Luandino Vieira estava convencido de que teria uma grande emoção quando visse Ouro Preto pela primeira vez. Subiu a ladeira, chegou à Praça Tiradentes, olhou ao redor e, quando percebeu, estava pensando em outras coisas corriqueiras. Não teve emoção nesse encontro, estar ali era a coisa mais normal. “Me dei conta de que estava em África, com o povo angolano até pelo jeito das mulheres andarem”. O tema África caiu muito bem ao Fórum das Letras. E escritores vindos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Portugal e de outros lugares, assim como Luandino Vieira, estavam em casa. A cidade parece também ter gostado da homenagem e da volta às origens. A meninada jogava capoeira e grupos regionais se revezavam em apresentações na frente do Cine Vila Rica quando a chuva fina deixava ou então no saguão do cinema, ponto de encontro entre escritores e leitores.
O fórum se propôs a discutir a literatura feita em países de língua portuguesa, mas foi além. Como a plateia era formada em grande parte por estudantes e professores, as perguntas extrapolavam os limites da ficcção e todos queriam saber como vai a vida na África, como esses escritores conseguiram superar as várias guerras e tudo o mais. Na fala dos convidados, a tentativa de apresentar uma África contemporânea.
A guerra foi, inclusive, uma constante nas conversas, assim como é na literatura dos convidados. Mesmo na daqueles mais novos, como os angolanos Onkjaki, nascido com a independência, ou Abreu Paxe, menino nesta época.
Pepetela comentou que a questão da guerra atravessa toda a literatura angolana. “Mesmo os que dizem que só escrevem sobre o amor estão escrevendo sobre a guerra”. “É difícil desconectar o movimento literário angolano do movimento libertário angolano”, comentou Manuel Rui, escritor há algumas décadas e autor do novo hino de seu país.
Brasil e África
O angolano João Melo, na mesa “Imagens da África” disse que era perigoso tratar de um tema como esse, já que “há muitas Áfricas, e dentro dessas Áfricas, outras Áfricas”. Assim como alguns brasileiros têm uma imagem estereotipada daquele continente, em seu país acontece o mesmo. “Há várias imagens do Brasil em Angola. Algumas estereotipadas e outras, nem tanto. Apesar do desconhecimento, o Brasil é esse nome, esse som presente no imaginário do angolano. Isso, mesmo que o conhecimento efetivo deixe a desejar”. Ele comentou a ligação longínqua entre os países e disse que mal ou bem nosso país é uma referência em Angola.
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