A ‘literatura de guerrilha’ da Nau Editora, 33 anos depois
PublishNews, Monica Ramalho, 18/08/2026
Dois finalistas do Jabuti Acadêmico e uma sequência de lançamentos marcam o 2026 da editora independente carioca, dirigida pela artista visual Simone Rodrigues e pela advogada Angela Moss

Simone Rodrigues e capas dos lançamentos da Nau © Divulgação
Simone Rodrigues e capas dos lançamentos da Nau © Divulgação

Fundada em 1993, no Rio de Janeiro, a Nau Editora vem apostando em um catálogo dedicado inicialmente às ciências humanas, que depois se expandiu para artes visuais, fotografia e literatura. Hoje, a editora independente reúne mais de 200 títulos, 80 deles ativos, e trabalha em 15 novos livros, entre títulos recém-lançados e em andamento, numa operação que Simone Rodrigues resume como “literatura de guerrilha”.

“Em três décadas, muita coisa mudou, mas a Nau continua fiel à tradição de ter como eixo arte e ciências humanas, como filosofia, antropologia e psicanálise”, afirma Simone, artista visual, editora, curadora e pesquisadora mineira, além de diretora executiva e coordenadora editorial da casa. À frente da Nau, ela tem como sócia a advogada Angela Moss. O próprio nome traduz a sua missão. A referência às antigas naus, responsáveis por ampliar as fronteiras do mundo, aproxima-se da concepção do livro como vetor de conhecimento.

Faz poucos dias que a Nau esteve na lista de finalistas da terceira edição do Prêmio Jabuti Acadêmico com duas obras: Cinema negro no feminino: afeto de pertencimento além das telas, organizado por Ceiça Ferreira e Edileuza Penha de Souza, sobre produções, afetos e narrativas do cinema realizado por mulheres negras, e Palavra e imagem na arte contemporânea: usos do vídeo e do arquivo, de Carla Miguelote. Foram as duas inscritas na premiação e já entraram com força na disputa.

Entre os títulos recentes da pesquisadora, professora e escritora Carla Miguelote pela Nau está também Poéticas queer: lesbofeminismo e outras insurgências, lançado em junho de 2026. No livro, a autora discute a necessidade de construir e preservar um arquivo lésbico, recupera autoras e obras que correm risco de apagamento e observa como a literatura pode dar circulação a corpos, desejos e experiências historicamente marginalizados. Ao mesmo tempo, questiona a própria escrita acadêmica: já na apresentação, transforma os lapsos “mau lugar de fala” e “meu lugar de falha” em ponto de partida para refletir sobre o que significa produzir conhecimento a partir de uma posição assumidamente lésbica e feminista.

Há 33 anos atravessando as marés do mercado editorial brasileiro, a Nau também segue colocando novos títulos em circulação. Nesta quinta-feira, 20 de agosto, vai lançar o e-book gratuito Infância, ciência e arte: metodologias e escritas de pesquisa, organizado por Rita Ribes Pereira, Núbia de Oliveira Santos e Caroline Trapp de Queiroz. A publicação será apresentada durante a comemoração dos 21 anos do Grupo de Pesquisa Infância e Cultura Contemporânea (GPICC), às 18h, no auditório do ProPEd/UERJ, no Rio de Janeiro. A programação inclui ainda uma roda de conversa com as pesquisadoras Raquel Pereira Gonçalves (UFR) e Virginia de Oliveira Silva (UFPB).

Baixe de graça o e-book Infância, ciência e arte aqui.

Ainda nesta semana, a editora vai colocar nas prateleiras O corpo feito de olhares, organizado por Ana Maria Tavares Cavalcanti e Luiz Cláudio da Costa, com a costura de textos de dez autores. Nascido dos debates iniciados no 11º Encontro do Grupo Modos, o livro traz reflexões sobre as formas de apresentação e representação do corpo na arte, tocando em questões relacionadas à diferença, à alteridade e à interseccionalidade.

O primeiro encontro com leitores será durante o 13º Encontro do Grupo Modos – Histórias da arte: afetos e desafetos, de terça (18) a sexta-feira (21), no Instituto de Artes da Unicamp, em Campinas (SP), onde a Nau terá um espaço de exposição e venda de livros durante os quatro dias do evento. Na semana seguinte, O corpo feito de olhares ganha novo lançamento no Rio de Janeiro, na terça-feira (25), às 17h, na Livraria EdUERJ (Rua São Francisco Xavier, 524, Maracanã).

Walter Benjamin e Michel Foucault © Divulgação
Walter Benjamin e Michel Foucault © Divulgação

Foucault e Benjamin são destaques no catálogo

Desde o início, o catálogo estabeleceu uma relação estreita com a produção acadêmica e intelectual brasileira, sobretudo no campo das humanidades, e em franco diálogo com o pensamento mundial. Essa parceria também se reflete na composição de seu Conselho Editorial, formado majoritariamente por pesquisadores e profissionais ligados a instituições como UFRJ, UFRRJ, UERJ, PUC-Rio, Fundação Casa de Rui Barbosa e Paço Imperial.

Um dos seus autores de peso é o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). Em 2009, a Nau publicou A verdade e as formas jurídicas, volume que reúne as cinco conferências realizadas pelo pensador, em maio de 1973, na PUC-Rio. Em 2015, foi a vez de publicar Michel Foucault no Brasil, volume resultante de um colóquio internacional realizado por ocasião dos 40 anos das conferências.

Outro nome de destaque no catálogo da editora é o filósofo, sociólogo, tradutor e crítico literário Walter Benjamin (1892-1940). Em fevereiro de 2025, ou seja, dez anos depois de publicado, o livro A hora das crianças, com tradução de Aldo Medeiros, chegou à Lista de Mais Vendidos do PublishNews. A obra é uma compilação de 29 textos produzidos a partir dos programas radiofônicos realizados pelo filósofo alemão entre 1927 e 1932. Todos esses títulos permanecem à venda.

Das humanidades para arte e literatura

Em 2008, Simone deixou a sociedade no Ateliê da Imagem, uma escola de fotografia que fez história na Urca, no Rio de Janeiro, para se dedicar integralmente à Nau. Foi quando ela, também professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, iniciou a ampliação da linha editorial da casa em direção aos livros de arte e fotografia, sua matéria-prima como artista visual. Entre os nomes que representam essa vertente está a fotógrafa Nana Moraes, autora de Andorinhas, publicado em 2011, e Ausência, de 2022, ambos pela Nau.

Arte, fotografia, cinema, curadoria e estética acabaram se consolidando como áreas permanentes do seu catálogo. “Não é fácil ter uma editora no Brasil, mas acredito nas ideias, nos valores, no ser humano. Essa é a nossa melhor utopia”, defende Simone. “O amor pelos livros me acompanha desde a infância. Conheci o mundo através da leitura e essa paixão nunca me deixou”, resume a irmã do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues. Os dois nasceram em Muriaé, Minas Gerais.

Outra expansão ocorreu em 2014, quando a editora criou a Série Deriva, primeira coleção dedicada à literatura. Naquele ano, o PublishNews noticiou a estreia da coleção com Para a próxima mágica vou precisar de asas, do escritor israelense Alex Epstein. O livro, que reúne 111 minicontos, marcou também a estreia do autor no Brasil e continua à venda. Em 2003, Epstein recebeu o Prêmio Primeiro Ministro de Literatura, em Israel.

A proposta era construir uma coleção literária sem percurso excessivamente rígido. Quatro anos depois, outro nome internacional reforçou esse braço do catálogo. Em 2018, a Nau publicou Todo dia, primeiro livro da escritora húngara radicada na Alemanha Terézia Mora traduzido para o português por Aldo Medeiros. Publicado originalmente na Alemanha em 2004, o romance acompanha Abel Nema, refugiado dos Bálcãs que tenta construir uma nova vida em uma metrópole europeia.

Terézia Mora já havia recebido o Prêmio da Feira do Livro de Leipzig, em 2005, e o Prêmio Alemão do Livro, em 2013. No mesmo ano em que Todo dia chegou ao Brasil, a escritora conquistou o Georg Büchner, principal prêmio literário da Alemanha, concedido pelo conjunto de sua obra. Por aqui o livro circulou com o carimbo da Nau. A literatura acabou definitivamente incorporada à atuação da Nau, sem deslocar as ciências humanas e as artes do centro de seu catálogo.

[18/08/2026 10:02:33]