Considerando que para os cristãos o Natal lembra o nascimento de Jesus Cristo, pode-se considerar que fomos inspirados pelos três reis magos que levaram seus melhores presentes para o menino Jesus.
Continuo minha pesquisa e vejo que o hábito de presentear vem bem antes de Cristo. De acordo com os antropólogos norte-americanos Ralph e Adelin Linton, em sua obra The Lore of Birthdays, aniversários merecem comemorações desde o Egito antigo (por volta de 3000 a.C) e só os faraós tinham essa honra. Os gregos adotaram deles a prática elitista e passaram a festejar mensalmente o aniversário dos deuses. Com o tempo, o costume foi se estendendo para os plebeus. Os romanos copiaram a ideia e a comemoração entrou para o calendário anual deles. Os festejos eram chamados Dies natalis, mas destinavam-se apenas ao imperador, sua família e aos membros do Senado Romano. Nos primórdios do Cristianismo, o costume foi abolido. Os cristãos, perseguidos, achavam que não havia motivo nenhum para festejar o nascimento. Foi só no século IV que a Igreja começou a celebrar o nascimento de Cristo, ressurgindo o hábito de se festejar aniversários com bolo, música e presentes.
O que não é do meu conhecimento é se algum antropólogo já analisou porque as pessoas resistem em presentear com livros. A segunda edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, promovida pelo Instituto Pró-Livro, revelou que 85% dos entrevistados não leitores, nunca foram presenteados com livros. É como se tivessem tirado dessas pessoas a oportunidade de sonhar, de viajar em mundos desconhecidos, em terras nunca visitadas.
O comentário de Clarice Lispector ilustra bem os efeitos da boa leitura sobre as pessoas: “Guimarães Rosa me disse uma coisa que jamais esquecerei, tão feliz me senti na hora. Disse que me lia não para a literatura, mas para a vida".
Ao longo dos séculos e até hoje vários pensadores, filósofos e formadores de opinião expressam sua ligação, seu amor e sua dependência da leitura. “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”, falou o escritor e ensaísta argentino Jorge Luiz Borges. Já Bill Gates, o pai da tecnologia acessível a todos, comentou: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história.”
Cabe a nós dar o primeiro passo. Independente se foram os egípicios, os romanos ou os cristãos que começaram com o hábito de comemorar e de presentear, se percebe que uma coisa é unânime: se doava o que era de mais precioso. E não há tesouro maior do que levar cultura às pessoas, de ensinar-lhes a ter prazer de viajar enquanto se lê, e a ver o mundo de novas maneiras. No momento em que só se fala em e-book, cabe dizer que o livro em qualquer formato, papel ou digital, tem efeitos especiais muito mais avançados do que os filmes de Hollywood, já que durante a leitura usamos a mais alta tecnologia de ponta: a nossa imaginação.
Que neste natal possamos ousar presentear com livros e que eles gerem muito assunto para debater e discutir tornando as relações familiares e pessoais cada vez mais fortes. Faço minhas as palavras do escritor inglês Joseph Addison: “A leitura é para o intelecto o que o exercício é para o corpo”. Feliz Natal.
*Sônia Jardim é presidente do Instituto Pró-Livro






