Discutir a psicanálise nos próximos 100 anos; desenvolver formas de praticá-la em tempos de globalização; encontrar maneiras de abri-la para o mundo sem perder suas especificidades clínicas e teóricas; praticar uma psicanálise criativa e possível. Essas são algumas das questões que estão no cerne do pensamento de André Green. Psicanalista egípcio radicado na França, Green vem ocupando espaços importantes na discussão do que é a psicanálise contemporânea, e sua obra é tema do livro O Duplo limite – O aparelho psíquico de André Green (Escuta, 344 pp., R$ 49), que a psicanalista Talya Candi lança amanhã (9), às 18h30, na Livraria da Vila da Lorena (Alameda Lorena 1731, tel. 11-3062 1063).
O livro, fruto da pesquisa de doutorado realizada na PUC-SP pela autora, sob orientação do professor Luis Cláudio Figueiredo, promete ser uma contribuição de valor inestimável à produção contemporânea na psicanálise brasileira, por se tratar da primeira grande leitura da obra de Green. O aprofundado estudo incluiu uma série de encontros que Talya teve com Green em Paris, no inicio de 2008.
Com prefácio de Figueiredo, no qual ele enfatiza o caráter fundamentalmente oportuno do trabalho de Talya Candi, contracapa de Ana Maria de Azevedo e orelha de Daniel Delouya – ambos da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo –, o livro apresenta uma leitura clara e didática da obra de André Green, que vem contribuindo, há mais de trinta anos, para a expansão do pensamento psicanalítico para fora das fronteiras tantas vezes restritas e dogmáticas das instituições psicanalíticas. Com efeito, seguindo o rastro da criatividade freudiana e agregando ao seu trabalho clínico e teórico autores como Lacan, Melanie Klein, Bion e Winnicott, Green compôs uma das obras mais originais e complexas de que se tem notícia atualmente.
O livro de Talya Candi se constitui tanto como um caminho acessível, porém sem simplificações ou reduções do pensamento do autor, àqueles que desejam se aproximar de André Green, quanto como um meio de aprofundamento e pesquisa àqueles já familiarizados com sua inventiva produção. Numa primeira parte, Talya Candi situa Green na história do movimento psicanalítico, identificando aí o diálogo fértil entre diferentes autores que lhe possibilitou recriar uma psicanálise para além da “era das escolas”, uma psicanálise, nos termos de Figueiredo, fundada no atravessamento de paradigmas.
Numa segunda parte, é enfatizada uma questão clínica que sempre esteve no foco das preocupações de Green: o trabalho com os chamados pacientes borderline, aqueles para os quais a psicanálise precisou ser repensada e recriada, já que o setting tradicional mostrou-se insuficiente e mesmo inadequado para o seu tratamento. O livro traz ainda uma biografia de André Green.
Sobre a autora
Talya Candi, 47 anos, nasceu no Líbano e viveu no México, França e Israel. Formou-se em Biologia em Israel e é psicanalista filiada à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mora no Brasil desde o final dos anos 80; trabalha em seu consultório e em instituições públicas na detecção e prevenção de problemas psíquicos em bebês.





