Idealizado pela professora Guiomar de Grammond e realizado por ela na raça há seis anos, o Fórum das Letras comemorou o aumento de público nesta edição. Segundo a organização, o evento recebeu cerca de 30 mil pessoas entre os dias 10 e 15 de novembro, 50% a mais do que em 2009. Com um orçamento modesto de R$ 600 mil, Guiomar conseguiu trazer bons nomes da literatura africana de língua portuguesa ao Brasil e promoveu seis dias de boas conversas. Para ela, o Fórum chegou ao seu formato ideal e segue com seu objetivo de oferecer atrações gratuitas a toda a população. Para torná-lo ainda mais conhecido, a curadora pretende fazer mini fóruns em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. E isso já vai começar a aquecer para a edição de 2011, que deve ter a literatura latino-americana como tema. Sonho dourado de autor? Isabel Allende, Vargas Llosa e Gabriel García Márquez.
Qual é o balanço desta edição?
Estou muito feliz. Senti que alcançamos o que era o nosso ideal - reduzir esses abismos e essa hierarquia entre o autor que está falando e o público. Alcançamos esse objetivo também pela definição melhor dos espaços, e agora está perfeito. Conseguimos o formato que sempre desejamos. Todos os eventos foram gratuitos, livres, sem nenhuma forma de interdição da palavra e de inibição. Estamos consolidando este fórum como um evento da liberdade e um evento onde a língua portuguesa e, sobretudo, a literatura brasileira são soberanas. Por mais que se queira continuar com o objetivo de interagir com outras culturas, devemos pensar sempre que o objetivo de um evento realizado no Brasil é a formação de leitores, é tornar os escritores brasileiros mais conhecidos no país e no mundo, e propiciar o encontro do público com ele e com suas obras.
O Fórum das Letras se pretende um evento local ou nacional?
Ele já se tornou um evento de relevância nacional e agora, cada vez mais internacional, por essa interação com esses países de língua portuguesa, como Portugal e África. Eu queria ampliar isso para a América Latina também.
Interagir levando autores ou público? Como chamar a atenção de gente de fora de Ouro Preto?
Autores e público. Na medida em que você começa a trazer autores importantes e interessantes você atrai público de outros países. Pretendo fazer módulos em outros lugares da mesma forma que realizamos o Letras em Lisboa. Eu gostaria de fazer em São Paulo e no Rio e continuar com essa experiência e ampliar para outros países também. Esperamos ter apoio do governo brasileiro.
Isso é o Fórum das Letras saindo de Ouro Preto e indo para outros lugares. Como torná-lo um evento mais atrativo para o público de fora da região? Há interesse nisso?
Sim, e a forma de realizar isso será investindo em publicações. Assim como já realizamos de uma forma muito feliz o Suplemento Literário sobre o Fórum das Letras, eu gostaria que o conteúdo do fórum se tornasse um livro. Através dessas publicações e da potencialização das nossas discussões pela internet, espero ampliar a fruição do fórum para muitos outros lugares.
O Fórum das Letrinhas foi inspirado em algum outro evento?
O Fórum das Letrinhas já existia antes dele se chamar Fórum das Letrinhas. Ele começou como um esforço educativo de monitores da UFOP que tinham diversos projetos com interface com a literatura e projetos de formação de leitores que acontecem nos asilos, no orfanato, nas escolas públicas e bibliotecas. E a gente se inspira muito em outros eventos, sobretudo na Jornada de Passo Fundo, que é uma grande referência para o Fórum das Letras. Estamos sempre estudando novas experiências que acontecem no Brasil, as experiências reunidas pelo PNLL, que são muito importantes para nos mostrar como melhorar e para pensar novas ideias. O que falta no Brasil é colocar em diálogo essas experiências e esses eventos, sem espírito de concorrência. O Fórum das Letras é a culminância de trabalhos que são desenvolvidos nas escolas durante o ano todo.
Alguma ideia para o ano que vem? Você continua na curadoria?
Eu sempre termino o fórum falando em férias, mas eu descanso e volto. Eu queria no ano que vem tematizar, talvez, o Mercosul, nos aproximar dos países latinos.
Algum convidado dos sonhos?
Sempre temos sonhos dourados. Isabel Allende, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa...
Você tem ajuda das editoras? Precisa de mais ajuda?
Preciso de mais ajuda e espero um envolvimento maior com o evento. Contamos com muito apoio do Grupo Record desde o início e da Companhia das Letras mais recentemente. Precisamos das editoras para contactar os autores, para que eles percebam o Fórum das Letras como um evento que merece ter a visita de autores importantes.
Este ano o Fórum das Letras foi realizado próximo ao Seminário de Professores de Língua Portuguesa. Foi uma feliz coincidência ou já estava tudo programado?
Não, a maior parte foi de contatos meus, construídos com muita dificuldade. O Luandino Vieira veio de um contato meu em Nápoles. O Mia Couto fui procurá-lo pessoalmente lá no Black to Black [no Rio de Janeiro]. Furei a fila para falar com ele. Fui eu que tive que fazer esses convites, e nem sempre é fácil você visitar um autor em outros lugares do mundo para convidá-lo. A gente precisa sim de mais apoio e envolvimento das editoras.
Os debates foram mais culturais e políticos do que literários. O que achou da qualidade das conversas?
Essa é uma consequência natural do tema. Foi preciso que os debates evoluíssem para uma questão política porque falta uma política de aproximação entre os países de língua portuguesa e por carência de ações das editoras, que ficam muito orientadas pelas feiras internacionais que acabam privilegiando autores anglo-saxônicos. Era uma consequência natural para um evento que estivesse tratando dessa temática da África de Língua Portuguesa que ele tematizasse também a necessidade dessa aproximação em outros níveis – político, econômico, cultural. Outra questão se refere ao fato de que através do conhecimento das obras é que a gente vai chegar ao debate propriamente literário. Esse problema acontece em todos os eventos brasileiros hoje. Muitas vezes a discussão não está tão centrada nas obras porque as obras não foram lidas.
Qual foi a mesa que mais te encantou?
A que eu mediei [“A literatura e a diversidade urbana”, com Arthr Dapieve, Felipe Pena e João Paulo Cuenca]. Eles estavam tão à vontade, soltos, leves e me surpreendeu que o público não quis que abríssemos para perguntas. Estavam todos gostando do papo que pediam para deixá-los conversar um pouco mais. Isso nunca aconteceu em lugar nenhum que eu tenha visto. A mesa com o Luandino também foi emocionante. Gostei muito da mesa sobre a presença africana em Minas Gerais. Foi muito instrutiva e viva, de um dinamismo enorme e com professores universitários que não são figuras midiáticas. Pepetela e Odete Semedo foi lindo, incrível.
Outras notas sobre o Fórum das Letras podem ser encontradas aqui.





