
Quais lugares o mercado editorial brasileiro reserva às escritoras negras? É a partir dessa pergunta, e das muitas tensões que ela carrega, que Cidinha da Silva constrói Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros, novo livro de ensaios da autora mineira que marca a sua estreia na Relicário Edições. Nesta sexta-feira, 21 de agosto, a partir das 19h, ela vai conversar sobre a obra com a cientista Nina da Hora na Janela Livraria (Rua General Glicério, 324, em Laranjeiras — Rio de Janeiro/RJ).
Ao longo de 16 ensaios, Cidinha volta o olhar para os mecanismos explícitos e sutis que atravessam a presença de escritoras negras no universo dos livros. Entre eles estão as políticas de representatividade que elegem uma ou duas autoras como “a bola da vez”, a desigualdade na ocupação de eventos e outros espaços literários e a expectativa de que essas escritoras assumam permanentemente a tarefa de educar seus interlocutores sobre questões raciais.
A autora também questiona uma diferença que identifica na recepção crítica dessas obras: a cobrança para que escritoras negras descrevam, detalhem e justifiquem o que escrevem, em detrimento de uma discussão sobre como escrevem, suas escolhas estéticas, técnicas, referências e projetos literários.
“O lugar da fala, seja escrita ou vocalizada, é arena pública, campo fundamental de construção de imaginários, anterior mesmo à disputa de narrativas. O livro não é um refúgio íntimo, como tentam impor às mulheres que escrevem, como se tudo fosse um diário juvenil. O livro é o espaço daquilo que se deseja tornar público, e isso pode incluir (ou não) a intimidade”, afirma Cidinha no release. A arquitetura do livro acompanha uma metamorfose.
Os ensaios se organizam em torno de três fios, casulo, lagarta e borboleta, usados pela autora para pensar diferentes formas de cerceamento e reação. O casulo corresponde ao confinamento das escritoras negras ao papel de educadoras; a lagarta, às armadilhas que deslocam a atenção da elaboração literária para a necessidade permanente de explicar o conteúdo daquilo que escrevem; e a borboleta representa a ira transformada em insurgência política e estética.
Nesse percurso, Cidinha dialoga com autoras como Audre Lorde (1934-1932), Saidiya Hartman, Buchi Emecheta (1944-2017), Carolina Maria de Jesus (1914-1977) e Marilene Felinto para reivindicar às mulheres que escrevem também o direito à ira, à insurgência e ao revide.
Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras integra a coleção Nos.Otras, da Relicário, dedicada à não ficção de mulheres latino-americanas. A série reúne autoras como Sylvia Molloy, Lina Meruane, Margo Glantz, Carola Saavedra, Mariana Enriquez, Cynthia Rimsky e Josefina Licitra.






