Edição inédita da peça de Zelda Fitzgerald chega aos leitores brasileiros
PublishNews, Monica Ramalho, 30/04/2026
Temporal Editora publica texto de 1933, em versão bilíngue e crítica, encontrado por Marcela Lanius em uma biblioteca americana

Marcela Lanius e a capa do livro © Divulgação
Marcela Lanius e a capa do livro © Divulgação
Com agenda de lançamentos em três capitais brasileiras, a Temporal Editora coloca nas prateleiras, a partir de maio, Scandalabra, única peça de teatro finalizada por Zelda Sayre Fitzgerald (1900-1948), cujo talento de dramaturga foi ofuscado pela carreira do marido, F. Scott Fitzgerald (1896-1940), autor de clássicos como O grande Gatsby. A edição chega ao país com tradução, pesquisa e aparato crítico de Marcela Lanius, responsável por recuperar o texto datilografado no acervo da biblioteca da Princeton University, nos EUA, traduzir e batalhar pela sua publicação no Brasil.

Os encontros para falar sobre o livro começam no sábado, 9 de maio, às 11h, na Tapera Taperá (Av. São Luiz, 187, 2º andar, loja 29 – Galeria Metrópole, na República), em São Paulo; seguem na terça-feira, dia 12, às 18h30, na Telaranha Livraria & Café (Rua Ébano Pereira, 269, Centro), em Curitiba; e chegam ao Rio de Janeiro na segunda-feira, 1º de junho, às 19h, na Livraria da Travessa (Rua Voluntários da Pátria, 97, em Botafogo). Marcela estará presente em todos, dividindo a mesa com tradutoras, pesquisadoras e profissionais do campo editorial em conversas sobre dramaturgia, tradução e circulação de obras historicamente marginalizadas.

Marcela Manius conta ao PublishNews que descobriu Zelda em 2011, quando ainda era aluna da graduação em Letras na PUC-Rio. "Em determinado momento, chegou a vez de ler um conto do seu marido, e descobri a existência de Zelda. Ao longo de cinco anos fui lentamente reunindo dados e materiais sobre a vida e a obra dela. Comecei pela biografia escrita por Nancy Milford na década de 1970, ainda hoje considerada um marco dentro dos estudos biográficos da crítica feminista; passei pelo romance que Zelda escreveu, Esta valsa é minha, publicado pela Companhia das Letras na década de 1980, com paratexto de Caio Fernando Abreu; e, por fim, encontrei o The Collected Writings of Zelda Fitzgerald, coletânea lançada nos EUA em 1991 que reúne, como o título sugere, os escritos da autora. Foi ali que encontrei Scandalabra", rebobina.

O texto era um pouco desacreditado, mas Marcela enxergou ouro embaixo da poeira e escreveu um projeto de doutorado com o objetivo de analisar a peça mais amiúde. "Dentro dos estudos fizgeraldianos, é quase lugar-comum dizer que é uma peça ruim. No entanto, minha própria experiência de leitura sempre foi outra: eu acreditava ser uma peça com diversos momentos cômicos, recursos cênicos altamente inventivos e, até onde eu conseguia entender, um texto mais ou menos inacabado. Dada a pouca visibilidade que a obra artística de Zelda historicamente sempre recebeu dentro da crítica especializada, eu achava uma pena que sua única incursão na dramaturgia fosse categorizada de modo tão negativo e queria entender o que é que Scandalabra tinha, em termos de técnica e experimentação, para assim poder montar um panorama mais completo da produção artística da autora", lembra Marcela.

Zelda Fitzgerald em 1919 © Acervo da Princeton University Library
Zelda Fitzgerald em 1919 © Acervo da Princeton University Library
Escrita em 1933 e encenada no mesmo ano em Baltimore (EUA), a peça satiriza os códigos sociais da Nova York dos anos 1920. Em chave de comédia de equívocos, dialoga diretamente com Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare, ao conduzir o universo do fantástico para uma engrenagem de intrigas movida por dinheiro, álcool e exposição pública. Dois casais — André e Flora, obrigados a performar uma vida libertina para garantir uma herança, e Pedro e Ana, arrastados para o mal-entendido — estão no centro da narrativa.

Marcela diz que "o universo de Scandalabra é uma versão exagerada, levada às últimas consequências, do mundo que a própria autora testemunhou durante a década de 1920: um momento histórico de consolidação dos tabloides, que anda de braços dados com o nascimento daquilo que hoje entendemos como a cultura de celebridades. A mídia impressa da época era, pela primeira vez, altamente visual e intensamente fabricada para ser 'intimista': a própria Zelda e o marido, por exemplo, eram presenças constantes em jornais e colunas de fofoca, por muitas vezes exagerando e negociando suas personas públicas". A tradutora conta que viu no texto centenário a nossa realidade de agora, tão pautada por algoritmos, curtidas e visualizações.

Depois de quatro anos de estudos, o livro está pronto para encontrar os seus leitores. Marcela diz que um dos maiores desafios dessa tradução foi acertar o tom dos diálogos, usando o vocabulário da época. Os arquivos da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional foram fundamentais. "Passei horas folheando os números de revistas como a Fon-Fon e jornais em grande circulação na primeira metade do século XX, buscando um palavras e expressões que ajudassem a firmar a peça nas décadas de 1920/1930. Além disso, eu também tinha a preocupação de manter o tom coloquial dentro da página, mas sem usar formatos de fala que são muito atuais — afinal, um espaço de quase cem anos nos separa da peça", recorda ao PN.

Além da tradução, o livro reúne prefácio que contextualiza o processo de escrita e circulação da peça, notas sobre escolhas tradutórias e referências culturais, fichas técnicas da montagem original, sugestões de leitura, retratos de Zelda e posfácio de Emanuela Siqueira, que examina o texto a partir dos Estudos Feministas da Tradução. A publicação também marca a primeira incursão da Temporal Editora em obras bilíngues, com o texto original em inglês apresentado ao lado da tradução em português.

É bom ver mais uma escritora sair da sombra de seu célebre marido, mesmo que apenas um século depois.

[30/04/2026 11:13:40]