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Época

Confesso que vivi

Cenas esquecidas do passado das grandes cidades estão sendo recontadas por seus protagonistas, num esforço de historiadores para recuperar a memória do cotidiano nacional. No rastro do 450° aniversário de São Paulo, comemorado no ano passado, a prefeitura deu início a um projeto para recolher relatos de seus cidadãos mais antigos. Nos últimos nove meses, o projeto Memória Viva, Cidadania Ativa ouviu a história de vida de 62 idosos - que deve dar origem a um livro. "Fiquei feliz em participar", alegra-se Amaro Pinheiro Silva. "Aos 70 anos, vejo que ainda sou útil e estou longe de pendurar as chuteiras", diz. Há outros projetos semelhantes no país. Uma operação financiada pela Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma) destacou 212 estudantes de Jornalismo de dez Estados do país, que mergulharam voluntariamente na realidade dos asilos e escreveram as memórias dos idosos. Os primeiros relatos foram compilados no livro Me Conte a Sua História, lançado em junho.

20 setembro 2004

Agonia e salvação

O mercado editorial brasileiro é um Mercedes circulando com rodinhas de rolimã. A metáfora é usada pelos professores Fábio Sá Earp, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e George Kornis, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Juntos, eles acabam de finalizar a pesquisa mais completa e detalhada sobre o universo do livro já feita no Brasil. O estudo demorou um ano e meio para ficar pronto, e foi bancado pelo BNDES. A idéia é usá-lo para definir novas políticas de investimento no setor. Os resultados serão divulgados oficialmente na quinta-feira 16, no Rio de Janeiro, durante a abertura da Primavera dos Livros, feira na qual títulos de pequenas e médias editoras são vendidos com descontos. Época antecipa os números e as conclusões - nada animadoras -dos pesquisadores. Segundo Earp e Kornis, o panorama é nebuloso. "O desempenho do mercado editorial deve ser tratado como um problema para o país, precisa virar uma dor de cabeça" afirma Kornis. De fato, problemas aparecem ao longo de toda a pesquisa. Há dados assustadores. Um deles mostra, por exemplo, que entre 1995 e 2003 o faturamento das editoras nacionais diminuiu 48%, e a quantidade de exemplares vendidos caiu pela metade. É preocupante, também, a quantidade obscena de livros encalhados. Só em 2003, 44 milhões de unidades não foram vendidas - 15% da produção total. Segundo levantamento recente da Unesco, cerca de mil municípios brasileiros não têm sequer uma coleção pública. Está aí o grande abacaxi a ser descascado pelo atual governo. O Ministério da Cultura já separou R$ 25 milhões de seu orçamento para o Plano Nacional do Livro e Leitura, apelidado de Fome do Livro, e promete zerar o número de municípios sem bibliotecas. Mas os autores da pesquisa sugerem que se faça mais. A criação de um vale-livro, uma espécie de subsídio para estudantes e professores universitários semelhante ao vale-transporte, é uma idéia. Outro incentivo viria de uma linha de crédito de R$ 50 milhões para editoras e - mais importante - da criação de uma "agência regulamentadora" para o setor.

13 setembro 2004

A república do conto

Em meados da década de 70, o escritor Roberto Drummond fez uma brincadeira sobre a vocação literária de seus conterrâneos. Disse que, se fossem empilhados todos os contistas mineiros que havia, se formaria uma torre humana que chegaria até a Lua. A galhofa se aplica com perfeição aos dias de hoje, se consideradas duas diferenças: os contistas não são apenas de Minas Gerais e, todos empilhados, alcançariam distância ainda maior (Júpiter, digamos). O mercado literário brasileiro vive um surto de produção de contos sem precedentes. O momento é comparável apenas aos anos 70 da piada de Drummond, quando Rubem Fonseca, Sérgio Sant'Anna, Luiz Vilela e outros escreveram alguns dos melhores contos já produzidos por aqui. Agora, a bolha é ainda maior. Uma olhada rápida nas livrarias revela a atual vocação do mercado. Entre os lançamentos dos últimos meses estão contos de Lygia Fagundes Telles, Autran Dourado, Edgard Telles Ribeiro e do próprio Sérgio Sant'Anna. Coletâneas de textos de autores consagrados, como Machado de Assis, Rubem Braga e Orígenes Lessa, ganham novas edições sem dar sinais de exaustão. A Companhia das Letras colocou na praça uma coleção que trará contos de F. Scott Fitzgerald, Tennessee Williams e Primo Levi. A Cosac & Naify acaba de editar os dois primeiros títulos de uma coleção que traz apenas um conto a cada livreto. E há incontáveis trabalhos de jovens autores publicados por pequenas editoras.

18 agosto 2004

Voz da solidariedade

No ano 2000, a atriz AnaLu Palma procurou o atual presidente da Academia Brasileira de Letras. Queria o apoio de Ivan Junqueira para um projeto: gravar em CD obras da literatura brasileira para deficientes visuais. A iniciativa foi aprovada e clássicos de Machado de Assis e outros bambas foram transformados em livros falados, nos estúdios da ABL. A coleção, chamada de Voz da Academia, partiu de uma percepção clara. É ínfima a quantidade de livros lançados para pessoas com dificuldades de enxergar. Por tabela, isso afasta os cegos da vida social, cultural e econômica do país. Pois AnaLu uniu a formação de atriz com a boa voz, gosto pela leitura e consciência social e fez dos livros falados um projeto de vida. Acaba de lançar o infanto-juvenil Livro Falado - Uma História para Ler, Gravar e Ouvir (28 pp., R$ 17), com versão em CD. A publicação apresenta projeto gráfico modesto, poucas páginas e dependeu de patrocínio. Não tem editora, nem pretende se transformar num best-seller. O maior objetivo é incentivar os leitores a gravar livros falados.

31 março 2004

Living inteligente

Arquitetos e decoradores adoram o que se convencionou chamar de coffee-table books, "livros para mesa de café" em inglês. Grandes e coloridos, eles custam de R$ 100 até milhares de reais, e são de preferência importados. Em geral, versam sobre arte, fotografia, gastronomia, jardinagem. São os preferidos para o living. "Os livros dão um peso ao ambiente. Transmitem uma idéia de bagagem, sofisticação", explica a designer de interiores Jóia Bergamo. "Mais de 80% dos meus clientes pedem que eu compre livros. Não importa o autor ou quanto custará. O importante é rechear as estantes", conta outra famosa arquiteta de São Paulo. "São os mais vendidos por serem os mais bonitos. Pena que nem todos os compradores saibam o real valor dessas obras", afirma um livreiro que está driblando a crise investindo nesse filão. Hoje, ele faz mais negócios com decoradores e arquitetos que com amantes sinceros da arte e da literatura. "Os livros aquecem o ambiente", resume a arquiteta Brunete Fraccaroli. Em geral, a clientela chique se contenta com alguns livros vistosos no living e outros espalhados nas demais peças da casa. Mas há quem vá mais longe. "Não existe coisa mais triste do que comprar livros por metro para montar uma biblioteca. Isso angustia a gente, mas acontece", desabafa Jóia. (O PublishNews chama a atenção para os quadros de dicas publicados junto com esta matéria e que têm os seguintes títulos: "Como parecer letrado", "Como criar um ambiente naturalmente cultivado" e o semi-inacreditável "Como montar uma biblioteca sem ler".)

1 setembro 2003

Ler é resistir

O professor e ensaísta paulistano Alfredo Bosi fez sua glória literária com a defesa de que o melhor escritor é aquele que resiste aos apelos da cultura oficial. Munido da restritiva regra de ouro, Bosi escreveu ensaios iluminados sobre autores brasileiros e italianos ao longo dos últimos 40 anos. A postura pode ser examinada no livro de ensaios Céu, Inferno, que acaba de ser reeditado. Ali, examina o modernismo brasileiro, retrata o grande crítico italiano Benedetto Croce, uma de suas maiores influências, e se ocupa de questões de teoria literária. Clique no título da matéria e leia a entrevista com o autor.

14 abril 2003

Fardão gaúcho

A coluna Portal, da revista Época, informa que cresce na Academia Brasileira de Letras o interesse pelo escritor e cronista Luis Fernando Verissimo. Segundo o colunista, alguns imortais estudam o melhor momento de apresentar a candidatura de Verissimo para ocupar uma das 40 cadeiras da ABL.

24 março 2003

O fio dourado que atravessa as vidas

A paulistana Ecléa Bosi estréia na ficção com o volume de contos Velhos Amigos (Companhia das Letras, 112 pp., R$ 22}. A coleção de 20 histórias assinala um início extraordinário, pois a autora, professora da Universidade de São Paulo, firmou reputação desde os anos 70 com seus estudos sobre cultura operária, lembranças e transformações da cidade de São Paulo. Velhos Amigos coroa um trabalho de quatro décadas no terreno movediço da memória. O volume foi lançado numa coleção infanto-juvenil, mas as narrativas transcendem os limites das faixas etárias. São pequenas obras-primas garimpadas em visitas, viagens, encontros casuais e entrevistas de pesquisa realizadas com pessoas idosas.

10 março 2003

Dor de garganta

Em sua coluna da revista Época, Joyce Pascowitch informa que Adriana Barreto e Plácido Faria, principais figuras no caso dos grampos, já acertaram com uma editora de São Paulo o lançamento de um livro contando todos os detalhes picantes do caso.

3 março 2003

Elas não são idiotas

Harold Bloom é o crítico literário mais popular do mundo. Em 2000, fez furor ao publicar, no The Wall Street Journal, um ensaio em que condenava os livros com o personagem Harry Potter. Bloom falou à revista Época por telefone, de New Haven, Connecticut, onde se recupera de uma operação e prepara dois livros. Para ele, o sucesso da literatura infantil atual "é um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária". Quando a Harry Potter declarou: "Odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. Não tem densidade." Na entrevista, o crítico ainda declarou ser capaz de ler em português com certa fluência e elogiou Machado de Assis: "Machado reúne os pré-requisitos da genialidade. Possui exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo. Procuro um grande poeta brasileiro vivo. Até agora não encontrei nenhum."

3 fevereiro 2003