Como uma editora mantém Simone de Beauvoir viva para uma nova geração de leitores
PublishNews, Publieditorial, 21/08/2026
Quarenta anos depois da morte da escritora francesa, Nova Fronteira tem 17 livros seus em catálogo e busca maneiras de aproximá-la de diferentes grupos

Simone de Beauvoir © Bridgerman Images
Simone de Beauvoir © Bridgerman Images

Neste 2026, quatro décadas depois da morte de Simone de Beauvoir (1908-1986), a escritora, filósofa, ensaísta e feminista francesa circula com desenvoltura pelas redes sociais, em frases que saltaram dos livros para o pensamento contemporâneo. Conhecida pelo best-seller O segundo sexo (Gallimard, 1949), considerado pioneiro e fundamental nos escritos sobre feminismo, e por sua extensa produção intelectual, Simone continua conquistando novos leitores no Brasil. Entre romances, contos, novelas e ensaios filosóficos e autobiográficos, 17 livros circulam em edições caprichadas da Nova Fronteira.

“A Nova Fronteira mantém uma parceria de décadas com a Gallimard e isso foi decisivo para tudo que veio depois. Nos anos 80, algunAs s dos seus livros ainda eram inéditos por aqui, e as primeiras decisões editoriais tinham a ver com apresentar uma autora menos acessada pelos leitores. Hoje o cenário é bem diferente. Simone já é uma voz consolidada e reconhecida", explica a editora Ana Carla Sousa, à frente do catálogo internacional da editora, que tradicionalmente publica no país grandes nomes da literatura francesa, como Jean-Paul Sartre (1905-1980), com quem Simone manteve um relacionamento livre por mais de 50 anos, e as Marguerites, Duras (1914-1996) e Yourcenar (1903-1987).

Todas as capas e projetos gráficos passam pela aprovação da Gallimard e chegam até Sylvie Le Bon de Beauvoir, herdeira da escritora e guardiã de sua obra. E todas as edições vêm com um texto de abertura assinado por uma especialista brasileira, como Mary del Priore, Djamila Ribeiro e Mirian Goldenberg. As introduções contextualizam as obras para quem está lendo pela primeira vez ou até mesmo relendo e são uma forma de puxar os escritos ao tempo presente. Um ensaio de 1970, relançado em 2018, entrou no hype dos debates atuais e pegou a editora de surpresa.

"O envelhecimento é um assunto que vem sendo muito discutido e estudado, e A velhice acabou se tornando uma referência quase natural para quem se interessa pelo tema. Já sabíamos que existia uma demanda por ele, mas as vendas surpreenderam bastante. E o livro continua entre os destaques do catálogo até hoje", sinaliza Ana Carla, com 20 anos de casa e muita afinidade com a obra de Beauvoir. Para quem quer conhecer mais da autora, ela indica dois livros que passaram pelas suas mãos: Memórias de uma moça bem-comportada (1958) e A força da idade (1960).

As memórias revelam mais do que episódios vividos: mostram também a sua formação e a atmosfera que fizeram de Simone de Beauvoir a escritora dessa espécie de “bíblia” do feminismo que O segundo sexo se tornou. Memórias de uma moça bem-comportada é um dos três campeões de vendas na Nova Fronteira, ao lado de A mulher desiludida, de 1967, e o seminal O segundo sexo, que se tornou uma das obras fundamentais para a segunda onda do feminismo e continua surfando nos debates do movimento até a chamada quarta onda.

Para além deste clássico, que Simone levou um ano e dois meses pesquisando e escrevendo, a sua verve memorialista e ensaística tem força no país, mas os seus romances ainda não foram totalmente descobertos. Pouco se fala, por exemplo, sobre Os mandarins, vencedor do Prêmio Goncourt, o mais cobiçado da França, em 1954.

Talvez esteja aí uma das próximas portas de entrada para uma obra que a Nova Fronteira vem mantendo em circulação no Brasil desde os anos 1980. Nesse período, alguns títulos chegaram a ficar fora de catálogo, acompanhando também as transformações da própria editora, mas foram sendo recuperados ao longo dos anos. Hoje, todos os livros de Beauvoir publicados pela casa estão novamente disponíveis, resultado de um trabalho contínuo ombro a ombro com a Gallimard.

“Fizemos questão de manter, ou trazer de volta quando necessário, cada título, para que o público continue tendo acesso à obra completa dessa escritora tão fundamental", assinala Ana Carla Sousa. Além das edições impressas, os títulos estão disponíveis em formato digital, e três deles já ganharam versões em audiolivros: Memórias de uma moça bem-comportada, O sangue dos outros (1945) e A mulher desiludida. A parceria com a editora francesa deve render em breve novos projetos. Quarenta anos depois de sua morte, ainda há muitas portas por onde entrar no legado inestimável de Simone de Beauvoir.

[21/08/2026 08:53:00]