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Jedwabne, Kielce e dois livros de história que abalaram a Polônia
PublishNews, Roney Cytrynowicz, 09/02/2018
Roney Cytrynowicz parte da polêmica lei polonesa que quer incriminar quem se referir aos campos de extermínio como poloneses e não nazistas para falar de dois livros essenciais para entender a questão

Três gerações após o fim da Segunda Guerra Mundial, a história do Holocausto assombra o cotidiano da discussão política na Polônia. O Congresso polonês, em apoio ao governo conservador, aprovou uma lei criminalizando quem se referir aos campos de extermínio como “poloneses” – e não como nazistas – e quem afirmar qualquer tipo de cumplicidade de poloneses com alguma ação nazista durante o Holocausto.

Dois livros do historiador Jan T. Gross ajudam a entender o debate atual: Neighbors. The destruction of the jewish community in Jedwabne, Poland, editado pela Penguin em 2001 (Vizinhos. A destruição da comunidade judaica de Jedwabne, Polônia) e Fear. Anti-semitism in Poland after Auschwitz (Medo. Anti-semitismo na Polônia após Auschwitz), editado pela Random House em 2006. Neighbors foi finalista do National Book Award.

Tem razão o governo polonês em protestar diante da frase “campos de extermínio poloneses”. Uma nota oficial do Museu do Holocausto Yad Vashem, em Israel, concorda com o protesto. Os campos se situavam na Polônia, mas o extermínio foi concebido e executado pela Alemanha nazista. Ou seja, o correto é, por exemplo, dizer “campos construídos pela Alemanha nazista em território polonês ocupado”. É uma diferença séria, não é uma sutileza. Mas uma política educativa seria muito melhor do que uma lei criminalizadora, que é parte de uma campanha de mobilização conservadora e nacionalista da sociedade.

O governo alemão, que aproveita qualquer oportunidade para assumir sua responsabilidade histórica pelo Holocausto, logo reafirmou que, sim, os campos de concentração e extermínio eram alemães. Mas a diferença, neste caso, é que o governo de Berlim, além da postura exemplar em relação à história, tem atualmente a mais ativa política imigratória na Europa e a promoção enfática de uma política de respeito à diversidade étnica e cultural no país. Ou seja, a memória do Holocausto é preservada por um Estado que aprende com a sua própria história e transforma o presente, abrindo sua sociedade e suas fronteiras (ao contrário da Polônia hoje).

Mas a segunda parte da lei aprovada no Congresso e governo poloneses é equivocada (embora a lei aparentemente não inclua pesquisas históricas). A lei foi inclusive corajosamente criticada pelo diretor do Museu Polin (de História dos Judeus Poloneses), em Varsóvia. O Holocausto teve colaboração, em graus variados, de grupos diversos e mesmo governos, inclusive na Europa Ocidental (a começar pelo governo Vichy na França). Não é correto, historicamente, tornar a colaboração uma acusação generalizada contra um país, mas, no caso dos poloneses, teve uma dimensão muito mais extensa do que alguns casos pontuais, agravada pelo enraizado anti-semitismo no país. É isso que deve ser pesquisado e conhecido, sem qualquer restrição ou limite.

Neighbors, de Jan T. Gross, conta em detalhes um destes episódios, o do massacre perpetrado por um grupo de poloneses contra cerca de 1.600 poloneses-judeus, seus vizinhos, do vilarejo de Jedwabne em 10 de julho de 1941, durante a ocupação alemã. Esta história permaneceu silenciada por quase seis décadas. A reação contra o livro de Jan Gross foi tão forte que o atual governo polonês ameaçou retirar uma condecoração que ele havia recebido de um governo anterior, liberal, em uma época na qual o país estava abrindo o baú de histórias assombrosas.

Os assuntos judaico-poloneses ganham sempre ampla repercussão. Pela dimensão histórica que teve o judaísmo polonês e pela dimensão da sua destruição quase total. Dos seis milhões de mortos no Holocausto, três milhões eram judeus-poloneses, sendo que eram 3,3 milhões os judeus-poloneses. Sobreviveram, portanto, cerca de 300 mil, menos de 10%. Destes, não mais do que 100 mil judeus permaneceram no país após 1946 e a vida judaica pública minguou com o governo comunista-soviético.

Em paralelo ao Holocausto, a Polônia foi barbaramente destruída pela Alemanha nazista durante a guerra. Além dos três milhões de poloneses-judeus, outros cerca de dois milhões de poloneses foram mortos, incluindo o massacre de intelectuais, professores, padres. A população civil padeceu de um cotidiano racista e cruel frente ao ocupante, com prisões, trabalhos forçados e deslocamento em massa da população. No Levante de Varsóvia de 1944, a cidade foi destruída, transformou-se em ruínas e 200 mil pessoas foram mortas, enquanto tropas soviéticas assistiam a poucos quilômetros de distância sem intervir (além de terem massacrado milhares de oficiais poloneses em Katyń). Nenhuma capital da Europa Ocidental sob ocupação alemã viveu algo, nem de longe, parecido à destruição de Varsóvia, aos massacres na Europa Oriental e na União Soviética. Um livro dobre o cotidiano de resistência na Polônia é O zoológico de Varsóvia (Nova Fronteira), de Diane Ackerman.

Assim, a precisa reconstituição histórica realizada por Gross descrevendo o fato de que em Jedwabne civis poloneses, vítimas da ocupação nazista, tenham eles próprios matado cerca de 1.600 poloneses-judeus, vítimas do Holocausto, em julho de 1941 – uma história que ainda não era conhecida em uma narrativa com estes detalhes – foi chocante.

O livro de Gross ganhou uma edição polonesa em 2000 e o presidente da Polônia pediu publicamente desculpas em 2001, no 60º aniversário do massacre, Gross foi condecorado e o Instituto Nacional de Memória da Polônia realizou em 2002 uma investigação que reafirmou a história do massacre, divergindo em relação ao número das vítimas. Eram tempos liberais na Polônia, diferentes dos atuais.

O cinema polonês expôs as profundezas da história polonesa durante a guerra em filmes como Aftermath, de Władysław Pasikowski, de 2012, e Ida, de Paweł Pawlikowski, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Muitas outras iniciativas interessantes para tornar presente a história das relações judaico-polonesas têm sido realizadas no país em um enquadre que não é o do atual discurso nacionalista.

Acusações de indiferença frente ao Holocausto e de recorrente anti-semitismo têm sido atribuídas à população polonesa durante o Holocausto. É uma discussão pesada, complexa e cheia de nuances que têm que ser levadas em conta. Um total de 6.700 poloneses já foram reconhecidos pelo Museu do Holocausto de Israel, o Yad Vashem, com o título de “Justos entre as Nações” – pessoas que correram risco de vida para salvar judeus – e certamente há muitas outras histórias. Os poloneses construíram, durante a guerra, uma extensa resistência civil e militar clandestina, apoiada pelo governo no exílio em Londres. A organização Żegota salvou milhares de judeus e o diplomata polonês Jan Karski denunciou aos Aliados (que se omitiram) o Holocausto.

A história dos judeus na Polônia pode ser conhecida por meio do recém-inaugurado Museu Polin, em Varsóvia, que conta a história de mil anos de presença judaica no país. Mil anos de profunda inserção judaica na vida social, cultural, econômica do país, com centenas de pequenas e grandes comunidades em Varsóvia, Lodz e outras cidades. Uma história que, no século 20, inclui o escritor Isaac Bashevis Singer, prêmio Nobel da Literatura de 1978 e autor, entre outros, de A casa do meu pai e da autobiografia Amor e exílio; Israel Joshua Singer, irmão de Isaac Bashevis, que era mais conhecido do que ele na Polônia e legou o clássico Os Irmãos Ashkenazi (sem edição em português); o poeta Julian Tuwim; o ilustrador Arthur Szyk, o educador Janusz Korczak, autor de Quando eu voltar a ser criança e outros livros. Mas mil anos que foram também marcados por enraizado preconceito, de segregação e pogroms contra a população judaica.

O relato sobre Jedwabne foi o primeiro livro de Gross. Depois, Fear. Anti-semitism in Poland after Auschwitz conta em detalhes a história do preconceito e da péssima recepção aos sobreviventes do Holocausto após 1945 e a tenebrosa história do pogrom de Kielce em 4 de julho de 1946, um massacre de sobreviventes do Holocausto na Polônia após o Holocausto. Em 2011, a edição francesa recebeu o European Book Prize.

Na cidade de Kielce, em 1946 correu o boato de que uma criança católica não voltara para casa. Imediatamente acendeu-se um imaginário literalmente medieval. Na Idade Média europeia cristã corria a acusação lendária de que judeus raptavam crianças cristãs para usar seu sangue na confecção das matzot de Pessach, o pão-ázimo da Páscoa judaica. A acusação de “assassinato ritual” era também uma reação obscurantista às mudanças do mundo medieval rumo ao Renascimento e ao capitalismo comercial.

Pois em 1946, após o Holocausto, a história medieval se repetiu. Uma multidão cercou e atacou um prédio onde viviam algumas dezenas de sobreviventes judeus que haviam retornado para casa na Polônia. O resultado foram dezenas de mortos, incluindo ataques em regiões vizinhas. O clima de anti-comunismo visceral em setores da sociedade polonesa teve participação, com a acusação de que havia muitos judeus no governo comunista que assumira a direção do país. Quanto mais se conhece a história, pior ficam os detalhes, como a omissão da massa que assistia, da polícia que não interviu, da postura da Igreja e assim por diante.

O massacre de Kielce foi estarrecedor. Assassinar sobreviventes do Holocausto, depois da magnitude do genocídio, por conta de uma acusação medieval que levou uma multidão a um verdadeiro delírio paranoico e assassino? Os cinco anos sob terror nazista não haviam criado entre os habitantes de Kielce e outros locais nenhum laço de solidariedade (ou mesmo compaixão) das vítimas polonesas em relação às vítimas judias que voltavam para casa após viverem em guetos, campos de concentração ou como refugiados? Foi o que se perguntaram os que ficaram chocados. O pogrom de Kielce e os outros episódios semelhantes determinaram o êxodo de dezenas de milhares de sobreviventes refugiados que deixaram de acreditar que poderiam viver na Polônia.

Com o regime comunista-soviético, a história do Holocausto foi, em linhas gerais, considerada parte da história da Polônia durante a guerra, sem praticamente menção ao genocídio. Auschwitz, por exemplo, era um lugar da memória polonesa, praticamente sem menção ao Holocausto. Os episódios de Jedwabne e Kielce foram esquecidos. Uma única instituição judaica, o Instituto Histórico Judaico Emmanuel Ringelblum, manteve, por períodos, uma produção sobre o Holocausto e um arquivo judaico. Após a redemocratização, não apenas as histórias começaram a ser pesquisadas e divulgadas (incluindo uma densa atividade editorial) como este passado passou a assombrar a sociedade polonesa.

Após o livro de Gross, outros livros se seguiram, como The crime and the silence. Confronting the massacre of jews in wartime Jedwabne, (Farrar, Straus and Giroux, 2015), publicado originalmente em polonês em 2004 pela da jornalista polonesa Anna Bikont do jornal Gazeta Wyborcza.

O Museu Polin, de 2016, termina sua maravilhosa exposição com os anos do pós-guerra, enfrentando abertamente a história de Kielce e massacres semelhantes. Outros museus, memoriais e monumentos têm sido construídos na Polônia, em Varsóvia, em Cracóvia e em Lodz, onde vivia a segunda comunidade judaica do país com 230 mil pessoas. Entre estes marcos, destaque aos poloneses que salvaram judeus durante o Holocausto.

O tema da colaboração X resistência é sempre complexo. Apenas como exemplo, na Europa Ocidental, a comunidade judaica mais destruída foi a da Holanda. Das 140 mil pessoas, apenas 30 mil sobreviveram. Houve uma combinação de muitos fatores para isso, inclusive a atuação da polícia holandesa e a força do partido nazista local. A Holanda possui talvez a maior rede de museus e memoriais do Holocausto após a cidade de Berlim.

Como dia 27 passado foi o Dia do Holocausto, instituído pela ONU, no dia da libertação de Auschwitz por tropas soviéticas, este texto conclui com a poesia polonesa Ainda (Jeszcze), de Wisława Szymborska, prêmio Nobel de Literatura de 1996, um poema solidário e humanista (do livro Wisława Szymborska [um amor feliz], Companhia das Letras, tradução de Regina Przybycien):

“Vão pelo país em vagões selados

os nomes transportados,

mas para onde vão assim,

será que a viagem terá fim,

não sei, não direi, não perguntem.

 

O nome Natan esmurra a parede,

o nome Isaac canta louco de fome,

o nome Sara pede água para o nome

Aarão, que morre de sede.

 

Não pule do trem, nome Davi.

você é um nome que ao fracasso condena,

não dado a ninguém, sem lar,

carregá-lo neste país é uma dura pena.

 

Que teu filho tenha um nome eslavo,

porque aqui cada fio de cabelo é contado,

porque aqui o bom do mau

pelo nome e feição é separado.

 

Não pule do trem. Ainda não é hora.

Não pule do trem. Será Lech o teu filho.

Não pule. A noite como uma risada sonora

arremeda o rolar das rodas no trilho.

 

Uma nuvem de gente sobre o país seguiu,

nuvem grande, chuva pouca, uma lágrima caiu,

chuva pouca, uma lágrima, secura.

Os trilhos dão em uma floresta escura.

 

Sim, é assim, segue pelos trilhos o trem.

Sim, é assim. O transporte dos gritos de ninguém.

Sim, é assim. Desperta na noite escuto sim, é assim, o surdo martelar no silêncio.”

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

[09/02/2018 08:30:00]
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