Roterio literário - Paraty
PublishNews, Mauro Munhoz, 29/06/2009

Parati é um microcosmo. A tranquilidade emana do conservado casario do século 19, do sossego da baía de águas abrigadas, da umidade que paira no ar, vinda da mata, dos rios e do mar. Essa constelação de fatores sempre me causa uma sensação de estar submerso num lugar onde o tempo corre de forma diferente, onde os cenários mudam a cada instante, tão dramático é o encontro entre a serra e o oceano. Será por isso que Parati é um ambiente tão propício à literatura, ao hábito de ler?

Seja como for, não há como negar que Parati é um microcosmo de acasos literários. Pequenos episódios que aconteceram no último século confirmam que o universo da literatura parece mesmo convergir nessa encantadora cidade histórica fluminense, com a qual tenho uma ligação que remete à minha infância – e não dizem que as relações que tecemos quando crianças são as que nos marcam para o resto da vida? Coincidência ou não, a casa de um tio paterno que frequentei desde o início dos anos 1970 hoje abriga a Pousada da Marquesa, onde hospedamos os autores convidados da Flip. Bem, essa ponte entre o passado e o presente será recorrente nas histórias a seguir.


Um dos primeiros escritores forasteiros a se deparar com Parati talvez tenha sido Gilberto Freyre. Em 1931, ele descobriu a cidade durante uma viagem de barco entre Santos e o Rio de Janeiro para investigar as raízes da identidade brasileira. Impressionado com o lugar, que descreveu como uma joia de virgindade, Freyre registrou suas impressões num artigo de jornal. Esse relato está no livro Parati: a cidade e as festas, de Marina de Mello e Souza, que foi relançado Flip 2008, pela editora Ouro Sobre Azul.

Anos mais tarde, em 1958, um certo Carlos Drummond de Andrade, que na época trabalhava na divisão de registros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), inscreveu Parati no livro de tombo. Mais do que isso, ele fez parte do grupo que propôs o tombamento do conjunto arquitetônico da cidade depois de visitá-la em 1957 (segundo minha colega Isabelle Cury, estudiosa do assunto, tudo isso está registrado em livros de memória oral do Iphan). Hoje, existe um projeto de lançar a candidatura de Parati a Patrimônio Mundial da Unesco – o que não deixa de ser uma homenagem ao poeta visionário que enxergou toda essa beleza cinquenta anos atrás.

Em Parati, quem diria, também estão as origens de Thomas Mann, prêmio Nobel de literatura em 1929. A casa onde nasceu sua mãe, Júlia da Silva Bruhns Mann, ainda existe e fica na baía, do outro lado do cais. Trata-se de um casarão do século 19 tal qual o imaginamos: três andares, varanda, pintado de azul e branco, que em breve deverá ser restaurado e transformado num memorial sobre o autor alemão. Mais sobre a paratiense Júlia você pode conferir no livro Ana em Veneza, de João Silvério Trevisan (Record, 658 pp., R$ 66).


Para prazeres, digamos, mais mundanos, separei duas indicações. Mesmo que você não se hospede na pousada Le Gite d’Indaiatiba, que fica na serra, 16 km ao norte da cidade, vale uma visita para conhecer o restaurante. A culinária do francês Olivier e da mineira Valerie não poderia mesmo ser diferente: mistura toques dessas duas origens, e o resultado é refinadíssimo. Para completar o clima, o restaurante fica no meio de uma linda biblioteca, cheia de livros de autores que já vieram à Flip. A outra dica é conhecer o Sítio Santo Antônio, ou engenho da Maria Izabel, como é conhecido por lá. As cachaças, produzidas artesanalmente e sem químicos industriais na fermentação, seguem receitas tradicionais elaboradas pelo avô da proprietária, o historiador e (claro, não poderia deixar de ser...) poeta Samuel Costa. Prove a cachaça (recomendo a versão envelhecida em tonel de jequitibá), espere descer e depois vá conhecer a obra do poeta na Biblioteca Municipal Fabio Villaboim. Reeditado recentemente por Diuner Melo, do Instituto Histórico e Artístico de Paraty, o livro Parati no Anno da Independência é uma importante documentação da história da cidade.

Há muitos desses tesouros em Parati, que se deixa descobrir ao poucos, e é preciso tempo para ter acesso a eles. Anos atrás, quando o navegador Amyr Klink me convidou para fazer o projeto da Escola do Mar, visitamos juntos inúmeras casas em busca da identidade arquitetônica local. Lembro-me especialmente de uma dessas casas no saco do Mamanguá, encaixada na paisagem com a sabedoria das casas de pescador, feita com um capricho incrível, com telhado de sapé, fogão a lenha, uma carpintaria primorosa – e, adivinhem, uma bela biblioteca. À primeira vista, a riqueza daquela coleção destoava da simplicidade do lugar. Mas quem conhece Parati sabe que esse paradoxo é, justamente, a sua essência.

Pousada da Marquesa
Tel. (24) 3371-1263
www.pousadadamarquesa.com.br


Biblioteca Municipal Fabio Villaboim
Tel. (24) 337l–1056
www.ihap.org.br

Le Gite d’Indaiatiba
Tel. (24) 3371-7174
www.legiteindaiatiba.com.br

Sítio Santo Antônio
Tel. (24) 9999-9908
www.mariaizabel.com.br

* Mauro Munhoz é arquiteto urbanista formado pela FAU-USP e diretor da Associação Casa Azul, que organiza a Festa Literária Internacional de Paraty.

Foto: Luciana Serra

[29/06/2009 00:00:00]