
A antropóloga Natália Helou Fazzioni vai lançar o livro Arranjos de cuidado: saúde e cotidiano em uma favela carioca (Papéis Selvagens) para leitores cariocas. Será na quinta-feira, 14 de maio, às 18h30, na Livraria Alento (Rua Senador Vergueiro, 80 - Loja A, no Flamengo — Rio de Janeiro / RJ). O livro investiga como se constroem as práticas cotidianas de cuidado no Complexo do Alemão, conjunto de favelas localizado na Zona Norte da cidade. Resultado de uma pesquisa etnográfica, o texto desloca o foco da violência para as estratégias que sustentam a vida em contextos marcados por desigualdade.
“Comecei a pesquisa interessada em pensar sobre os impactos da violência armada na saúde dos moradores, mas acabei me deparando com o grande desafio que é cuidar em meio não só a violência armada, mas a outras inúmeras dificuldades. Sustentar o cuidado e a saúde nesse contexto implica em olhar para o cotidiano e todas as suas minúcias. É isso que o livro busca mostrar, ao tentar falar da vida em uma favela não apenas pela lente da violência — enquadramento sempre presente ao olhar para esses espaços —, mas pelo cuidado que é o que permite sua existência e resistência”, conta a professora e pesquisadora em Saúde Pública no Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, ao PublishNews.
Dividido em duas partes, o livro (feito com financiamento da Faperj por meio do Auxílio Editoração) parte da reconstrução histórica das políticas públicas de saúde no território, desde os anos 1980, articulando essas iniciativas ao discurso da “violência urbana”. Em seguida, a doutora em Antropologia Cultural pela UFRJ e pós-doutora pelo PAGU, da Unicamp avança para o cotidiano de uma unidade de Atenção Primária à Saúde, acompanhando, entre 2015 e 2017, as relações entre profissionais e moradores.
O conceito de “arranjos de cuidado” orienta a análise ao evidenciar tanto as limitações estruturais de acesso à saúde quanto as estratégias criadas no dia a dia para sustentar a vida. Em diálogo com teorias feministas, a autora antecipa discussões que ganharam centralidade durante a pandemia iniciada em 2020, ao tratar o cuidado como prática coletiva e condição fundamental da vida social.
A pesquisa também aponta para a sobreposição entre políticas públicas e iniciativas comunitárias. Se o fortalecimento do SUS e da Atenção Primária se mostra essencial, a organização autônoma dos moradores aparece como elemento decisivo para a manutenção das condições de saúde no território. "É o que, na prática, sustenta as possibilidades de ter saúde naquele território. Estado e comunidade não são alternativas: são camadas que se sobrepõem, tensionam e, às vezes, se sustentam mutuamente", pondera a antropóloga.
Mais do que descrever essa realidade de fora, Arranjos de cuidado a conhece de dentro. Natália propõe, junto com as pessoas que ali vivem e trabalham, formas de compreender como se habita o mundo e como se sustenta a vida em condições adversas. Uma obra que devolve protagonismo e complexidade a quem, todos os dias, cuida e é cuidado no Complexo do Alemão.






