulheres e fortalece comunidades. Essa reflexão se conecta ao painel em que participarei na Feira do Livro Infantil de Bologna, no dia 13 de abril, quando também será a premiação da PublisHer. O tema é: “Se o mercado editorial fosse lançado hoje, o construiríamos desta forma?”. Minha fala será voltada justamente para a necessidade de (re)humanizar o mercado editorial, reconhecendo a potência dos livros e das pessoas nesse processo de reconexão e união. É nesse ponto que acredito que enfrentamos resistências: mostrar que inovação não é só tecnologia, mas também devolver humanidade ao livro e ao mercado.
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