Em obra vencedora do British Book Awards, R.F. Kuang premiada apresenta sátira ácida e certeira sobre apropriação cultural e as contradições do mercado editorial
Um dos maiores nomes da literatura de fantasia, R.F. Kuang mostrou que seu talento e escrita afiada vão além do gênero que a consagrou. Com
Impostora: Yellowface (Intrínseca, 352 pp, R$ 59,90 - Trad.: Yonghui Qio), sua primeira ficção contemporânea, a autora sino-americana conquistou o Goodreads Choice Awards e, pelo segundo ano consecutivo, o British Book Awards de Livro do Ano. A nova história explora de forma mordaz as nuances e os bastidores de uma indústria que Kuang conhece muito bem: o mercado editorial. Ao narrar a trama pelo ponto de vista de uma escritora — que, consumida pela frustração com a própria carreira, toma uma atitude extrema —, a autora aborda como racismo e apropriação cultural aparecem de modo nem sempre óbvio no mundo literário. Toda a empolgação que a protagonista June Hayward sentiu antes de lançar seu primeiro livro se transformou em amargor ao descobrir que nem tudo vem fácil para jovens escritores. Formada em Yale, ela viu seus sonhos irem por água abaixo, sendo esquecida por sua editora e com exemplares encalhados nas prateleiras. No entanto, June tem a percepção de que tudo sempre foi entregue de bandeja a Athena Liu, sua colega de faculdade, que se tornou uma autora de enorme sucesso comercial e queridinha dos críticos literários. E é por isso que June não titubeia diante de uma situação inimaginável: ao presenciar um incidente esdrúxulo que leva à morte de Athena, ela rouba o manuscrito da “amiga”, um romance épico sobre a contribuição dos trabalhadores chineses durante a Primeira Guerra Mundial. Publicando o livro sob o nome Juniper Song, racialmente ambíguo, ela logo começa a conquistar tudo aquilo que sempre desejou: fama, fortuna e o reconhecimento de seu talento como escritora. No entanto, em pouco tempo, sente o peso de assumir a autoria de uma história que não lhe pertence.