
A Associação Nacional de Livrarias (ANL) considera fundamental que o debate seja conduzido com diálogo e análise técnica, em busca de uma transição equilibrada e sustentável. “Estamos acompanhando com atenção o debate no Congresso Nacional sobre a possível alteração da escala de trabalho”, explica o diretor de comunicação da ANL, Rui Campos. “É claro que reconhecemos e valorizamos a importância de iniciativas que busquem melhorar as condições de trabalho e a qualidade de vida dos profissionais. Ao mesmo tempo, entendemos que mudanças estruturais dessa natureza precisam considerar as especificidades de cada setor da economia”, afirma o livreiro, sócio e fundador da Livraria da Travessa.
Rui informa que a Associação mantém um diálogo constante com entidades parceiras, do setor editorial e do comércio. “Estamos abertos a participar de debates que contribuam para o aprimoramento das políticas públicas. Nosso compromisso é colaborar com informações sobre o funcionamento do mercado livreiro, defendendo sempre um ambiente que valorize o trabalho, preserve empregos e fortaleça a cultura no país”, diz. A ANL conta hoje com 60 associados, entre as principais livrarias e distribuidoras do país, como Livraria Leitura, Livraria da Vila, Livraria Martins Fontes, Catavento, Disal e outras.
O sócio das paulistanas Drummond Livraria e Distribuidora Loyola, Vitor Tavares, também considera que seria necessário um período de adaptação. “Nossa posição é sempre buscar o melhor para os nossos colaboradores”, diz ao PublishNews. “Se a mudança trouxer ganhos para o trabalhador e para o empregador, a proposta pode ser interessante para ambos os lados”, aponta, mas ressalta que seriam necessárias algumas condições: “o ajuste poderia trazer melhor qualidade de vida aos funcionários, mas também flexibilidade no contrato de trabalho, menores custos de contratação, carga tributária reduzida, bom ganho de produtividade e longo período de adaptação”, pontua.
Para ele, empreender é enfrentar desafios diários, “e não será diferente caso a reforma ocorra”.
Outras lideranças do setor têm uma visão mais pessimista da possível reforma. João Scortecci, presidente da Abigraf-SP, diz que a Associação que representa a indústria gráfica está de acordo com posições da Fiesp e da CNI. “Os impactos no País serão devastadores: aumento expressivo de custos para o setor produtivo, estimado em mais de R$ 170 bilhões apenas na indústria – de acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria –, redução da produção, perda de competitividade, retração do PIB, risco acentuado especialmente às micro e pequenas empresas, que não dispõem de estrutura e recursos para ampliar vagas de trabalho, pressão inflacionária, elevação da informalidade e precarização das relações de trabalho”, afirma, em entrevista ao PN. “A indústria gráfica defende a promoção de políticas que realmente elevem a produtividade, como educação de qualidade, capacitação, incentivo à inovação, modernização tecnológica e um ambiente econômico estável e juridicamente seguro”.
Paulo Escariz, fundador da Escariz Livraria (com seis lojas, em Aracaju e Salvador), acredita que a mudança pode levar ao fechamento de livrarias. “Vai ser terrível para quem tem loja em shopping. Para lojas de rua, vai depender de como vai ser o funcionamento. Nossas lojas de rua não vão ser impactadas, porque só funciona até sábado ao meio dia”, diz.
Para ele, o principal problema na proposta não é a redução da carga horária, mas sim o aumento dos dias de folga. “A Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) divulgou recentemente o desempenho de 2025, com crescimento zero. Shoppings de alto padrão tiveram algum resultado, mas shoppings de classe média foram muito mal. O impacto vai ser muito ruim, principalmente para a população, porque a solução vai ser aumentar os preços. Para quem pode. Para o mercado livreiro, não tem como aumentar o preço”, pontua.
Impacto em livrarias menores

Por outro lado, empreendedores e livreiros com redes menores (de uma a três lojas) relatam que já estão se adaptando à nova lógica de trabalho. “Fiquei surpreso com a sua mensagem justamente no mês em que a gente implementou a escala 5x2”, diz ao repórter o livreiro Ederson Lopes, da Livraria Taverna, em Porto Alegre (RS). “A gente já tinha implementado esse modelo de duas folgas semanais no nosso setor administrativo e financeiro por questões óbvias. Esse trabalho é bastante atrelado também ao horário bancário”, explica. Agora, o modelo se estende também aos trabalhadores de atendimento da loja.
Com o aquecimento da discussão no ano passado, a ideia começou a ser gestada. “O apelo e a discussão foram bastante amplos nas redes sociais, e tudo isso nos fez refletir sobre essa possibilidade. Será que implementar esse modelo para a equipe de atendimento da livraria não seria positivo? Qual seria o impacto financeiro, o impacto nas contas, para pagar horas extras ou contratar funcionários a mais, e cobrir justamente esses dias de folga da equipe?”, questiona. “Esses impactos são reais para uma pequena empresa, isso de fato é um dado relevante. Por esse motivo, compreendo o medo e a reprovação de empresas menores em adotar a escala 5x2, sendo empresas que trabalham com capital de giro muito pequeno, passando por dificuldades para poder cumprir todos os seus compromissos financeiros. Mas, por outro lado, temos dados concretos de países que implementaram a escala 5x2 com muito sucesso, demonstrando que trabalhadores com menor carga horária se engajam e conseguem trabalhar mais felizes e com mais eficiência. São informações da OCDE, que apontam que o Brasil está entre os países com trabalhadores com maior carga horária e menor produtividade em relação a países com economias desenvolvidas”.
Mesmo com o risco de elevar o custo operacional, Ederson explica que o posicionamento político da empresa sempre foi construído na ideia de que a livraria não é apenas um comércio, mas um espaço de trocas e de encontros. “Tivemos que refletir como o trabalho dentro da livraria poderia melhorar. Sabendo dos riscos e dos custos, ainda assim decidimos que seria o mais justo (implementar o esquema 5x2)”, conta. A empresa decidiu buscar alternativas. Uma saída, segundo o empreendedor, é o envolvimento direto dos sócios na operação da loja. “Os sócios acabam tendo outras atividades, questões mais burocráticas que fazem a livraria funcionar, como prospecção de novas editoras, produção de eventos, SAC, mas pode haver uma tentativa de ocupar um horário na escala, por exemplo”, sugere. A adoção de uma gestão mais tecnológica e automatizada é outra sugestão. Ainda no início da experiência, ele relata que o impacto na satisfação dos colaboradores foi imediatamente positivo.
No Rio de Janeiro, a Janela Livraria (com três lojas, uma delas em shopping) já adota a escala 5x2, e diz apoiar a mudança em geral. Em São Paulo, a Livraria Simples reduziu a jornada de 44h para 40h, desde fevereiro. A Livraria Gráfica e a Banca Tatuí também operam em 5x2. “Por mais que livrarias de diversos portes tenham em comum o fato de operar com margens operacionais baixas, o impacto no setor será heterogêneo”, analisa João Varella, sócio e fundador das duas últimas, ligadas também à editora Lote 42. “Há muitas livrarias que já operam na escala 5x2, mas as que ainda não o fazem deverão revisar seus horários de atendimento. O maior impacto deve acontecer nas livrarias de shopping center, que devem obedecer a normas de horário de abertura. Talvez algumas arrisquem acelerando a automação. O tempo livre vai aumentar as horas destinadas ao lazer. Cabe ao ecossistema do livro tentar cativar mais pessoas para a leitura”, pontua.
A maior parte das editoras já adota duas folgas por semana, mas, há dois anos, o Grupo Autêntica foi além. “Temos realizado testes com a escala 4x3 desde 2024, ano em que começamos com uma folga mensal”, explica ao PublishNews a diretora-executiva do grupo, Rejane Dias dos Santos. “Em 2025, adicionamos mais uma sexta-feira ao calendário, totalizando duas folgas por mês. A experiência tem sido bastante positiva: não tivemos contratempos de qualquer natureza, nem atrasos na produção ou nas entregas.”
Ela conta que uma iniciativa como esta exige esforços e organização de todos os setores para dar certo. “No entanto, entendemos que há uma motivação legítima de toda a equipe para que esse experimento funcione. Como resultado, observamos uma melhora no bem-estar da equipe, que tem se mostrado mais produtiva. O que podemos perceber até agora é que é possível otimizar processos e garantir resultados, oferecendo aos funcionários um equilíbrio mais saudável entre o tempo dedicado ao trabalho, ao descanso e às atividades pessoais.”
Para Rui Campos, da Travessa e da ANL, as livrarias brasileiras têm um grande histórico de adaptação a mudanças regulatórias e econômicas. “Esse já é um assunto nos nossos encontros semanais, por exemplo. Então, caso a nova legislação seja aprovada, o setor naturalmente buscará cumprir as regras estabelecidas. No entanto, é importante reforçar a necessidade de clareza nas diretrizes e prazo adequado para implementação, permitindo que as empresas se organizem de forma responsável e sustentável”, conclui.
Estudos e pesquisas
Diversos estudos e relatórios vêm sendo realizados por diferentes instituições e empresas sobre o assunto. De acordo com uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em fevereiro, os custos de uma eventual redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais seriam similares aos impactos observados em reajustes históricos do salário-mínimo no Brasil, o que indica uma capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho.
Considerando os grandes setores, como indústria e comércio, nos quais estão mais de 13 milhões de trabalhadores, o impacto direto de uma redução da jornada para 40 horas seria inferior a 1% do custo operacional, segundo o Instituto. Os resultados indicam que a maioria dos setores produtivos apresenta capacidade de absorver aumentos nos custos do trabalho, ainda que alguns segmentos demandem atenção específica.
Por outro lado, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por exemplo, manifestou preocupação com a forma como o debate acerca da escala 6×1 vem sendo conduzido. Em nota, a entidade alegou que uma transição sem o correspondente aumento de produtividade resultará, “inevitavelmente”, em pressões inflacionárias e perda de competitividade. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e mais de 100 outras instituições do setor privado divulgaram na terça-feira (3) um manifesto conjunto enfatizando a posição contrária do setor produtivo aos projetos legislativos que tratam da redução da escala de trabalho. O manifesto enumera que a discussão do tema deve levar em conta quatro princípios: a preservação do emprego formal; a produtividade como base para a sustentabilidade e o desenvolvimento; a diferenciação por setor e uso da negociação coletiva; e a discussão técnica aprofundada.
Uma pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados apontou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6x1, desde que não haja redução de salário. A pesquisa foi feita nas 27 unidades da Federação, entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro, e foi noticiada na Agência Brasil.
Próximos passos
A PEC da escala 6x1 está sob a relatoria do deputado Paulo Azi (União Brasil-BA) na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Segundo o Estadão, o presidente da Câmara deu o mês de março para a CCJ concluir a análise de admissibilidade constitucional. Na sequência, uma comissão especial deve analisar o mérito da proposta. A expectativa é de que o texto seja levado ao plenário em maio.






