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Época

O paradoxo de Wilde

A livraria GLS mais antiga dos Estados Unidos vai fechar as portas. O dono da Oscar Wilde Bookshop, no boêmio bairro de Greenwich Village, em Nova York, decidiu encerrar as atividades porque estava tendo prejuízo alto. "Perdi US$ 250 mil em seis anos", diz Larry Lingle, atual proprietário. A loja foi fundada em 1967 e é considerada um marco na história do movimento gay na cidade. A notícia do fechamento, à primeira vista encarada com tristeza pelos fregueses, sinaliza boas-novas: no que diz respeito às livrarias, gays não estão mais restritos a guetos e sentem-se bem-vindos em toda a cidade.

14 janeiro 2003

Assanhos na cultura

Gilberto Gil deve seu cargo de ministro da cultura a Frei Betto. Foi a reação do escritor à indicação de Gil, engrossando um coro de aborrecidos artistas e intelectuais petistas, que acabou obrigando Lula a botar suas fichas no cantor baiano. O presidente confirmou um convite que nem sequer tinha feito. O encontro de Lula com Gil em 14 de dezembro, na Granja do Torto, não tinha intenções conclusivas. Lula, ainda sem nome definido para o posto, convocou o cantor para uma conversa exploratória. Num dado momento, resolveu conferir também a disposição de Gil em participar do governo. Mas convite específico não houve. Gil não entendeu assim. Na saída da reunião, anunciou que Lula lhe oferecera o ministério. De olho no cargo, o grupo de artistas responsável pelo programa cultural de Lula se ouriçou. Frei Betto, amigo de Lula, tomou a frente do pelotão: "Gostaria que o ministro fosse indicado pelo grupo que há 13 anos elabora a política cultural do PT". Chegou até a lançar o nome de Antonio Cândido e jactou-se de um suposto papel multifuncional no novo governo: Como homem de confiança do presidente, circularia por todos os ministérios, palpitando sobre todos os assuntos. Lula não gostou. "Agora, vou de Gil ou vão dizer que Frei Betto manda em mim", irritou-se o presidente.

13 janeiro 2003

Uma luz na escuridão

Andrew Solomon foi ao inferno e voltou três vezes. Em graves crises de depressão, experimentou a incapacidade de romper a camisa-de-força emocional em que se isolara. 'Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição. É a solidão dentro de nós que se torna manifesta, e destrói não apenas a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar apaziguadamente apenas consigo mesmo.' É com essa lucidez que Solomon doma o primeiro parágrafo de O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão (Objetiva, 490 pp., R$ 54,90), vencedor do Prêmio Nacional do Livro de 2001 dos Estados Unidos e finalista do Prêmio Pulitzer 2002.

18 novembro 2002

Senhora Fassbinder

Foi o primeiro prêmio Gouncourt politicamente incorreto este de dois anos atrás, mas nem mesmo a Academia Francesa poderia deixar de reconhecer o talento do escritor bissexto Jean-Jacques Schuhl, autor de Ingrid Caven (Cia. das Letras, 280 pp., R$ 29,50), biografia romanceada da ex-senhora Rainer Werner Fassbinder, atualmente sua mulher. Schuhl, de 61 anos, era chamado nos anos 70 de 'novo Rimbaud', evidente exagero da crítica, que acertou pelo menos num ponto: como o poeta rebelde, ele parou de escrever por achar que não tinha muito a dizer.

24 outubro 2002

Um diário da paixão

Dias & Dias (Cia. das Letras, 240 pp., R$ 29,50) é o melhor romance de Ana Miranda e uma criativa solução para o ramerrame da ficção histórica, gênero em geral aprisionado a fórmulas e no qual a autora estreou em 1989 com o enorme sucesso de Boca do Inferno. Retomando o diálogo com grandes autores - Gregório de Mattos naquele primeiro título, Augusto dos Anjos em A Última Quimera (1995) e Clarice Lispector em Clarice (1996) -, Ana explora agora o universo exacerbado de Gonçalves Dias, protótipo do poeta romântico que teve sua posteridade reduzida à 'Canção do Exílio'.

30 setembro 2002

Ao lado da barbárie

A primeira advertência ao pesquisador que decidiu investigar as razões do suicídio do antropólogo americano Buell Quain no Brasil, em 1939, é clara: ele vai entrar no território do indiferenciado, em que falso e verdadeiro se combinam. É lícito, portanto, que a construção de um texto como o de Nove Noites (Cia. das Letras, 176 pp., R$ 28), de Bernardo Carvalho, resista à doutrina canônica do jornalismo e recuse o senso comum de que todo testemunho é um documento. Buell Quain matou-se sem que alguém tenha conseguido explicar por que foi seu juiz e algoz.

23 setembro 2002

Machado na cabeça

O escritor carioca Antonio Fernando Borges decide revisitar Braz Cubas e Quincas Borba e se dá bem Um escritor que põe nos títulos nomes dos personagens de Jorge Luís Borges e Machado de Assis só pode ser insano, despudorado ou genuinamente ousado. Para a felicidade do leitor, o carioca Antonio Fernando Borges pertence à terceira categoria. Premiado por reinventar o escritor argentino em seu Que Fim Levou Brodie? (Record), ele passou os últimos quatro anos revisitando outro autor canônico. O resultado é o surpreendente e divertido Braz, Quincas & Cia (Companhia das Letras, 176 pp., R4 27).

16 setembro 2002

O santo por um ateu

Apenas um escritor polêmico como o grego Nikos Kazantzákis (1883-1957), autor de A Última Tentação de Cristo, poderia ter escrito O Pobre de Deus (Arx, 365 pp., R$ 45), biografia romanceada de São Francisco de Assis (1182-1226), santo italiano que nasceu rico, livrou-se das roupas de seda, dançou nu na praça principal de Assis, falou com pássaros e peregrinou até seus pés sangrarem e seus olhos ficarem cegos.

9 setembro 2002

Apocalipse Now

A matéria de capa da revista Época destaca a coleção Deixados para Trás da Editora United Press. Segundo o longo artigo, no Brasil, a United Press já lançou nove livros da coleção escrita por de Tim LaHaye e Jerry Jenkins, e o último da saga apocalíptica sairá no fim do ano. As vendas somam 130 mil volumes, desempenho extraordinário no mercado nacional.

3 setembro 2002

O claro enigma de Drummond

Coração Partido (Cosac & Naify, 154 pp., R$ 25) é desses raros livros de crítica que verdadeiramente iluminam seu objeto de estudo. Em vez de apenas celebrar a argúcia de quem o interpreta, abre-o para novas possibilidades numa conversa inteligente e direta com o leitor. Nada disso é novidade nos ensaios de Davi Arrigucci Jr., mas faz toda a diferença quando se fala da obra de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

2 setembro 2002