Primeiro dia da Flin 2026 discute obras de Lélia Gonzalez e Heloísa Teixeira
PublishNews, Guilherme Sobota, 14/08/2026
Festa Literária Internacional de Niterói dá sinais positivos de crescimento: boa programação, apoio do poder público e mesas lotadas desde o primeiro dia

Reserva Cultural de Niterói recebe a 2ª edição da Flin até o domingo (16) | © Guilherme Sobota / PublishNews
Reserva Cultural de Niterói recebe a 2ª edição da Flin até o domingo (16) | © Guilherme Sobota / PublishNews

NITERÓI (RJ) — A 2ª edição da Festa Literária Internacional de Niterói (Flin) começou nesta quinta-feira (13) com sinais positivos de crescimento: boa programação, apoio do poder público (quem promove a Festa é a Prefeitura da cidade) e mesas lotadas desde o primeiro dia. Nomes como Miriam Leitão, Ana Maria Gonçalves, Jeferson Tenório, Cida Bento e Lilia Moritz Schwarcz atraíram milhares de pessoas da região para o Reserva Cultural, centro cultural da cidade que recebe a Flin com boa estrutura. Os destaques do primeiro dia de debates ficaram por conta das conversas em torno das temáticas tratadas por Lélia González (1935-1994), intelectual e ativista homenageada desta edição, e também para Heloísa Teixeira (1939-2025), ensaísta cuja morte completou um ano em março.

"Quero começar lembrando do reconhecimento que Lélia Gonzalez vem recebendo de maneira mais contundente, transformando-se no que ela sempre foi e no lugar que merece estar: no centro do pensamento social brasileiro", disse a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, na mesa de abertura, dentro da Sala Nelson Pereira dos Santos, auditório e teatro no centro cultural. "Uma mulher negra que nos ajudou e continua nos ajudando a pensar novas possibilidades de Brasil, tanto para o futuro quanto para o passado."

Ynaê mediou a mesa entre Ana Maria Gonçalves, imortal da Academia Brasileira de Letras (uma das apoiadoras da Festa), e Jeferson Tenório. "Conheci o trabalho da Lélia relativamente tarde", relatou Ana Maria. "Já tinha ouvido falar dela antes de escrever Um defeito de cor (2006), mas foi só depois que fui estudar sua obra a fundo e entender sua dimensão. Lélia está finalmente começando a receber o reconhecimento que merece, pois durante muito tempo não encontrou o eco devido na sociedade brasileira. Conceitos que discutimos há 10 ou 15 anos — como intersecionalidade e racismo estrutural — já eram analisados por Lélia décadas atrás. Ela estudava raça, classe e gênero, e como esses três marcadores se cruzavam para definir o lugar das pessoas negras, especialmente das mulheres negras, na sociedade. Quando fiz meu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, disse que entrava ali falando pretuguês. Foi um alvoroço imenso na imprensa. Esse questionamento parte de uma profunda ignorância sobre a formação da nossa língua. O que chamamos de português brasileiro é uma língua fusionada com as línguas africanas trazidas pelos escravizados. Quando dizemos zomba, bunda, zabumba, estamos usando esse léxico. Existe inclusive um livro maravilhoso chamado Português com Dendê. Todo brasileiro fala pretoguês devido à quantidade de palavras de origem africana no nosso cotidiano. Achar que isso é 'mimimi' ou 'pauta identitária' revela o quanto a sociedade ainda não amadureceu."

Para Jeferson Tenório, resgatar o pensamento de Lélia Gonzalez é uma forma de reparação intelectual. "Falamos muito em reparação histórica, mas precisamos falar também em reparação intelectual. O pensamento dela articula gênero, raça e economia, e serviu de embasamento teórico para que, mais tarde, conquistássemos políticas públicas essenciais, como as cotas raciais", disse — De onde eles vêm (Companhia das Letras), seu romance mais recente, é inserido neste contexto. "Não podemos separar o ativismo da produção intelectual. Essa base teórica nos dá consistência e força estética para produzirmos a literatura que fazemos hoje. Se não houvesse Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e tantas outras intelectuais, certamente não estaríamos ocupando esses espaços — ou pelo menos não na configuração que vocês veem hoje", disse, para aplausos do público.

Mais cedo, quem falou sobre o trabalho da colega foi Helena Theodoro, educadora, filósofa, pedagoga e escritora. "A Lélia era muito ativa do ponto de vista político. Eu fiquei fazendo uma luta mais na parte teórica, nas reflexões religiosas e dentro da academia — algo muito necessário, segundo os meus pais: transformar o pensamento também na universidade", disse a intelectual, com extensa formação acadêmica e atuação na Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Aqui contamos com a presença de Vilma Piedade [que estava na plateia], autora do conceito de dororidade, mostrando que novos conceitos precisam ser criados. A minha tese de doutorado foi justamente comparando a filosofia africana com a filosofia eurocentrada, e tudo pautado no trabalho com colegas. O problema básico no Brasil é a falta de reconhecimento da cidadania da comunidade negra. É muito importante estarmos aqui nesta feira elogiando Heloísa e Lélia Gonzalez, entendendo que o pensamento político que alimenta a comunidade brasileira é muito mais o pensamento africano do que o eurocentrado."

Helô Teixeira © Gustavo Malheiros
Helô Teixeira © Gustavo Malheiros

Uma das atrações da Flin nesta quinta-feira foi a exibição do documentário Helô, de Lula Buarque — o filme estreou no Festival do Rio em 2023, e hoje está disponível em plataformas de streaming (Globoplay e Prime Video). O documentário retrata não apenas a relação entre mãe e filho (Lula é o filho mais velho de Heloísa Teixeira) e a profunda afetividade com que ela se relacionava com a família, mas também recupera a trajetória intelectual da autora, com imagens de arquivo e histórias contadas pela própria.

Dividindo-se entre a produção intelectual e uma espécie particular de ativismo político, Heloísa Teixeira se tornou uma das intelectuais mais importantes da história recente no Brasil, embora ela mesma rejeite essa denominação no filme. Construído como um retrato pop de uma pensadora brasileira, o documentário é bem sucedido em justamente equilibrar diversas facetas de Heloísa.

"O projeto começou no contexto da pandemia", explica ao PublishNews Lula Buarque. "Minha mãe, que sempre teve problemas pulmonares, estava em isolamento em sua casa em Búzios — residência que aparece no documentário. Convidei Toca Seabra, um fotógrafo excepcional e grande amigo, para me acompanhar. Antes do fim da pandemia e da chegada da vacina, todos realizamos testes e formamos uma equipe de quatro pessoas, permanecendo uma semana em Búzios. Naquele momento, decidimos captar um material básico para viabilizar a produção. Com um aporte da RioFilmes, montei uma equipe com Isabel de Luca, cuja colaboração no roteiro foi fundamental para estruturar o material, e com a montadora Jordana Berg, uma profissional brilhante. A equipe e os roteiristas enfatizaram a importância de eu estar, pela primeira vez em um filme meu, do outro lado da câmera. A metalinguagem da cena em que discutimos o roteiro com minha mãe foi um recurso que funcionou muito bem, trazendo um lado afetivo e pessoal que equilibra a trajetória institucional e a grandeza intelectual dela — algo que, por vezes, é difícil de traduzir em um filme sobre uma figura pública."

Um dos motivos-chave do filme é a Academia Brasileira de Letras — Heloísa teve um papel central em levar mais mulheres à ABL, incluindo a primeira delas, Rachel de Queiroz. Falar mais do que isso é entregar spoilers do filme.

A exibição também motivou conversas sobre o novíssimo Instituto Heloísa Teixeira, que vem aos poucos começando suas atividades, com a pesquisadora Ana Beatriz Vieira à frente. "A gente vinha desde 2019 trabalhando nessa pauta do instituto", explicou ela à reportagem, na Flin. "Eu trocava muito com ela, como na Universidade das Quebradas [projeto que Heloísa diz no filme ter sido o maior de sua vida], e nos dois últimos anos de sua vida a gente vinha conversando sobre a estruturação do instituto. Infelizmente, ela partiu antes de assinar o estatuto. "Em breve vamos anunciar nossos projetos, mas num primeiro momento já estamos trabalhando com o acervo e a biblioteca dela."

Atualmente, o Instituto encontra-se em estágio inicial: "estamos organizando sua biblioteca e gerenciando os convites recebidos", conta Lula Buarque. "Paralelamente, desenvolvemos projetos de maior envergadura, com a expectativa de lançá-los dentro de um ano, de modo que reflitam fielmente a visão de sua obra. Estamos em fase de incubação". E concluiu: "Aprecio o reconhecimento da cidade de Niterói ao resgatar essa discussão. A obra da Heloísa foi concebida para ser constantemente repensada e ressignificada, permitindo a absorção de novas questões e desafios contemporâneos. Estamos nos estruturando com o propósito de difundir e oferecer suporte a essas ideias."

A Flin continua até o domingo (16). Clique aqui para ver a programação completa.


*O jornalista viajou a convite da Festa Literária Internacional de Niterói.

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[14/08/2026 11:01:46]