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Livros para Sonhar o Mundo no Museu da Diversidade
PublishNews, Roney Cytrynowicz, 21/07/2016
A partir de uma visita ao Museu da Diversidade, em SP, Roney Cytrynowicz fala sobre a trajetória de editoras e livrarias gays no Brasil

O que possuem em comum os livros Ainda lembro, de Jean Wyllys; Piscopatologia e sociologia da vida sexual, de Wilheim Reich; O homem-mulher, de Sérgio Sant´Anna; O Amor de uma boa mulher, de Alice Munro e a cartilha Gênero e diversidade na escola - Formação de professores/as em gênero, sexualidade, orientação sexual e relações étnico-raciais, editado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres / Secretaria de Promoção de Políticas da Igualdade Racial / Ministério da Educação em 2009?

Todos estes títulos, e muitos outros, estão sendo exibidos dentro da obra Rosa da Diversidade, de Paulo von Poser e Marcio Zamboni, na exposição Sonhar o Mundo, curadoria de Poser e Zamboni, no Museu da Diversidade Sexual, localizado na Estação República do metrô em São Paulo.

Rosa da Diversidade, de Paulo von Poser e Marcio Zamboni | © Divulgação
Rosa da Diversidade, de Paulo von Poser e Marcio Zamboni | © Divulgação

Os livros, como a mostra, discutem e celebram a diversidade sexual e de gênero como parte de uma postura de respeito aos Direitos Humanos e de lutas por igualdade ao redor do mundo. A exposição fica em cartaz até 27 de agosto e o Museu abre das 10h00 às 18h00.

“Sonhar o Mundo”, dizem os curadores, busca narrativas compartilhadas, de forma a contemplar a diversidade de experiências humanas em um mundo comum. A exposição integra o calendário do Dia Internacional contra a Homofobia, Lesbofobia e Transfobia e conta com instalações interativas que “brincam com suportes diversos abordando temas como educação, sofrimento, lutas, inspirações, segredos e corpos”.

Usuário frequente do metrô República, aprecio o que o Museu significa como lugar, marco e símbolo institucional de cidadania, das políticas e do necessário respeito – luta diária – pela diversidade sexual e de gênero em uma cidade, São Paulo, que é exemplo ao mesmo tempo de celebração e convivência e, infelizmente, de negação, preconceito e, com estarrecedora frequência, violência e morte. Vivemos dentro deste paradoxo de uma sociedade aberta e tolerante e, ao mesmo tempo, preconceituosa e violenta.

O pequeno Museu fica numa região que é uma das mais antigas áreas da cidade onde a vida gay, transexual e outras sexualidades pode se expressar abertamente. Em muitos lugares da cidade, inclusive na Avenida Paulista, é recente a possibilidade, por exemplo, de casais gays andarem de mãos dadas sem serem desrespeitados.

O Museu é cheio de vida e provocativo. Este alto astral lembra o memorial aos gays assassinados pelo nazismo no (parque) Tiergarten em Berlim, bem perto do Memorial do Holocausto. O memorial gay é uma pequena cabine com uma janelinha que nos convida a olhar dentro. E o que vemos, assistimos, é um filme com várias sequências de casais gays, de todos os perfis e idades, se beijando. Assim, ao lembrar a máxima destruição e racismo na história do século 20, é uma celebração da vida, do prazer, do amor.

A exposição no Museu da Cidade tem uma obra semelhante, um armário com vários visores / olhos mágicos que permitem ver colagens com temas como “Pecado e Perdão”, “A Cabeça de Baixo” e “Museu do Homem do Nordeste”. Berlim tem também um museu gay (Schwules Museum), com uma exposição permanente que conta, entre muitas outras coisas, a história da efervescência da diversidade sexual na capital alemã ao longo do século passado.

A presença dos livros na obra Rosa da Diversidade remete também à trajetória de editoras e livrarias gays em São Paulo. Existem poucas editoras dedicadas a esta temática ou que a abarcam, entre elas a hoo, a Metanoia e a Senda Literária, só para citar algumas. É claro que muitas editoras editam livros que se encaixam na temática LGBT, mas as editoras dirigidas têm mais foco e liberdade para ousar e transgredir o convencional e não serem necessariamente palatáveis a todos os públicos.

Um texto interessante de Ben Oliveira em seu blog discute as dificuldades das editoras e da literatura gay e cita o escritor Luciano Cilindro de Souza: “Uma editora de temática LGBT tem uma missão paralela ao proporcionar entretenimento - e sobreviver disso: ela tem um caráter humanitário ao devolver à humanidade aquilo que tabus hediondos vêm lhe subtraindo na arte literária”.

Em outro post, Oliveira escreve: Apesar das dificuldades no mercado editorial brasileiro, um dos principais fatores que faz toda diferença para que essas editoras continuem funcionando é a quantidade de leitores. Muita gente reclama que não encontra muitas histórias com as quais possam se identificar, que quase não existem personagens gays e lésbicas nas narrativas ou quando existem são retratados de maneira estereotipada, mas quando os livros são publicados, faltam pessoas interessadas em comprar”.

A editora Brejeira Malagueta, por exemplo, que fechou as portas em 2015, registra na despedida em seu site:

“A ideia era dar voz às lésbicas, que em geral não encontram muitas editoras interessadas em publicar obras com esta temática específica. Em 2007, por exemplo, ano anterior à nossa vinda ao mundo, nenhum único título que abordasse o lesbianismo foi publicado no Brasil, traduzido ou nacional, entre os mais de vinte mil novos títulos lançados aquele ano. Há apenas uma centena de títulos em catálogo que falam de mulheres homossexuais, entre mais de quatro milhões de obras disponíveis no mercado...”

Segue:

“Publicamos dez títulos de autoras brasileiras, dois de não-ficção e oito histórias de amor em que é possível a felicidade das personagens homossexuais. Achamos importante tanto falar de lésbicas de maneira aberta, sem discriminação, quanto imaginar alternativas de vida possíveis e felizes. Afinal, nada acontece sem que antes tenha sido imaginado, e se queremos que mulheres homossexuais sejam cidadãs plenas, temos que antes imaginá-las assim”.

Em uma cidade como São Paulo, mas também em outras grandes cidades e capitais do país, a presença de editoras, livrarias, eventos editoriais e literários LGBT contribuem para consolidar e fazer avançar um momento tão importante de celebração e afirmação do respeito à diversidade sexual e de gênero.

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

[21/07/2016 09:46:04]
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