Marcus Galiña romanceia a prisão injusta de Julinho Barroso
PublishNews, Redação, 05/03/2026
Com uma linguagem bem-humorada que flerta forte com a oralidade, Marcus Galiña não idealiza o personagem. Pelo contrário. Julinho surge como figura contraditória, impulsiva

Marcus Galiña e Julinho Barroso sob os Arcos da Lapa © Monica Ramalho
Marcus Galiña e Julinho Barroso sob os Arcos da Lapa © Monica Ramalho
Criado na Glória, bairro colado ao Centro do Rio, Julinho Barroso, 58 anos, construiu a sua trajetória quando a maioria de nós dormia: nas noites da cidade. Produtor, operador de som, articulador de encontros e afetos, tornou-se personagem conhecido das ruas que ajudou a movimentar. E essa história, que já foi compartilhada aos pedaços nas redes sociais, ganha agora o formato literário.

Chega às livrarias o romance Dias de glória, noites de cárcere – A história de Julinho Barroso (Pallas Editora), escrito por Marcus Galiña, ator, produtor, diretor teatral. O livro será lançado no dia 17 de março, a partir das 18h, em grande evento gratuito, com sarau musical, poético e performático, além de sessão de autógrafos, no Circo Voador, sob os Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. Preço de capa: R$ 72.

A obra de 336 páginas joga um tempero ficcional na experiência real de Julinho, preso injustamente e mantido no cárcere por quase nove anos. A partir dessa ruptura brutal, o livro reconstrói uma vida de agitos culturais que começa muito antes da prisão e, felizmente, ainda continua. A narrativa percorre infância, juventude e maturidade, alinhavando a história pela engrenagem do sistema penal brasileiro, expondo o racismo estrutural e a lógica que transforma o corpo negro em alvo preferencial.

Com uma linguagem bem-humorada que flerta forte com a oralidade, Marcus Galiña não idealiza o personagem. Pelo contrário. Constrói um retrato mais completo e complexo. Julinho surge como figura contraditória, impulsiva, levada por escolhas que se impuseram. A prisão não aparece como episódio isolado, mas como sintoma de uma estrutura que naturaliza a violência. Bem antes de ver o sol nascer quadrado (ou "nascer boletos", como diz no livro), Julinho foi um coroinha exemplar da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no mesmo bairro da Glória.

“A Igreja, durante um tempo, me seduziu, mas eu estava claramente comprometido à outra instituição humana, também com séculos de história, eixo da ancestralidade urbana: a Rua”, diz, em um trecho. “A Rua te renomeia, te sacaneia, te redefine. Eu passava o dia inteiro de short, Havaiana e camisa pendurada no ombro", avança. Até que veio um apelido, o primeiro: Seminu. “Foi o primeiro dos muitos apelidos que tive", conta o Chanceler das Ruas, alcunha que faz mais jus às suas invenções culturais pela cidade.

O historiador Luiz Antonio Simas define Julinho, na apresentação: ‘Esqueçam, todavia, o imaginário do herói como um ser virtuoso, sem contradições, paladino da moral e da justiça e outras bobagens. Julinho é herói de carne, osso e sangue”, forjado nas esquinas cariocas com cheiro de esgoto e bala perdida cravada na parede. Desde cedo ele estava por dentro do “noticiário” local: o movimento dos camelôs, quem ganhou a figurinha difícil no jogo de bafo e outras peripécias de menino. Para ele, o romance que saiu da pena do amigo seria uma espécie de biografia de botequim.

“Seria uma biografia, mas caiu cachaça em cima, derramaram gordura quente, caldo de feijão, mentirinhas de fanfarrão, molho de gurjão, fatos concretos misturados com delírio de folião. As pessoas que me cercaram e as coisas que vivi foram moídas, temperadas, misturadas e servi personagens. Neste livro, a vida é mãe, mas o botequim é pai. Isso aqui é um filhote literário feito de bairros, fatos, lugares, enredos e toda comédia humana, tal como a presenciei nos meus dias de glória e nas minhas noites de cárcere", assinala ele no livro, marrento que só.

"Brinco dizendo que é um livro ‘escrito em primeira pessoa terceirizada’. Sou dramaturgo, então encarei o Julinho como personagem da cidade, estilizei, fantasiei um pouco, pois me sinto melhor na liberdade. E essa escolha também teve razões muito práticas: preservar identidades e evitar futuros processos”, revela Marcus. A amizade entre os dois pintou em 2013, em um movimento chamado Reage Artista.

Já no ano seguinte, a dupla idealizou o Ocupa Lapa, uma ocupação cultural dos Arcos da Lapa, com seis edições em um ano e meio. E, em seguida, o Ocupa MinC, que foi pauta de um telefonema dos dois. A ideia de fazerem o livro com a história do Julinho foi assunto por um tempo e vingou em 2018. Criaram juntos outros projetos, inclusive um educativo, nas escolas municipais do Rio, até conseguirem trabalhar efetivamente na escrita do romance que você tem em mãos.

Uma campanha de financiamento coletivo reverberou, alcançando a generosidade de 372 amigos e incentivadores, que poderão retirar os seus exemplares no lançamento no Circo Voador. A ilustração da capa foi criada pelo artista visual e grafiteiro Marcelo Ment. O autor já havia trabalhado com a Pallas e conhecia as editoras, Cristina e Mariana Warth, que, por sua vez, já sabiam da fama do nosso personagem. O restante é história. E se a rua renomeia, como diz Julinho, a literatura agora registra.


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