As influências de Nelson
PublishNews, 27/05/2005
Nelson Rodrigues via tragédia grega em um Fla x Flu, felicidades sublimes em um Chicabon, sofria torturas íntimas diante de um prato de salgadinhos com guaraná. Daí a comicidade adorável de suas imagens. Há nelas ao mesmo tempo um aspecto de tragédia atemporal e de crônica, com a qual todos podemos nos identificar. Nelson foi um explorador do humano, um Dostoievski 'carioca' em constante perambulação pela boemia, preso entre o romantismo e o realismo, vanguarda e reacionarismo. Tinha fome de pão, amor e literatura. Esta última saciou no sanatório - onde se internou para tratar uma tuberculose. Em A fome de Nelson (Record, 112 pp., R$ 24,90), Adriana Armony analisa como a temporada passada entre os moribundos da carne influenciou a construção dos personagens de Nelson: os moribundos de alma, figuras-chave nas tramas do dramaturgo. É no sanatório que sua doença foi sublimada em arte. Foi no hospital que montou sua primeira peça e descobriu o talento para expor os traumas morais e sexuais da burguesia carioca, e brasileira, sob o prisma do grotesco. A apresentação de homens e mulheres de aparente normalidade, mas que em momentos de decisão deixam emergir os instintos mais básicos. Adriana mostra, ainda, o impacto que a morte do irmão Roberto Rodrigues, a ruína da família e uma paixão não correspondida, pela bela bailarina Eros Volúsia, tiveram na obra de Nelson.
[27/05/2005 00:00:00]