Francesa de origem senegalesa, Marie Ndiaye fez sua estreia literária aos 17 anos e a história é curiosa: depois de mandar os originais de seu primeiro livro para avaliação da cultuada editora Minuit, foi esperada na porta do colégio onde estudava por Jérôme Lindon, o editor de Samuel Beckett, Alain Robbe-Grillet, André Gide, Marguerite Duras, Georges Bataille e tantos outros.
Hoje, aos 43, é dona de uma obra sólida e venceu, em 2009, o Goncourt, o mais importante prêmio da literatura francesa. Seu livro premiado, o Trois Femmes Puissantes, editado lá pela Gallimard, já vendeu, só na França, 700 mil exemplares. Em breve ele chegará ao Brasil - e a outros 25 países. Mas antes disso, a Cosac Naify lança Coração apertado (272 pp., R$ 50 – Trad. Paulo Neves).
Nas palavras da escritora Beatriz Bracher, que assina a orelha do livro, a obra é “surpreendente e terrível até o final”. Ela escreve: “Coração apertado tem lances fantásticos e é profundamente realista. Este ambiente duplo, que não tem nada de ambíguo, vem da sobriedade original e densa da escrita de Marie NDiaye. É uma escrita sem brincadeiras ou firulas, não há trilha sonora banal, o suspense, que existe, e a fantasia apavorante são perfeitamente reais, limpas e muitas vezes engraçadas, de um humor ferino e dilacerante.”
A narrativa se inicia no meio da ação: quando os protagonistas, um casal de professores de Bordeaux, começam a notar que estão sendo olhados de maneira diferente por colegas, vizinhos, alunos. Excessivamente devotados ao ofício e à vida a dois, a ponto de pretenderem prescidir do convívio social, os dois entram numa espiral de paranoia que envolve também o leitor, que como eles, buscamos entender por que eles estão sendo tratados assim. Personagens que normalmente ficavam relegados ao segundo plano em seu cotidiano – um vizinho, o ex-marido de Nadia, as filhas do primeiro casamento de Ange – vão ganhando relevo e trazendo novos embaraços à narradora, que não consegue se desvencilhar deles.
Há um forte acento kafkiano na prosa de Coração apertado, não apenas pelo clima abafado de “acusação” sem que se saiba o “crime”. Assim como a linguagem de Kafka, a de NDiaye é neutra, seca, quase funcional, o que acentua o absurdo e o desespero dos personagens. O corpo de Ange também passa por uma “metamorfose”, com uma ferida que abre em sua barriga e infecciona. A própria cidade de Bordeaux vai progressivamente se deformando e se torna irreconhecível. Não se trata, no entanto, de uma referência literária como tantas que vemos na literatura francesa contemporânea: o que interessa é menos “citar” Kafka e sim reconhecer nos nossos dias aquela realidade por vezes aterrorizante que o autor de O processo enxergou na “vida real”.
A “vida real” que pulsa em Coração apertado é a da França urbana contemporânea, com suas tensões sociais e violência latente. Não por acaso, o espaço em que os dois protagonistas trabalham e começam a ter problemas é uma escola, foco de permanentes choques culturais nas cidades francesas, como se vê, por exemplo, no filme “Entre os muros da escola” (França, 2008). No romance, a questão étnica, os debates sobre integração, imigração, as ex-colônias etc. é um pano de fundo que jamais é esquecido, mas também não chega a ser verbalizado.
Esse clima urbano de abafamento está sugerido pela imagem de capa, que lembra as das câmeras de segurança que vemos e que nos observam em toda parte. O efeito óptico obtido pela designer Gabriela Castro – em que o olho se confunde ao tentar enxergar separadamente as linhas azuis, verdes e vermelhas que compõem a textura – é uma representação gráfica fiel da notável construção narrativa deste romance.
Sobra a autora
Marie NDiaye nasceu em 1967, em Pithiviers, na França, e mora em Berlim, com o marido, o também escritor Jean-Yves Cendrey, com quem publicou Puzzle (reunião de três peças de teatro), em 2007. Caso único, foi a primeira escritora a conquistar o Femina (por Rose Carpie) e o Goncourt (por Trois Femmes Puissantes). É a mais jovem dramaturga a ter suas peças no repertório da Comédie Française. Coração apertado é seu primeiro livro publicado no Brasil.






