
Lançado no mercado em há pouco mais de três anos, a HQ Boy dodói, publicado pela Bebel Books, tem ganhado projeção por conta de sua capacidade de dialogar com o público sobre masculinidade tóxica. Dados recentes divulgados pela Rede de Observatórios de Segurança relatam uma escalada preocupante no aumento da violência contra mulheres em 2025 nos nove estados monitorados pela pesquisa (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ, SP). Os números registram um aumento de 9% no número de mulheres vitimadas em comparação com 2024 (4.558 mulheres neste estudo), estimando que, a cada 24h, 12 mulheres são vítimas de violência. Outro dado preocupante é o de aumento de casos de estupro ou violência sexual, que cresceram 56,6% (chegando a 961 casos). Dessas, mais de 50% correspondem a crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos.
Nos últimos anos, Boy dodói tem sido usada como fonte e material de apoio em estudos educacionais e de assistência social, políticas apontadas como fundamentais como ferramenta para identificar comportamentos violentos e diminuir índices de reincidência destes. Criado em colaboração entre a editora Bebel Abreu e as jornalistas e quadrinistas Carol Ito e Helô D'Angelo, a obra teve financiamento coletivo de 1.492 pessoas pela plataforma do Catarse e uma tiragem inicial de sete mil unidades.
Depois de receber 307 histórias sobre masculinidade tóxica, as organizadoras selecionaram as 11 narrativas mais marcantes e, a partir daí, convocaram nove artistas que tornariam aqueles depoimentos histórias em quadrinhos. Boy dodói foi condecorado no “Oscar dos quadrinhos” brasileiro, o HQ Mix, na edição de 2024. A obra também foi publicada na Alemanha, em 2024, pela editora Alibri, e foi eleito o livro do mês da revista feminista Geschlechter Sensible Paedagogik, também do país europeu. Em 2026, receberá duas histórias extras — e locais — em sua publicação nas Filipinas, pela editora Komiket.
"Queríamos, nesta edição inicial, histórias de mulheres e pessoas não-binárias que se relacionam com homens cis", afirma Bebel Abreu, editora da Bebel Books, que faz questão de colocar os agressores não como monstros, mas como homens "doente de patriarcado". Ao PublishNews, ela antecipa os planos da editora para uma nova publicação chamada Como criar meninos maneiros, com o intuito de oferecer um conteúdo focado na criação de repertório positivo para jovens em seus relacionamentos pessoais.
O destaque do livro
Já em seu título, Boy dodói chama a atenção pela familiaridade e o humor presentes nos termos Boy e dodói. A editora conta que a ideia do título apareceu quase como uma epifania, enquanto descrevia, para suas amigas Helô e Carol, um homem com quem se relacionava na época, como um cara “dodói”. Na ocasião, assim que contou seu causo, uma das amigas disse: “Isso dá um título”.


A projeção do livro Boy dodói o levou a ser usado como material da apoio de uma pesquisa educacional realizada em uma escola pública periférica, no município de Tubarão, em Santa Catarina. Após a coleta de dados de mais de mil alunos participantes, pesquisadores fizeram comparações com histórias do livro e fizeram os participantes reagirem a elas. O resultado está neste link.

“Há nos quadrinhos ferramentas para trazer reflexão e criticidade à discussão de temas importantes, como Boy dodói. Há uma aproximação com o aluno pelo interesse dele pelo gênero, que hoje em dia também palco para discussões de temáticas importantes”, coloca a educadora.
Força comunicacional própria do gênero
Há uma tradição de quadrinhos que retratam aspectos do cotidiano e grandes acontecimentos do mundo. A capacidade do formato de comunicar temas fez com que tiras de Mafalda e Turma da Mônica, por exemplo, atravessassem a barreira do tempo e permanecessem relevantes em debates contemporâneos — e naqueles ainda pertinentes há décadas.
Essa força é explorada por meio da própria estrutura composicional do gênero quadrinho, na qual os quadros conseguem criar humor a partir de recursos como ironia e quebra de expectativa.
Mestra em Educação também pela UFJF, Irene de Oliveira Ribeiro se dedica ao estudo das histórias em quadrinhos como ferramenta pedagógica. Ela argumenta que o quadrinho permite a expressão de sentimentos a partir de narrativas de vivências, capazes de situar um aluno politicamente e culturalmente.
A partir de sua experiência nas escolas públicas, Irene afirma que é vital reconhecer as histórias em quadrinhos no processo de formação de leitores, ao mesmo tempo em que eles são os primeiros ou até mesmo alguns dos únicos contatos que pessoas têm com literatura. “A gente consegue observar isso pelo universo do Mauricio de Sousa, que mesmo aquele aluno que não leu consegue, em certa medida, saber quem é a Mônica e quem faz parte da turma da Mônica”, afirma a mestre da UFJF.

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