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Mais leitores, novas leituras
PublishNews, 02/07/2012
Mais leitores, novas leituras

Participei, pela segunda vez, de uma apresentação para alguns editores ingleses sobre o mercado brasileiro, como responsável pelo panorama do segmento do livro infantil e juvenil. A experiência, que veio se somar às discussões promovidas pelas Conversas ao Pé da Página, há duas semanas, acendeu em mim vários pensamentos e reflexões que, se não têm nada de novo, pelo menos focam algumas questões que gostaria de compartilhar com vocês.

Tudo começa pelo interesse que o livro para crianças e jovens desperta, em grande medida, como sabemos, pelo volume e regularidade das compras governamentais. E, em paralelo, por alguns números do mercado, como as vendas dos chamados livros de fantasia, ou dos romances para o público feminino, ou o número das vendas porta a porta. Se somarmos ainda os números dos mais vendidos da última lista do PublishNews e considerarmos que, dos 20 primeiros, quatro são infantojuvenis (Agapinho, em primeiro lugar, com 27.166 cópias; O filho de Netuno, com 14.318; Jogos vorazes, com 7.358, e Em chamas, com 5.492), não dá para tapar o sol com a peneira e fazer de conta que estes números nada têm a ver com a gente. Talvez não tenham mesmo com a maioria de nós, editores de livros para crianças e jovens, porém eles delineiam um mercado fortemente aquecido e com determinado perfil que simplesmente não dá para ignorar.

Quantitativamente os dados mostram um mercado favorável para um determinado tipo de produtos fáceis, de entretenimento e de best-sellers de modo geral. De produtos que puxam uns aos outros, como Agapinho, por exemplo, e que acabam se sobrepondo e ganhando cada vez mais espaço em detrimento de outro tipo de lançamentos. Claro está que o crescimento corresponde a uma tendência cujas razões são de ordem múltipla, não apenas culturais, como sociais, religiosas e ideológicas, que encontram seu correspondente na música, nos programas de grande audiência na TV, no cinema etc.

Talvez o Brasil não esteja lendo muito do que eu gostaria, mas que houve uma ampliação do público leitor não resta a menor dúvida. E tudo isso apesar de ainda ficarem de fora grandes parcelas da população que não têm acesso ao livro e à leitura.

A inserção no mundo da leitura, tal como ocorre hoje, e não apenas no Brasil, levanta questões que, para quem discute e defende a importância da promoção da leitura, não devem passar despercebidas. Um primeiro aspecto é a necessidade de pensar a leitura como manifestação de um reflexo cultural muito mais amplo e abrangente. Isto é, o que se lê pressupõe uma “educação da sensibilidade”, uma predisposição para graus de dificuldades, de reflexão, de desafios para os quais o leitor deve estar preparado e predisposto. E isto remete não só a uma história de leitura pessoal, mas também a modelos de referências, ao acesso a uma diversidade de gêneros e estilos que progressivamente construam critérios e parâmetros de escolha.

A qualidade se perde e se dilui no mesmo ritmo da ascensão e difusão de uma visão de mundo parametrada pela lógica do mercado e pelo relativismo que faz tábula rasa de todo e qualquer critério que não esteja no âmbito do gosto e da opinião pessoal. O mundo global promove exatamente isto: o nivelamento e o valor de tudo pelo crivo do mercado. Só assim se explica, por exemplo, no mundo da edição, a exposição lado a lado de livros tão díspares como um clássico como Ulysses, de James Joyce, e um best-seller qualquer, cuja vida se reduz às duas primeiras tiragens. Nada mais fora de época do que a reivindicação de critérios objetivos para analisar e, portanto, diferenciar o joio do trigo. Afinal, vivemos num mundo do vale tudo. Mas isto é outra história.

Porém, ainda persiste um discurso fundado em um caráter até certo ponto redentor da leitura. Olhar para a multiplicação de leitores e para como as grandes livrarias tornaram-se um local de lazer deveria mudar o foco. Avançar na discussão transfere o olhar para o tipo de leitor que está sendo formado ou que se quer formar. Daí o peso e o papel de investir numa leitura literária como base para a formação de um leitor crítico e autônomo, que possua critérios e referências elaboradas para poder, ao longo de seu processo de formação leitora, construir e apurar tais referências. O que não necessariamente deve significar uma camisa de força em um determinado gênero. Ao contrário, o problema não é ler qualquer coisa, mas saber o que se está lendo e estabelecer as devidas diferenças quando elas existirem.

Daí a importância da edição do livro para crianças e jovens, pois é nesta fase de formação leitora que a amplitude de referências fica mais fácil de ser transmitida; bem como a importância de novos olhares sobre a produção contemporânea, que devem ser educados para ler as imagens e estabelecer as relações, nem sempre diretas e complementares, entre a narrativa do texto e a da imagem.

Formar leitores para introduzir esta nova linguagem, que exige um aprimoramento do olhar e do entendimento de várias linhas narrativas, é muito importante também para dar um salto na qualidade da edição de livros para o público jovem. E, para não perder de vista o que um bom livro sempre pode promover, assistam a este vídeo e boa viagem! *

Em tempo: as inscrições para o Bloco III, último bloco de 2012 do Conversas ao Pé da Página, começam dia 8/07. Não perca! Katsumi Komagata e Javier Zabala pela primeira vez no Brasil, junto com Sophie Octobre, Joelle Turin e Socorro Venegas. Para maiores informações entre no site: www.conversapepagina.com.br.

* Publicado em Garatujas Fantásticas: http://garatujasfantasticas.com

Dolores Prades é editora, gestora e consultora na área editorial de literatura para crianças e jovens. É membro do júri do Prêmio Hans Christian Andersen e curadora da FLUPP. É também coordenadora do projeto Conversas ao Pé da Página - Seminários sobre Leitura, e da área de literatura para crianças e jovens da Revista Eletrônica Emília. Sua coluna pretende discutir temas relacionados à edição e ao mercado da literatura para crianças e jovens, promover a crítica da produção nacional e internacional deste segmento editorial e refletir sobre fundamentos e práticas em torno da leitura e da formação de leitores. Seu LinkedIn pode ser acessado aqui.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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