O piloto automático das feiras de livros (e da imprensa)
PublishNews, Haroldo Ceravolo Sereza*, 23/04/2018
Paloma Franca Amorim é paraense, não teve livro resenhado pelos principais jornais do Brasil e não está na programação da principal feira do livro no Pará. Haroldo Ceravolo pergunta por quê?

Paloma Franca Amorim é paraense, esteve na Flip, teve livro resenhado pelos principais veículos do Brasil, mas não está na programação da principal feira paraense do livro. Haroldo Ceravolo pergunta por quê? | © Vanessa Garcia / Redes sociais da autora
Paloma Franca Amorim é paraense, esteve na Flip, teve livro resenhado pelos principais veículos do Brasil, mas não está na programação da principal feira paraense do livro. Haroldo Ceravolo pergunta por quê? | © Vanessa Garcia / Redes sociais da autora

Por que Paloma está fora da lista de "principais convidados" da Feira Pan-amazônica do Livro? Soube disso há uma semana. A situação me parece despropositada. Vou explica por quê.

Paloma Franca Amorim é minha autora. Isso em tese me tornaria suspeito. Mas em minha defesa tenho a dizer que já publiquei mais de 500 livros e, pela primeira vez em quase 15 anos de editor, sinto-me na obrigação de escrever algo sobre uma situação semelhante. Quem achar que eu não tenho esse direito, por favor, aceite minhas desculpas. Quem tiver dúvidas, peço que siga adiante. Nos dois casos, sugiro que leiam também o que Paloma escreveu, categoricamente: Exclusão machista e racista marcam XXII Feira Pan Amazônica do Livro.

Vamos aos fatos: a Secretaria de Cultura do Pará divulgou a lista dos "principais convidados da Feira Pan-Amazônica do Livro", que acontece neste ano. Nela figuram cinco autores: Milton Hatoum, Giovani Martins, Valter Hugo Mãe, Ignácio de Loyola Brandão e Celso Antunes.

Há um ano, Paloma França Amorim publicou Eu preferia ter perdido um olho pela Alameda. Antes disso, ela tinha um baita currículo: aos 28 anos, tinha dez anos de cronista do jornal O Liberal, de Belém, e uma intensa vida como autora e atriz teatral em São Paulo. Além disso, desenha: fez as ilustrações do projeto de relançamento da obra do escritor paraense Dalcídio Jurandir. E pinta e faz samba. 

Seu livro de estreia não foi resenhado pela Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, mas a edição da obra não passou despercebida: Paloma esteve na Flip de 2017 com Geovani Martins e foi saudada pela consagrada Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor. Também foi resenhada por várias publicações independentes e entrevistada pelo Huffington Post Brasil e por O Liberal, entre outros veículos. Para Gonçalves, "ela consegue dizer o que quer dizer com o mínimo possível". Outro colega de mesa da Flip de Paloma, o escritor baiano Evanilton Gonçalves, escreveu que Eu preferia ter perdido um olho "é um livro corajoso que funciona como uma chave que abre a couraça de nosso tempo".

Em sua rede social, Paloma critica o fato de a Feira ter escolhido um a mulher negra para ilustrar o seu cartaz, mas não há mulheres negras na programação | Reprodução
Em sua rede social, Paloma critica o fato de a Feira ter escolhido um a mulher negra para ilustrar o seu cartaz, mas não há mulheres negras na programação | Reprodução
Para ser sincero, apesar de eu sempre ter dito a Paloma que seu trabalho era excepcional e ter escrito na orelha que seu livro é um evento que marcará a paisagem literária brasileira dos próximos anos, a repercussão me surpreendeu. Quando Paloma quis lançar o livro pela Alameda, senti-me na obrigação de dizer claramente a ela que teríamos dificuldades no circuito literário. 

Repito aqui mais ou menos o que disse a ela: a Alameda, ainda que tenha bons livros de literatura, não é compreendida pelo mercado como uma editora da área, e sim como uma editora de ciências humanas. Além disso, o cenário literário, e isso inclui feiras de livros e os poucos jornalistas especializados que sobraram, é pouco permeável a obras não editadas por algumas poucas editoras. O exemplo mais radical disso veio depois da publicação de Eu preferia ter perdido um olho: no Prêmio Jabuti de 2017, sete dos dez livros finalistas na categoria romance foram publicados por uma só editora, a Companhia das Letras -- e, para reforçar a tese, editora também de Milton Hatoum e Geovani Martins. 

Volto à pergunta inicial: por que Paloma não está na lista dos "principais autores" da Feira Pan-Amazônica do Livro?

Só encontro uma resposta, o que chamamos nas redações de jornal de "piloto automático". Ou o que os marxistas chamam de "ideologia",

a ideologia dominante, aquela que está em todos nós, que não é fácil reconhecer, mas que nos atrapalha todos os dias. Não é fácil abrir os olhos para o que não é, estética e politicamente, esperado. Quando falo estética e politicamente, estou pensando no recorte estético e político promovido pelas editoras dominantes do circuito: o que não parece com o que ela escolhe tem uma dificuldade muito maior de ser visto e lido do que é feito fora dela.

Mas no caso de Paloma não eram poucos os elementos quer permitiriam que a curadoria da Feira Pan Amazônia a visse: primeiro, ela é colunista de um grande jornal local há mais de uma década, agora; segundo, é uma autora local com projeção, ainda que limitada, nacional; terceiro, ela é mulher, negra, indígena. Não estamos aqui nem perto de defender cotas, mas não é chocante perceber que estamos em 2018 e nenhuma, repito, nenhuma das "principais atrações" da feira seja mulher?

Há um sistema perverso funcionando no circuito literário brasileiro que favorece os mesmos escritores de sempre. A professora da UnB Regina Dalcastagné acompanha a produção literária brasileira de algumas décadas e demonstrou como mudou pouco o perfil do escritor consagrado: em geral é homem, branco e sudestino. Apenas para dar um dado da pesquisa, de 1965 a 2014, 70% dos escritores publicados pelas grandes editoras brasileiras são homens. Numa das entrevistas dadas sobre o projeto, Dalcastagné afirma: "Ainda tem muito a ideia de que mulheres escrevem para mulheres e homens escrevem para todos. Eu desconfio, desconfiança e não certeza, que o mercado editorial tem preconceito achando que vai vender mais homens do que mulheres. E talvez venda, mesmo. Pois sempre somos acostumados com a ideia de que a experiência do homem e do branco são universais". Para mais dados, clique aqui.

A invisibilidade constrangedora de Paloma em plena Belém da Feira Pan-Amazônica é fruto dessa dificuldade de lermos a diversidade: de gênero, regional, de raça, de classe social. Mas há também outros pontos cegos atuando. Como editor, parece-me que há um bloqueio do mainstream literário para a bibliodiversidade. A bibliodiversidade, ainda que se relacione com as outras diversidades, pode e deve ser pensada autonomamente. Criada pelos editores independentes, a palavra surgiu no Chile no começo dos anos 2000 e põe em questão o mercado editorial a partir da ideia de que nele precisam florescer e ter visibilidade diferentes projetos editoriais.

A diversidade de projetos editoriais permite ver o mercado editorial para além dos projetos dominantes. E permite pensar políticas públicas, regulação do mercado livreiro, compras governamentais, eventos e coberturas jornalísticas que evitem que o poder do dinheiro, dos preconceitos, da ideologia e do capital simbólico sejam os critérios quase que únicos nessas escolhas.

Paloma, uma autora reconhecida no Pará e fora do seu Estado natal, não entra na lógica da programação da feira literária que ocorre perto de sua casa.

A lógica da exclusão atinge em cheio autores que não se enquadram na lógica ideológica das grandes feiras. No sudeste mesmo, é raro encontrarmos nesses eventos autores de grande talento, como Ferréz, Clara Averbuck, Márcia Denser e Marcelo Mirisola, escritores de diferentes espectros ideológicos, todos publicados por editoras com boa visibilidade. Mirisola é um dos que mais se bate contra essa exclusão, acusando “panelinhas” e muitas vezes agredindo os colegas mais integrados de maneira, para dizer o mínimo, injusta. Mas a essência de sua crítica à lógica que vige é correta: ela é excludente, e exclui frequentemente os mais talentosos. 

Mas, ainda assim, eu vejo a lista da Feira Pan-Amazônica e me pergunto: como é que não incluíram Paloma? A minha resposta, pesadas todas as questões, é simples: porque não conseguiram ver. Isso nada depõe contra ela, mas depõe muito contra aqueles que acabam por criar um cânone literário nacional tão distante da diversidade da nossa produção.

Paloma é mulher, é negra, é indígena, é paraense. Ela é uma voz dissonante. Ela precisa ser lida mesmo que vocês não gostem dela. Mesmo que ela diga coisas que incomodam. E, pior, mesmo que ela incomode só por saber seu poder de fala e por sua recusa a ficar calada. 


*Haroldo Ceravolo é jornalista e editor da Alameda Editorial. Possui doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo e foi presidente da Liga Brasileira de Editoras (LIBRE) de 2011 a 2015.

[23/04/2018 06:00:00]