
Escritor senegalês radicado em Paris, Sarr constrói um romance inquietante que, ao mesmo tempo, celebra a literatura como uma arte de deslocamento: aquela que arranca o leitor de seu território familiar e o conduz a zonas mais profundas — e por vezes obscuras — da experiência humana.
No centro da narrativa está a obsessão de um jovem escritor africano, Diégane Faye, em encontrar outro escritor senegalês que publicou um único romance no final dos anos 1930 e desapareceu depois de provocar um verdadeiro terremoto no meio literário francês. O livro, inspirado na história real de Yambo Ouologuem, envolveu-se em processos e escândalos: acusado de plágio, acabou destruído pelos editores. Restaram poucos vestígios.
A busca de Diégane pelo mistério que envolve O labirinto do inumano e seu autor nos conduz por histórias que se entrecruzam no tempo e no espaço. Atravessamos diversas geografias: a França às vésperas da Segunda Guerra, nos anos 1980 e já no século XXI; o Senegal antes e depois da independência; Buenos Aires; Amsterdã. São histórias esquecidas, narradas em forma de relatos, diários, reportagens e confissões. Revelam preconceitos e a arrogância de uma cultura que se pretende única.
Mas o romance de Sarr vai além de um enigma literário. Ao narrar a trajetória de Diégane — que, como imigrante, experimenta uma ruptura quase fatal com suas origens e histórias para sobreviver em outro país — o autor sugere que talvez seja justamente dessa fissura que nasce o escritor.
O escritor seria, antes de tudo, um estrangeiro de si mesmo. Alguém que precisa romper com a própria pátria interior e enveredar por labirintos de histórias próprias e alheias: revisitar recordações e memórias recônditas, sonhos, medos, vergonhas e trevas. Então, assombrado pelo monstro, talvez transforme tudo isso em literatura.
Este livro conversa profundamente comigo. Minha escrita nasce do assombro diante da profusão de histórias — as que já foram escritas e as que permanecem ocultas; as que carregam outras formas de compreender o passado e imaginar futuros possíveis; e as que reinventam maneiras de habitar o presente.
No coração desse labirinto nascem os meus romances".
* Andreia Fernandes é Dramaturga, diretora e professora e trabalhou com nomes como Maria Clara Machado (1921-2001), Augusto Boal, (1931-2009), Marco Nanini e Cacá Mourthè. Publicou os romances Olhos de cobra (Benvirá, vencedor do Prêmio Saraiva de Literatura 2014, reeditado em 2024), A borboleta, o sonho e o corvo (Chiado Books, 2018, também reeditado em 2024) e Quando a lua sangra, vencedor do Prêmio Carolina Maria de Jesus/MinC de 2023. No conto, reuniu textos em Assombradas (Patuá, 2025), além de ter sido premiada em outros concursos nacionais.






