A recusa da estabilidade
PublishNews, Redação, 31/08/2026
Livro se oferece como travessia pelos escombros de um tempo que transborda apatia enquanto também a enterra

Anal dos insensatos (Cachalote, 72 pp, R$ 59,90), de Juliana Bordão, é um livro que recusa qualquer estabilidade: fragmentado em seis partes, opera por acumulação vertiginosa, justapondo imagens sem mediação – garimpeiros no Congo e corsários no jardim de Allah, tubarões com cocaína no estômago e romances epistolares interrompidos por greve dos correios. Juliana Bordão constrói uma antipoesia que não oferece respiro, apenas a vertigem de um mundo saturado de signos em colapso, em que o presente é simultaneamente “o amanhã de ontem / e o ontem de amanhã”. A celebração da vida — piolhos, larvas, baratas, vermes como igualmente lindos — desemboca em acusação afiada: o homem branco como “o animal mais feio da terra”. Essa guinada exemplifica o procedimento central do livro: temas implicam seus avessos, a glória se sobrepõe à miséria, o divino escancara o banal.

Tags: Cachalote, Poesia
[31/08/2026 07:13:45]