
A proposta é investigar as relações entre a literatura e o fenômeno estético-social da moda, a partir de obras de escritoras e escritores como Virginia Woolf, Marcel Proust, José de Alencar, Honoré de Balzac, Joaquim Manuel de Macedo e Machado de Assis. Coordenado pela professora doutora Silvana de Souza Ramos (FFLCH/USP), o curso será ministrado pelo pesquisador Brunno Almeida Maia, aluno do doutorado da FAU USP. As inscrições podem ser feitas pelo Sistema Apolo USP, até o dia 9 de março.
Em um diálogo com a filosofia, a sociologia e a teoria de moda, o curso de extensão busca apresentar e comentar os principais tópicos, noções e conceitos extraídos por Gilda dessas literaturas, entre eles: a moda como arte, a vestimenta como expressão dos papéis de gêneros, a cultura da feminilidade burguesa e a moda relacionada à luta de classes. A partir dos manuscritos inéditos de Gilda — especialmente os textos “Bricolage” e “Moda” — essa reflexão se aprofunda e ganha novos contornos.
Neles, a autora amplia a perspectiva desenvolvida em O espírito das roupas (Companhia das Letras, 1987) ao aproximar a teoria da moda das linguagens artísticas. Gilda concebe a moda como um sistema de formas, normas e modelos que se oferece aos sujeitos enquanto repertório coletivo, mas que só se realiza plenamente na atualização individual, no gesto criador de quem veste. O ato de vestir é compreendido como uma “fala estética”, em que cada usuário, por meio de escolhas, composições e acentos próprios, imprime subjetividade ao sistema.
Nesses manuscritos, a ideia de “caligrafia dos gestos” retorna ampliada pela noção de “bricolage”: vestir-se é montar, desmontar e remontar peças, produzir combinações e experimentos que configuram, no corpo, uma forma singular de expressão. A bricolagem, como operação estética, aproxima a moda de outras artes modernistas que trabalham com fragmentos, cortes e rearranjos — da colagem das vanguardas ao romance de fluxo de consciência, passando pelo cinema e pela fotografia.
Gilda identifica, na modernização do vestuário do início do século XX, uma revolução silenciosa conduzida sobretudo por mulheres. O tailleur Chanel, o corte simplificado das peças, a liberação do corpo pela dança moderna, o surgimento da calça feminina, a multiplicação de peças intercambiáveis e o uso cotidiano do prêt-à-porter reconfiguram a relação entre corpo e vestimenta. O indivíduo deixa de ser mero imitador da moda e passa a atuar como criador, artista de si, autor de um estilo. Esse movimento aproxima a moda de práticas estéticas contemporâneas como os ready-mades duchampianos, em que o cotidiano se torna espaço legítimo da criação.
Desse modo, o curso abordará como, para Gilda, moda e literatura se aproximam por compartilharem procedimentos de composição: a montagem de fragmentos, a invenção de ritmos, a criação de estilo, a escrita como gesto. Assim como a palavra literária, a vestimenta organiza a experiência sensível, produz significados e transforma o corpo — e, por extensão, a vida — em espaço de comunicação estética.






