HQ é usada como ferramenta pedagógica no combate à masculinidade tóxica
PublishNews, Beatriz Sardinha, 10/03/2026
'Boy dodói' foi publicado em 2023 e mostra os impactos negativos do patriarcado dentro de relações com homens cisgênero

Lançado no mercado em há pouco mais de três anos, a HQ Boy dodói, publicado pela Bebel Books, tem ganhado projeção por conta de sua capacidade de dialogar com o público sobre masculinidade tóxica. Dados recentes divulgados pela Rede de Observatórios de Segurança relatam uma escalada preocupante no aumento da violência contra mulheres em 2025 nos nove estados monitorados pela pesquisa (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ, SP). Os números registram um aumento de 9% no número de mulheres vitimadas em comparação com 2024 (4.558 mulheres neste estudo), estimando que, a cada 24h, 12 mulheres são vítimas de violência. Outro dado preocupante é o de aumento de casos de estupro ou violência sexual, que cresceram 56,6% (chegando a 961 casos). Dessas, mais de 50% correspondem a crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos.

Nos últimos anos, Boy dodói tem sido usada como fonte e material de apoio em estudos educacionais e de assistência social, políticas apontadas como fundamentais como ferramenta para identificar comportamentos violentos e diminuir índices de reincidência destes. Criado em colaboração entre a editora Bebel Abreu e as jornalistas e quadrinistas Carol Ito e Helô D'Angelo, a obra teve financiamento coletivo de 1.492 pessoas pela plataforma do Catarse e uma tiragem inicial de sete mil unidades.

Depois de receber 307 histórias sobre masculinidade tóxica, as organizadoras selecionaram as 11 narrativas mais marcantes e, a partir daí, convocaram nove artistas que tornariam aqueles depoimentos histórias em quadrinhos. Boy dodói foi condecorado no “Oscar dos quadrinhos” brasileiro, o HQ Mix, na edição de 2024. A obra também foi publicada na Alemanha, em 2024, pela editora Alibri, e foi eleito o livro do mês da revista feminista Geschlechter Sensible Paedagogik, também do país europeu. Em 2026, receberá duas histórias extras — e locais — em sua publicação nas Filipinas, pela editora Komiket.

"Queríamos, nesta edição inicial, histórias de mulheres e pessoas não-binárias que se relacionam com homens cis", afirma Bebel Abreu, editora da Bebel Books, que faz questão de colocar os agressores não como monstros, mas como homens "doente de patriarcado". Ao PublishNews, ela antecipa os planos da editora para uma nova publicação chamada Como criar meninos maneiros, com o intuito de oferecer um conteúdo focado na criação de repertório positivo para jovens em seus relacionamentos pessoais.

O destaque do livro

Já em seu título, Boy dodói chama a atenção pela familiaridade e o humor presentes nos termos Boy e dodói. A editora conta que a ideia do título apareceu quase como uma epifania, enquanto descrevia, para suas amigas Helô e Carol, um homem com quem se relacionava na época, como um cara “dodói”. Na ocasião, assim que contou seu causo, uma das amigas disse: “Isso dá um título”.

Arte da postagem da convocatória realizada pela editora | © Reprodução Instagram
Arte da postagem da convocatória realizada pela editora | © Reprodução Instagram
Nara Bretas Lage é professora na Universidade Estadual de Minas Gerais e Boy dodói foi seu objeto de estudo para uma comunicação no 34º. Encontro Anual da Compós, realizado em Curitiba (PR) em 2024. Com o título "BOY DODÓI: as narrativas de mulheres em quadrinhos digitais e a representação da masculinidade hegemônica", saiu como artigo nos anais do evento. Assinado em conjunto com Marco Túlio Pena Câmara, o artigo identifica o uso de termos atuais pelas autoras e o sucesso da edição em conectar histórias com um fio condutor com o qual muitas pessoas conseguem se identificar. "Todo mundo que se relaciona com homens vai se identificar em alguma daquelas situações ou vai perceber alguém que já passou por elas. E elas fizeram isso justamente porque é um tema importante, um tema pesado".

Nara Bretas Lage | © Reprodução Instagram
Nara Bretas Lage | © Reprodução Instagram
Aqui no Brasil, a obra vem sendo utilizada por psicólogos em consultórios particulares e também em grupos de atendimento a pessoas que respondem a processos relacionados à Lei nº 11.340/2006, mais conhecida como Lei Maria da Penha, no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Cajamar, em São Paulo, de acordo com a editora. Segundo relatos, a atividade em conjunto auxiliava usuários do centro a se identificarem com personagens retratados como agressores, e também com as vítimas de violência.

A projeção do livro Boy dodói o levou a ser usado como material da apoio de uma pesquisa educacional realizada em uma escola pública periférica, no município de Tubarão, em Santa Catarina. Após a coleta de dados de mais de mil alunos participantes, pesquisadores fizeram comparações com histórias do livro e fizeram os participantes reagirem a elas. O resultado está neste link.

Reprodução de tirinha de 'Boy dodói' replicada no estudo realizado em Tubarão / SC | © Reprodução
Reprodução de tirinha de 'Boy dodói' replicada no estudo realizado em Tubarão / SC | © Reprodução
O contexto de forte engajamento em torno da obra pode ser justificado pela "leveza" característica do formato dos quadrinhos, uma importante aliada na popularização de títulos como Boy dodói, cujos temas são classificados como sensíveis. Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Rafaela Aparecida Medeiros de Almeida destaca a força da junção entre o formato quadrinho — e sua informalidade — e a construção coletiva das histórias e de seus significados, enquanto reflexões de experiências sociais diversas.

“Há nos quadrinhos ferramentas para trazer reflexão e criticidade à discussão de temas importantes, como Boy dodói. Há uma aproximação com o aluno pelo interesse dele pelo gênero, que hoje em dia também palco para discussões de temáticas importantes”, coloca a educadora.

Força comunicacional própria do gênero

Há uma tradição de quadrinhos que retratam aspectos do cotidiano e grandes acontecimentos do mundo. A capacidade do formato de comunicar temas fez com que tiras de Mafalda e Turma da Mônica, por exemplo, atravessassem a barreira do tempo e permanecessem relevantes em debates contemporâneos — e naqueles ainda pertinentes há décadas.

Essa força é explorada por meio da própria estrutura composicional do gênero quadrinho, na qual os quadros conseguem criar humor a partir de recursos como ironia e quebra de expectativa.

Mestra em Educação também pela UFJF, Irene de Oliveira Ribeiro se dedica ao estudo das histórias em quadrinhos como ferramenta pedagógica. Ela argumenta que o quadrinho permite a expressão de sentimentos a partir de narrativas de vivências, capazes de situar um aluno politicamente e culturalmente.

A partir de sua experiência nas escolas públicas, Irene afirma que é vital reconhecer as histórias em quadrinhos no processo de formação de leitores, ao mesmo tempo em que eles são os primeiros ou até mesmo alguns dos únicos contatos que pessoas têm com literatura. “A gente consegue observar isso pelo universo do Mauricio de Sousa, que mesmo aquele aluno que não leu consegue, em certa medida, saber quem é a Mônica e quem faz parte da turma da Mônica”, afirma a mestre da UFJF.

No caso de Boy dodói, a grande chamada coletiva torna a publicação como uma iniciativa feminista bem-sucedida. “Acredito que essa história, justamente por estar em quadrinhos, chega a mais pessoas e lugares do que um manifesto”, comenta Bebel. Ela enxerga que a obra abriu uma espécie de “espaço de escuta”, partindo da convocação popular para as mais de 1,4 mil pessoas participantes do financiamento coletivo — além das discussões em espaços coletivos nos quais o livro tem sido utilizado.


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