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A biblioteca e o farol: leituras e navegações
PublishNews, 07/02/2011
Bibliotecas: leituras e navegações

A reinauguração da Biblioteca Mário de Andrade e um visível processo de revalorização – pelo Estado e pela sociedade – das bibliotecas públicas de São Paulo são um acontecimento memorável na vida da nossa cidade. O setor Circulante, aberto no ano passado, com seus variados e confortáveis espaços de leitura, um atraente pátio interno e uma longa interface arquitetônica com a rua, é um destaque à parte.

No livro Esculpindo a cultura na forma Brasil. O Departamento de Cultura de São Paulo (1935-1938), a historiadora Patricia Tavares Raffaini narra a interessante trajetória deste Departamento e examina o contexto e os conceitos que levaram à implantação da Biblioteca Mário de Andrade, como parte de um pioneiro projeto de cultura oficial em São Paulo. O livro, editado pela Humanitas (FFLCH-USP), é o resultado de sua dissertação em mestrado em história na USP.

O Departamento de Cultura e Recreação foi criado em 1935 com quatro divisões: Expansão Cultural, Bibliotecas, Educação e Recreios (parques infantis) e Documentação Histórica e Social. Serviços e instituições que já existiam foram incorporados, entre eles os parques infantis, o Teatro Municipal, o Arquivo Municipal, o Serviço de Diversões Públicas e a Biblioteca Municipal.

A Biblioteca Pública Municipal fora fundada em 1925 em um prédio alugado na Rua Sete de Abril e teve como primeiro diretor Eurico de Góes, sucedido por Rubens Borba de Moraes em 1935. O projeto do Departamento de Cultura previa uma rede de bibliotecas: a biblioteca central (que começou a ser construída em 1936), voltada para pesquisa sobre a história do País (com a aquisição de uma coleção brasiliana) e não circulante, bibliotecas infantis e bibliotecas populares de bairro (estas circulantes e com obras variadas) e, por fim, uma biblioteca circulante em um carro adaptado (que se tornou uma espécie de imagem cartão-postal do projeto e da utopia de uma cidade leitora e cidadã). Constituir um público leitor era sempre um eixo de preocupação do Departamento e dos seus intelectuais escritores.

A Biblioteca Infantil passou a ser dirigida por Lenira Fracarolli, que já havia montado um serviço na Escola Caetano de Campos. Inaugurada em 1936 no mesmo endereço onde funciona até hoje – com o nome de Biblioteca Monteiro Lobato – atendeu nada menos do que 25.500 crianças em seu primeiro ano. O projeto original já comportava parque infantil, sala de festas e de jogos e projeção de filmes. A Monteiro Lobato permanece como um extraordinário espaço de leitura e de passeio na cidade.

O plano de bibliotecas de 1935 era também construir dez bibliotecas populares, sendo a maior delas na Mooca, principal bairro operário da cidade, e que teria em anexo parque infantil e cinema. Este projeto das bibliotecas populares não vingou, o que evidencia, escreve Patricia, “quais eram as prioridades dadas pelos intelectuais do Departamento de Cultura no momento de concretizar seu projeto”.

O plano do Departamento de Cultura integrava, escreve a autora, um projeto nacionalista de forjar uma identidade paulista e nacional que daria substância a um Estado equiparado aos outros “civilizados”. Mário de Andrade pretendia levar a cultura erudita à população em geral e, ao mesmo tempo, valorizar e levar às camadas médias e altas da sociedade a cultura popular que ele tanto pesquisava e prezava, do interior, rural, caipira, indígena.

Igualmente, o grupo intelectual em torno de Mário pretendia, com o projeto do Departamento, educar para a cidadania e participação na vida pública do País (após a derrota paulista em 1932), o que se daria conjuntamente com a formação de quadros administrativos e educadores nas recém-fundadas Escola Livre de Sociologia e Política e Universidade de São Paulo.

A análise de Patricia Raffaini é ainda mais interessante pela abordagem crítica do projeto do Departamento, cuja trajetória é em geral mitificada. Ela mostra ambiguidades e limites, seja em certo tom antiimigrante, entendendo que a cultura nacional “legítima” era a tradicional do interior, seja também por uma concepção elitista de cultura, que passava ao largo da baixa escolaridade e do analfabetismo da maioria da população. Em 1934, havia 1.137 milhão de crianças em idade escolar, das quais apenas 431 mil frequentavam a escola, ficando de fora mais de 700 mil. Era, em parte, uma concepção de política cultural que não dava conta da metropolização e das questões sociais do seu tempo, acreditando que uma ação cultural centralizadora produziria cidadania. Exemplo destas limitações, além da não prioridade das bibliotecas populares, foi o não desenvolvimento do rádio e do cinema como meios educativos e o desinteresse pela cultura urbana imigrante de São Paulo. 

Mas evidentemente era um projeto forte, pioneiro, fundador de muitas práticas culturais oficiais e que deixou como um dos seus ícones a Biblioteca Mário de Andrade. Que lugar a Biblioteca ocupará nas novas configurações sociais e culturais é difícil prever. Ainda mais com as novas modalidades digitais de leitura e de produção e difusão dos textos. De certa forma, ele terá que se reinventar, mas agora tem um ponto de partida sólido e uma inserção urbana privilegiada.

Mas a simples existência da biblioteca naquele lugar, no centro da cidade (cada vez mais atraente e interessante, o que nunca deixou de ser), reformada e revigorada, com uma interface arquitetônica atraente aos pedestres, traz alguma certeza e muita esperança, como um farol cujo pontinho de luz ilumina ao longe, garantindo uma referência de navegação, e gira em várias direções à espera de outros navegadores que necessitem de localização e orientação.

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

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