Lei das biografias, livrarias e origens literárias
PublishNews, Iona Teixeira Stevens, 03/06/2013
Fórum das Letras terminou no último domingo

Na praça Tiradentes, no centro histórico de Ouro Preto, um grupo com vestimentas de povos indígenas norte-americanos tocam músicas incas, atraindo os turistas que encheram a cidade mineira no último feriado do Corpus Christi. Entre os paralelepípedos nota-se ainda a serragem colorida dos tapetes da procissão, que forraram as ruas do centro no dia anterior. Esse cruzamento de diferentes culturas e festividades religiosas serviu como pano de fundo para o tema do Fórum das Letras, que acabou no último domingo em Ouro Preto. Com o tema “Literaturas de Origem”, o Fórum se inspirou na coincidência do calendário com o feriado católico e buscou tratar “o sagrado na literatura, o indizível que está por trás da escrita, que é diferente em cada cultura, mas escapando do tema da religiosidade”, explicou Guiomar de Grammont, organizadora do evento.

Se o tema parecia difícil de ser tratado, Adélia Prado, que lotou o Cine Vila Rica na abertura oficial do evento, na última quarta, o tirou de letra. “Poesia fornece alimento, te coloca no lugar, por isso é sagrado”, contou a poeta mineira, que conseguiu ligar a conversa com as comemorações do Corpus Christi.“Não tem anda mais erótico do que o sagrado”, declarou Adélia Prado – que teve que explicar a declaração à uma plateia boquiaberta.

Carregando a bandeira


O Fórum já é conhecido pelo ambiente informal e pelo público interessado, e esse ano ele será lembrado também por ter levantado algumas bandeiras. Uma das mesas mais importantes do evento foi a primeira, “Biografias Censuradas x Liberdade de Expressão”, que reuniu Paulo César Araújo, o autor da tão comentada biografia do Roberto Carlos, o editor de não ficção da Record Carlos Andreazza e o deputado Newton Lima, autor do projeto conhecido hoje como Lei das Biografias. Segundo Carlos Andreazza, “essa é hoje ‘A’ grande questão no gênero da não ficção”, não somente desestimulando o editor a publicar livros do gênero como limitando o próprio autor na sua escrita, não colocando personagens marginais na história (que também precisam de autorização para aparecer), por exemplo. “O papel do editor nesse momento é comprar a briga”, concluiu Carlos.

O deputado Newton Lima explicou então que, com o requerimento do deputado Marcos Rogério que visa colocar o PL no Plenário da Câmara (em vez de seguir diretamente para o Senado após ter sido aprovado nas comissões), as opções agora são: esperar que o PL seja debatido no plenário antes do final prazo – o que seria inviável, segundo Newton Lima, já que a fila no momento conta com 1.142 projetos a serem apresentados – ou derrubar 37 das 72 assinaturas do requerimento (entre elas, notou-se as dos deputados Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Paulo Maluf, Pastor Marco Feliciano e Anthony Garotinho). Por enquanto 4 já foram retiradas, mas o deputado insistiu que só haveria resultado com a pressão popular e trouxe à mesa uma moção pedindo o fim do requerimento.

O Fórum das Letras então comprou a “briga do editor de não ficção” e levantou a “bandeira da pressão popular”: na primeira noite, na abertura do evento, Guiomar de Grammont apresentou o posicionamento do Fórum contra a lei atual, e levou a moção de Newton Lima, para ser assinada pelos participantes do evento. “Hoje há grandes transformações, é um tempo de transição, e ao mesmo tempo temos estruturas arcaicas, com esses entraves. É preciso se posicionar”, nos contou Guiomar.

A mesa sobre a lei das Biografias não foi a única a pedir uma movimentação pública. Na sexta, a mesa “Qual o futuro das livrarias? O que aconteceria se elas desaparecessem?” juntou Rui Campos (Livraria da Travessa), e Daniel Louzada (Saraiva). Para Rui, a resposta é clara: não aconteceria nada, pois se não há livrarias significa que não há mais demanda e que as pessoas não amam mais livros. “O livro é sagrado, tem uma aura”, concluiu Ruy. Já Daniel prevê talvez um futuro menos otimista: “O cenário dos últimos anos é composto de empresas que seguem uma lógica monopolista”, comentou Daniel. O futuro, mais uma vez, parece estar em nossas mãos, “é uma questão de escolha da sociedade, o livro é um patrimônio público”, completou. Mas o debate não ficará restrito à mesa: segundo Guiomar, a ideia é levar essa questão das livrarias, em conjunto com o SESC, a outras cidades ainda este ano, em forma de encontros.

Livro como bem público


Outra mesa que também teve como foco o mercado em si e o futuro do livro no Brasil foi a“Como tornar o livro mais barato?”, que aconteceu no sábado, com Silvia Leitão (Best Bolso), Ivo Enoc (Record), Ivan Pinheiro Machado (L&PM), que trabalham diretamente com o livro de bolso. Segundo Ivan Pinheiro, é muito claro que “para baratear o livro precisamos ter Estado. O preço se coloca como questão política, até porque precisamos formar leitores”. A mesa apontou alguns fatores que afetam o barateamento do livro. Além dos já conhecidos, como “papel” e “distribuição”, Ivan afirmou que há um “preconceito na grande imprensa, que ignora o livro de bolso”, o que estaria fortalecendo a não aceitação do livro barato por parte dos leitores e dificultando assim a abrangência do livro barato.

O e-book, como solução para baratear o livro, foi uma divergência. Para Ivo Enoc, por exemplo, o livro digital tem o objetivo final de vender aparelhos eletrônicos (que no final das contas não seriam nem e-readers e sim tablets multifuncionais, como mostra o último modelo do Kindle). Para Sérgio França, porém, facilita muito o caminho, principalmente por causa da distribuição, “o problema por enquanto é a pequena base instalada”, comentou Sérgio.

Ano que vem

Em 2014, o fórum será realizado no segundo semestre, e terá um tema tão enigmático quanto o deste ano. “Escritas em Transe”, faz alusão ao filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. A ideia, segundo Guiomar, é abordar o momento de transição que a sociedade se encontra hoje, lembrando também dos cinquenta anos do Golpe, mas sem se restringir ao viés político.

[03/06/2013 00:00:00]