
Nesses três anos de atuação, a Peabiru lançou 32 títulos (a maioria, escrito por autoras) que fazem jus ao seu nome, já que os peabirus eram caminhos abertos pelos povos indígenas na América do Sul antes da chegada dos colonizadores de Portugal e da Espanha, ligando a Cordilheira dos Andes, território dos Incas, ao litoral do Oceano Atlântico, passando por Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru. Assim, a editora atuou no intercâmbio entre essas literaturas.
As finanças da editora não minguaram por falta de empenho, nem por criar uma estrutura grande, difícil de sustentar, longe disso. A editora era tocada apenas pelo editor, com colaboradores por projeto. Teve mais a ver com os desafios enfrentados no mercado brasileiro por editoras de pequeno porte. “Tentamos caminhos diversos, desde colaborações com criadores de conteúdo até ajustes na linha de publicação, mas havia obstáculos que iam além da nossa capacidade. E é preciso reconhecer o tamanho das forças em jogo”, comenta Réne.
A identidade própria da Peabiru também ficou visível no aspecto social. Os seus livros eram taxados um pouco abaixo do preço comum. De propósito. O editor destaca que nunca considerou a hipótese de fusão ou venda da casa justamente porque, além de não ter sido procurado por uma editora maior, acreditava na singularidade da editora. “Foi uma experiência única, que teve valor no que representou como proposta diferenciada. E me parece que nenhuma editora deixaria de ser o que é para se tornar um pouco a Peabiru. Não se tratava apenas de publicar livros, mas de defender uma forma de olhar para a literatura e para o leitor”, analisa René.
Ele reconhece que o investimento pessoal foi grande e sem retorno financeiro. “Tudo o que acumulei em 20 anos de sala de aula como professor foi colocado na editora. Houve muito aprendizado, mas não houve lucro. O saldo foi de experiências, de vínculos criados, e de ver livros circulando em escolas, bibliotecas e entre leitores que talvez não tivessem acesso a essas obras de outra forma”. Parte do estoque está sendo vendida a preços simbólicos pela Internet e outra parte será destinada a doações, já combinadas.
Enquanto a casa editorial se despede, René diz que não se arrepende do percurso do seu sonho. “Se pudesse voltar atrás, faria o mesmo caminho, talvez com mais consciência dos desafios e um posicionamento ainda mais ostensivo a respeito dos valores que sempre defendemos. A Peabiru foi, acima de tudo, um gesto de acreditar na literatura como transformação”.