Um livro só não faz primavera
PublishNews, Roberta Campassi, 14/11/2011
Fernando Báez e Gonçalo M. Tavares discutiram poder de mobilização dos livros e o sentido da escrita na Fliporto
Por que ser escritor? O que há de tão fascinante em um livro? Livros, afinal, podem ou não provocar mudanças sociais, revoluções, primaveras?

Para Gonçalo M. Tavares, autor angolano que já conquistou alguns dos principais prêmios de literatura em língua portuguesa, como o José Saramago, um único livro não provoca revoluções. Mas cada bom livro lido muda um pouco seu leitor, até que muitos livros “colocam as pessoas num ponto de lucidez ou de indignação”. Músicas ou imagens, para ele, incitam mais ação dos que os livros.

Já para Fernando Báez, escritor venezuelano, um apaixonado pelo objeto livro, é uma “responsabilidade – palavra-chave para o escritor – unir-se ao clamor popular contra a corrupção e a destruição causadas pela ganância política ou corporativa”. Nesse sentido, o escritor deveria se conectar aos protestos recentes mundo afora, como a Primavera Árabe ou o movimento Occupy Wall Street.

Tavares observou que, apesar do poder dos livros de mudar cabeças, é preciso certa cautela. “Há uma parte que nos leva a confiar totalmente nos livros, mas eles não são objetos de pura bondade. Há uma literatura do mal, que leva a crer na violência”, disse.

Os escritores participaram da primeira conversa da Fliporto no domingo, mediada pelo autor Nelson de Oliveira, e falaram também sobre o motivo de escreverem.

O angolano, autor de Jerusalém e Uma viagem à Índia , contou que se tornou escritor como resultado de muitas leituras. “A partir do momento em que a pessoa começa a ler com muita intensidade, há uma passagem quase direta à escrita”, disse. “O que me fascina é que a partir da escrita, que é um conjunto de traços, e do mundo abstrato do alfabeto, nós conseguimos fazer algo real.” A escrita seria assim uma espécie de “magia branca”, que permite “deixar de ler e começar a ver”, ao mesmo tempo em que nos faz acreditar em algo que não existe, como se ela fosse uma perturbação mental passageira.

Já a trajetória como escritor de Báez é bem diferente. Ela começa na biblioteca municipal em Ciudad Guayana, onde o autor se refugiava dia e noite quando criança, buscando nos livros um mundo diferente da miséria e fome concretas. Um dia, a biblioteca foi destruída por uma enchente do Rio Orinoco. "Naquele momento entendi que seria escritor e que teria que recuperar essa memória perdida", contou. E de fato foi assim.

Báez formou-se em biblioteconomia e passou dez anos escrevendo História universal da destruição de livros, em que analisa eventos históricos como o incêndio da biblioteca de Alexandria, a Inquisição e a mais recente guerra do Iraque para mostrar como os livros foram aniquilados ao longo do tempo. Mais tarde, publicou outros títulos e o primeiro romance, El traductor de Cambridge (sem tradução no Brasil), nos quais continua explorando o tema. Báez segue o objetivo de preservar memórias, e não a de um único livro, mas do conjunto de obras destruídas que representam elementos fundamentais da humanidade.

[14/11/2011 01:00:00]
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