
O autor é bastante interessado pela pesquisa da autoficção, da memória e do uso da linguagem no processo de "escavar sentidos". Atua como cronista no jornal O Popular, de Goiás, desde 2017.
Desde o filme belga Close, de 2022, até a série Adolescência, da Netflix, o tema dos efeitos da masculinidade e suas violências visíveis e invisíveis, tem ganhado espaço nas produções culturais.
Luca Brandão respondeu a três perguntas do PN.
PublishNews — O tema dos efeitos do machismo e da masculinidade tóxica têm sido temas bastante explorados pela literatura e pelo audiovisual. Como você vê esse cenário? Alguma dessas obras te inspirou na escrita de 'Não acorde os monstros’?
Luca Brandão — Percebo que, na literatura feita por mulheres e escritores LGBTQIA+, sim. Mas ainda há muito pouco disso na literatura feita por homens. As obras que me inspiram a escrever sobre o machismo, a sexualidade/fragilidade masculina e os núcleos familiares foram escritas por mulheres. Naturalmente, numa sociedade machista, os homens não devem escrever sobre esses temas, muito menos expor personagens masculinos frágeis. São os temas que mais me comovem nos livros, pois me reconheço e reconheço os homens que convivi a vida toda. A leitura — e a força que minha mãe, feminista, empenhou na minha educação — me faz querer escrever esses temas. Uma espécie de herança em vida da mãe. Da poesia à prosa, o que mais leio são mulheres que exploram e extrapolam esses temas, sensuais e combativas: Elisa Lucinda, Adélia Prado, Ana Martins Marques, Cristina Peri Rossi, Annie Ernaux, Camila Sosa Villada… A lista da literatura nacional em prosa feita por mulheres, então, seria infinita aqui.
PN —Seu portifolio de obras publicadas apresenta formatos variados, com romance, poesia e crônica. O que cada um desses textos têm de especial pra você?
LB — Posso contar essa história resumidamente assim: comecei escrevendo poesia; depois veio a crônica, que foi uma espécie de ponte para o que, hoje, eu mais me empenho em escrever, o romance. Mas a poesia está na essência da minha escrita, e me influencia muito na hora de fazer a prosa. A síntese, o corte dos excessos e a desobrigação de explicar tudo, isso eu carrego para a prosa por conta dos versos. Não estou dizendo que isso é bom, mas é um estilo que noto mais agora, depois de escrever tantas crônicas e dois romances. Adoro a crônica, o recorte cotidiano das ruas — de dentro, do peito, e de fora, do mundo; a partir da crônica, consigo transitar melhor entre o poema e as histórias mais largas do romance.
PN — A partir da leitura do começo de 'Não acorde os monstros', é possível notar a utilização de fluxos de pensamento. De que forma você enxerga a influência da autoria em livros de ficção?
LB — Neste livro, eu tinha uma história e não tinha a forma de escrevê-la. A forma se deu quando eu terminei o primeiro rascunho do livro e desloquei o acontecimento principal do final para o começo da obra. Então percebi que a história ficaria melhor contada se fosse em primeira pessoa, de dentro da cabeça do narrador, num fluxo de pensamento/memória. Ficaria mais crível e, paradoxalmente, duvidosa também, de um filho em crise contando o seu lado da história. Me lembro de terminar o livro exausto, muito envolvido com a história do narrador, esquecendo da minha vida real. Uma carta do meu pai, enviada pela minha mãe pelo WhatsApp no dia em que terminei de escrever o texto final, me fez voltar à minha vida. Mas ainda me enxergo muito no livro. É assustador.







