
Os encontros para falar sobre o livro começam no sábado, 9 de maio, às 11h, na Tapera Taperá (Av. São Luiz, 187, 2º andar, loja 29 – Galeria Metrópole, na República), em São Paulo; seguem na terça-feira, dia 12, às 18h30, na Telaranha Livraria & Café (Rua Ébano Pereira, 269, Centro), em Curitiba; e chegam ao Rio de Janeiro na segunda-feira, 1º de junho, às 19h, na Livraria da Travessa (Rua Voluntários da Pátria, 97, em Botafogo). Marcela estará presente em todos, dividindo a mesa com tradutoras, pesquisadoras e profissionais do campo editorial em conversas sobre dramaturgia, tradução e circulação de obras historicamente marginalizadas.
Marcela Manius conta ao PublishNews que descobriu Zelda em 2011, quando ainda era aluna da graduação em Letras na PUC-Rio. "Em determinado momento, chegou a vez de ler um conto do seu marido, e descobri a existência de Zelda. Ao longo de cinco anos fui lentamente reunindo dados e materiais sobre a vida e a obra dela. Comecei pela biografia escrita por Nancy Milford na década de 1970, ainda hoje considerada um marco dentro dos estudos biográficos da crítica feminista; passei pelo romance que Zelda escreveu, Esta valsa é minha, publicado pela Companhia das Letras na década de 1980, com paratexto de Caio Fernando Abreu; e, por fim, encontrei o The Collected Writings of Zelda Fitzgerald, coletânea lançada nos EUA em 1991 que reúne, como o título sugere, os escritos da autora. Foi ali que encontrei Scandalabra", rebobina.
O texto era um pouco desacreditado, mas Marcela enxergou ouro embaixo da poeira e escreveu um projeto de doutorado com o objetivo de analisar a peça mais amiúde. "Dentro dos estudos fizgeraldianos, é quase lugar-comum dizer que é uma peça ruim. No entanto, minha própria experiência de leitura sempre foi outra: eu acreditava ser uma peça com diversos momentos cômicos, recursos cênicos altamente inventivos e, até onde eu conseguia entender, um texto mais ou menos inacabado. Dada a pouca visibilidade que a obra artística de Zelda historicamente sempre recebeu dentro da crítica especializada, eu achava uma pena que sua única incursão na dramaturgia fosse categorizada de modo tão negativo e queria entender o que é que Scandalabra tinha, em termos de técnica e experimentação, para assim poder montar um panorama mais completo da produção artística da autora", lembra Marcela.

Marcela diz que "o universo de Scandalabra é uma versão exagerada, levada às últimas consequências, do mundo que a própria autora testemunhou durante a década de 1920: um momento histórico de consolidação dos tabloides, que anda de braços dados com o nascimento daquilo que hoje entendemos como a cultura de celebridades. A mídia impressa da época era, pela primeira vez, altamente visual e intensamente fabricada para ser 'intimista': a própria Zelda e o marido, por exemplo, eram presenças constantes em jornais e colunas de fofoca, por muitas vezes exagerando e negociando suas personas públicas". A tradutora conta que viu no texto centenário a nossa realidade de agora, tão pautada por algoritmos, curtidas e visualizações.
Depois de quatro anos de estudos, o livro está pronto para encontrar os seus leitores. Marcela diz que um dos maiores desafios dessa tradução foi acertar o tom dos diálogos, usando o vocabulário da época. Os arquivos da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional foram fundamentais. "Passei horas folheando os números de revistas como a Fon-Fon e jornais em grande circulação na primeira metade do século XX, buscando um palavras e expressões que ajudassem a firmar a peça nas décadas de 1920/1930. Além disso, eu também tinha a preocupação de manter o tom coloquial dentro da página, mas sem usar formatos de fala que são muito atuais — afinal, um espaço de quase cem anos nos separa da peça", recorda ao PN.
Além da tradução, o livro reúne prefácio que contextualiza o processo de escrita e circulação da peça, notas sobre escolhas tradutórias e referências culturais, fichas técnicas da montagem original, sugestões de leitura, retratos de Zelda e posfácio de Emanuela Siqueira, que examina o texto a partir dos Estudos Feministas da Tradução. A publicação também marca a primeira incursão da Temporal Editora em obras bilíngues, com o texto original em inglês apresentado ao lado da tradução em português.
É bom ver mais uma escritora sair da sombra de seu célebre marido, mesmo que apenas um século depois.






