Guerra, identidade, problemas sociais e religiosidade foram os temas que dominaram a conversa entre o angolano Pepetela e Odete Semedo, de Guiné-Bissau, mediada por Inocência da Mata, de São Tomé e Príncipe, na primeira noite do Fórum das Letras de Ouro Preto. Uma verdadeira mistura de sotaques para tratar de questões tão caras aos dois e ainda tão presentes em suas obras.
O último livro de Pepetela, por exemplo, o Planalto e a estepe (LeYa) é uma história de amor, mas onde se vê “o batuque da guerra ritmando o livro e a própria história de amor”, como explicou o autor. Essa obra, aliás, foi indicada pela mediadora a todos os que desejam começar a ler Pepetela. “Depois de Meu pé de laranja lima, eu nunca tinha chorado com um livro, e ele que fez chorar com O planalto e a estepe”.
Literatura foi um assunto secundário na conversa porque não era disso que a plateia, formada em sua maioria por estudantes universitários, queria saber. Mesmo assim, falaram das influências e das dificuldades enfrentadas pelos autores e leitores de seus países.
A guerra nos livros
A questão sobre como os escritores elaboram a experiência da guerra deu início à conversa de quase duas horas. Os dois convidados vivenciaram os conflitos travados em seus países e essa experiência voltou em suas obras.
Odete, por exemplo, ainda dava de mamar quando teve de sair às pressas e deixar para trás uma casa intacta. Talvez voltasse no dia seguinte, mas não tinha como saber. Ficou fora, mudando de um lugar para o outro, pegando uma carona aqui e outra ali, durante oito meses. Na volta, encontrou o prédio onde morava bombardeado. “Fui escrevendo pelo caminho. E quando parávamos em algum lugar, aproveitava para escrever algumas linhas”, disse. O que fez foi uma espécie de diário, relato mesmo do que estava vendo e vivendo. Depois, transformou suas anotações em um algo mais poético e dali nasceu No fundo do canto, editado no Brasil pela mineira Nandyala, que já prepara uma reedição.
“A questão da guerra atravessa toda a literatura angolana. Mesmo os que dizem que só escrevem sobre o amor estão escrevendo sobre a guerra”, garante Pepetela. Ao falar dos conflitos que já viveu, e contra os quais lutou, Pepetela disse, tímido: “O escritor deve descrever por palavras escritas e não por palavras ditas assim”.
Mercado editorial
“A vida editorial era insípida antes da guerra civil e depois ficou em banho-maria. Isso pode ser comprovado pela existência de uma única editora - a Kusimon - no país de 1,5 mi de habitantes e 20 etnias. O nome que dizer “com as suas mãos”, mas isso em nada se refere à autopublicação. Trata-se da junção das iniciais dos nomes dos três amigos que abririam a editora. “A questão da publicação de autores está no ponto zero”, comentou Odete.
Já em Angola a situação variou muito conforme o tempo e a guerra, mas hoje se publica muito mais livros e em tiragens maiores. “O problema é com o preço dos livros. O livro feito em Angola fica mais caro do que o que vem do exterior, como os impostos todos”, contou Pepetela. Mas ele disse que estão discutindo uma política para tornar o livro acessível a quem quer ler, e não somente aos que podem comprar. Esses, segundo o escritor, não leem nada e só pensam em gastar o que têm. A literatura infantil também se desenvolve em Angola, mas lentamente. “Temo que uma parte da literatura angolana não transpareça no material didático”, disse.
Brasileiros na África e influências
Hoje, não é difícil ler um autor africano no Brasil. Se a quantidade de livros editados ainda não é a ideal, ao menos eles estão chegando de maneira formal aos leitores e estudantes, que antes tinham de se virar com cópias de livros ou trechos das obras estudadas na universidade. Para Pepeleta, o interesse do Brasil pelos autores africanos de língua portuguesa está aumentando um pouco. “Mas fundamentalmente, esse trabalho tem sido feito para e pelas universidades”. Ele acredita que essa literatura ainda não chegou ao público geral.
“A nova geração conhece muito menos os autores brasileiros do que a minha”, comentou Pepetela explicando que há alguns anos os livros brasileiros, ao contrário dos portugueses, entravam em Angola sem censura. E isso ajudou na aproximação de Pepetela com nossos autores. Ele leu Jorge Amado aos 13 anos e não parou mais. José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Erico Verissimo foram outras influências. Ele disse que quando foi estudar em Portugal, conhecia mais autores brasileiros que seus colegas de classe. “Não posso negar a influência de Jorge Amado. Tentei escrever um texto em prosa ritmada que era dedicado a ele”. Mas, novamente, o preço dos livros é o que impede o angolano de conhecer novos autores.
O ensino em Guiné-Bissau sofreu muito com a colonização e só há pouco tempo o país abriu sua primeira univerisdade. E só material vindo de Portugal chegava aos estudantes. Foi depois da independência que a escritora conheceu Erico Verissimo e Jorge Amado. Mesmo assim, não os leu em livro. Eram cópias ou excertos trocados entre amigos cujas famílias tinham uma pequena biblioteca. Nada chegava por via oficial. “O que importava na época era uma educação para a revolução. Um livro de Luandino Vieira, por exemplo, não foi tratado como ficção no curso, mas sim como um manual que ensinava o leitor a ser um revolucinário e a persistir em seus ideais.
A cobertura do Fórum das Letras de Ouro Preto pelo PublishNews tem o apoio da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.






