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As viagens à Lua de Verne, Méliès e Armstrong
PublishNews, 10/09/2012
As viagens à Lua de Verne, Méliès e Armstrong

Esta é a última semana – até 16 de setembro – para visitar a exposição “George Méliès, o mágico do cinema” no Museu da Imagem do Som-MIS, em São Paulo, que exibe vários dos seus filmes realizados por volta de 1900, entre eles “A Viagem à Lua”, de 1902, inspirado nos livros Da Terra à Lua e À Volta da Lua, de Julio Verne, publicados em 1865 e 1869 (e reunidos em português em Viagem ao Redor da Lua).

O filme de Méliès, realizado três anos antes da morte de Verne, é a primeira adaptação de um livro do escritor francês para o cinema (o segundo seria “A Ilha Misteriosa”, na década de 1950). Assistindo ao filme de Méliès no pequeno cinema-cápsula montado no MIS, é interessante ver como mais de 100 anos depois e mais de 40 após a chegada do homem à Lua, o filme ainda suscita, em crianças e adultos, o fascínio e o maravilhamento da viagem e da descoberta do universo.

Há poucos dias morreu Neil Armstrong – primeiro astronauta a pisar o solo lunar em 1969 em missão da Apollo 11 –, quando a Nasa recebia de Marte as primeiras fotografias do robô Curiosity (é possível acompanhar a missão através do site). Eu lembro perfeitamente das imagens daquele dia 20 de julho de 1969, no meio das férias escolares e em uma pequena televisão preto e branco cheia de linhas correndo horizontalmente, do momento preciso em que Armstrong pisou a superfície lunar. Era uma visão mágica e assombrosa. Poucos anos depois, em 1976, acompanhei a Viking I em Marte e fiz um álbum de recortes de jornal com as notícias do dia a dia da exploração da Viking. É claro que havia naquela época, pelo menos na fantasia de uma criança, uma vívida ansiedade frente à imaginária possibilidade de encontrar formas de vida (inteligente) em Marte (arriscaria dizer que isto permanece igual). Eu sinceramente esperava testemunhar a visão de um ET marciano...

Não é difícil, assim, imaginar como “A Viagem à Lua”, de Julio Verne, incendiou a imaginação dos seus leitores em 1865 e, da mesma forma, Méliès em 1900 com seu filme, em um período no qual o cinema estava sendo inventado e sua linguagem ainda não estava definida, conforme conta Flávia Cesarino Costa no indispensável O primeiro cinema. Espetáculo, narração, domesticação (Azougue). Os filmes de Méliès são uma mistura de mágica, show de ilusionismo em cenas curtas meio irreverentes ou em pequenas aventuras como o filme da viagem à Lua e a viagem ao Polo Norte. No filme de 1902 os seres da Lua mais parecem uma tribo desconhecida, a sobreposição de duas fantasias (extra-europeia e extraterrestre) sobre o Outro.

O fascínio desta história da invenção do cinema e de Méliès retornou a nós com o livro A Invenção de Hugo Cabret (Edições SM), de Brian Selsnick, e depois com o filme de Martin Scorcese. É particularmente emocionante ver na exposição do MIS as duas fotografias da pequena loja de brinquedos de Méliès na estação ferroviária. A sala com as fotografias do estúdio e filmagens de “Viagem ao Polo Norte” também é imperdível.

Em uma passagem memorável de seu livro Viagem ao Redor da Lua, no capítulo “Fantasia e Realidade”, Julio Verne descreve a superfície e os “mares” do planeta, mesclando ciência, imaginação e uma visão de homem muito peculiar que contrasta com o otimismo científico: “Força é confessar que os astrônomos têm batizado estes supostos mares com denominações extravagantes e, no entanto, respeitados até hoje pela ciência. No hemisfério esquerdo estende-se o mar das Nuvens, onde tantas vezes vai perder-se a razão do homem. Não longe, aparece o mar das Chuvas, alimentado por todas as agitações da existência. Perto destes cava-se o mar das Tempestades, onde o homem luta incessantemente contra as próprias paixões, tão amiúde vitoriosas. E, em seguida, depois de cansado e gasto pelos desenganos, pelas traições, pelas infidelidades e por todo o séquito de misérias terrestres, que encontra como termo da sua carreira? O vasto mar dos Humores, mal adoçado por algumas gotas de água do golfo do Orvalho. Nuvens, chuvas, tempestades, humores! Acaso a vida humana constará de mais alguma coisa? Porventura não poderia resumir-se toda nestas quatro palavras?”


E segue Verne: “O hemisfério direito contém mares menos extensos, cujos nomes significativos compreendem todos os incidentes de uma existência feminina. Há ali o mar da Serenidade, por sobre o qual se debruça a donzela inexperiente, e o lago dos Sonhos, que lhe promete futuro risonho. Há o mar do Nétar, com as suas ondas de ternura e as suas brisas de amor. Há o mar da Fecundidade, há o mar das Crises. Seguem-se o mar dos Vapores, cujas dimensões são talvez restritas demais e, finalmente, o mar da Tranquilidade, onde vão sumir-se todas as falsas paixões, todos os inúteis devaneios, todos os desejos não satisfeitos e cujas ondas correm pacificamente a derramar-se no lago da Morte” (Editora Matos Peixoto, tradução de Vieira Neto, 1965).

Foi precisamente neste mar da Tranquilidade que a Apollo 11 pousou em 20 de julho de 1969 – praticamente um século depois da publicação do livro de Verne – e onde Neil Armstrong deu os primeiros passos do homem fora da Terra. Armstrong, lemos em seus obituários, passou a vida tentando levar uma “vida comum” e recolhendo-se da fama de herói, mas como Jules Verne e George Méliès continuamos a imaginar e a idealizar um encontro no universo que nos mostre que existem outros mundos e possibilidades de organização da sociedade.

E continuamos a perguntar como Verne nos anos 1860 sobre os resultados práticos da viagem à Lua: “Ir-se-á de um planeta a outro, de Júpiter a Mercúrio, ou, mais tarde, de uma estrela a outra, por exemplo, de Polar a Sírio? Inventar-se-á finalmente algum modo de locomoção que permita visitar os sóis que, por milhões, de cortam no firmamento?” Cento e cinquenta anos depois da publicação destes livros de Julio Verne, seguimos sonhando com viagens pelo universo com a mesma imaginação e fantasia.

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

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