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Duas bibliotecas entre Japão e Brasil e a história de uma escritora-imigrante
PublishNews, Roney Cytrynowicz, 02/02/2017
Em sua coluna, Roney Cytrynowicz conta a história da escritora japonesa Mitsuko Kawai e a sua relação com a Biblioteca Amadeu Amaral localizada no bairro paulistano da Saúde

Na década de 1930, na cidade de Kiryu, província de Gunma, Japão, uma menina de 12 anos, ao sair da biblioteca da escola primária, contempla a beleza grandiosa da montanha Akagui, meio coberta de neve, e pensa: “Meu sonho de tornar-se escritora é tão difícil quanto escalar aquela montanha”.

Foto atual da cidade de Kiryu, com a grandiosa da montanha Akagui ao fundo | © Javbw
Foto atual da cidade de Kiryu, com a grandiosa da montanha Akagui ao fundo | © Javbw

O sonho se concretizaria no Brasil 40 anos depois, tendo como centro dessa realização outra biblioteca, no bairro da Saúde, em São Paulo. Entre a infância no Japão, a imigração da família, a vida duríssima de trabalho com a enxada no campo (como todos os imigrantes japoneses) e o início da atividade de escritora, transcorreu uma vida cujo relato, comovente e cheio de detalhes, foi contado por Mitsuko Kawai em seu emocionante livro autobiográfico Sob dois horizontes (S.P., Editora do Escritor / Luz e Silva Editor, 1988).

Mitsuko nasceu em Kiryu (100 km de Tóquio), dez mil habitantes, a cidade da seda, em 1921. Os primeiros capítulos apresentam um singelo retrato da vida de menina, infância repleta de estudos, brincadeiras, rodeada pela família e pelo ciclo de festas, pelas celebrações locais e pelas estações do ano (é interessante como parte da lembrança das memórias de infância é organizada em função das estações e da relação com a natureza e o clima).

Sobre a sua infância, conta: “era considerada a menina mais levada da redondeza e a única que enfrentava os meninos nas brigas. Nunca mostrava interesse por bonecas ou outros brinquedos de que as crianças tanto gostavam. Livros eram o meu ponto fraco. Nunca passava em frente a uma livraria sem pedir que me comprassem um pelo menos”. A escola primária era obrigatória no país e havia assistência médico-odontológica e, além disso, almoço para os alunos que precisassem.

Nos anos 1930 uma forte crise econômica abateu o Japão. Sua família de 11 pessoas, incluindo os cinco irmãos e os quatro avôs, não tinha mais trabalho para manter-se. A decisão de emigrar para o Brasil foi um choque para Mitsuko, ótima aluna que estudava para ser professora. A família aportou em Santos em 1934 após uma viagem de 62 dias no Africamaru. “Chegamos ao país desconhecido. Saíramos todos para o convés e olhávamos o porto, os armazéns e os carregadores com um sentimento misto de esperança e um pouco de temor. Não tínhamos noção do que iríamos encontrar pela frente”, escreveu ela.

No início da fazenda e em diversos outros trabalhos na roça, a vida era duríssima, ninguém da família havia trabalhado no campo e as crianças e os mais velhos tinham que plantar, colher e realizar outras tarefas extenuantes: “O sol quente do Noroeste estorricava a pele e castigava terrivelmente a gente que trabalhava na roça. Após um dia de trabalho, chegava ao ponto de sentir que o corpo perdera toda a força e umidade. Ainda por cima todos os dias invariavelmente de manhã e à tarde, sofríamos um ataque maciço de mosquitos, que vinham como nuvem, picando-nos”. Mitsuko lembra o momento em que, diante dos ganhos várias vezes menores do que o prometido, o pai realizou que jamais juntaria as economias sonhadas e, portanto, não retornaria ao Japão.

Ainda bem jovem, Mitsuko casou-se com um professor de escola. Após o nascimento da primeira filha, o marido passou a trabalhar como motorista de caminhão e se mudou para São Paulo, Mitsuko se juntaria a ele meses depois. Com a Segunda Guerra Mundial, as restrições a viagens impediram o trabalho como motorista e eles tiveram que voltar, munidos de salvo-conduto, para a roça e a vida de privações severas. As memórias estão repletas de episódios difíceis, desde a coragem de enfrentar a ameaça de homens armados, onças no mato, até atravessar a floresta na escuridão total da noite, quilômetros, carregando um filho severamente doente para o farmacêutico atender. Mitsuko e o marido ainda se veriam envolvidos em meio ao conflito no interior da comunidade nipo-brasileira ao final da guerra, entre os que aceitaram e os que não aceitaram a ideia da derrota japonesa, e seu marido esteve próximo de ser morto por entender e aceitar o fato de que o Japão fora derrotado.

Fachada atual da Biblioteca Amadeu Amaral, frequentada por Mitsuko | © Prefeitura da Cidade de São Paulo
Fachada atual da Biblioteca Amadeu Amaral, frequentada por Mitsuko | © Prefeitura da Cidade de São Paulo
Quando chegou a idade de a filha mais velha ir à escola, mudaram-se em definitivo para a capital. Com cinco filhos, Mitsuko, para ajudar nas lições, começou a estudar português. “Quando acabei de ler todos os livros que havia em minha casa, comecei a frequentar a Biblioteca Amadeu Amaral, que era a mais perto de minha casa. Como a vida não me permitia frequentar a escola, o único lugar onde podia adquirir e ampliar o conhecimento e desenvolver meus estudos através da leitura era a Biblioteca”.

Todas as semanas, escreveu ela, “ia buscar de dois a três livros, permitidos pelo regulamento, e lia todos. Eu era a única idosa no meio dos estudantes jovens, e estava com verdadeira sede de estudar. As funcionárias da Biblioteca, que no começo me olhavam com curiosidade, à medida que frequentava o local, tornaram-se minhas amigas e todos os livros de que precisasse, elas gentilmente me ajudavam a encontrá-los”.

Os filhos cresceram e Mitsuko começou a traduzir artigos do japonês e enviar para um jornal da comunidade, o Diário Nippak, e acabou conquistando um emprego de tradutora, depois em outro jornal, o São Paulo Shimbum. Assim, a partir dos 50 anos, consolidou um trabalho como tradutora entre o japonês e o português, redatora de jornal e escritora. Traduziu para o japonês, como romance de folhetim em capítulos no jornal, O Guarani, de José de Alencar; A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz; As velhas, de Adonias Filho, e Chão bruto, de Hernâni Donato e contos e lendas brasileiras, entre os quais a história de Lampião. Também escreveu e traduziu poesias de autores latino-americanos. E publicou uma encantadora coleção infantil, em sete volumes, de Lendas do Japão (Luz e Silva Editor), que começou a ser publicada em 1989.

Mitsuko Kawai morreu aos 76 anos, num acidente de trânsito, em 1998. Seu livro autobiográfico, Sob dois horizontes, está disponível na biblioteca do Centro Cultural São Paulo, mas nenhum livro de sua autoria consta no acervo da Biblioteca Amadeu Amaral, tão central em sua vida e à qual ela foi tão grata em suas memórias publicadas há quase 30 anos, em 1988.

Uma comovente história que une uma mulher imigrante, duas bibliotecas, começa com um sonho no Japão nos anos 1930, tem capítulos de décadas de trabalho extenuante na roça, a criação de cinco filhos, e ganha emocionantes contornos em torno da frequência a outra biblioteca, em São Paulo, nos anos 1970 – quando ela se torna escritora. Mitsuko Kawai recebeu um prêmio especial in memoriam da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social (Bunkyo) na entrega do Prêmio Literário Nikkei de 2014 pelo conjunto de sua obra literária, que merece ser muito mais conhecida e lida.

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

Tags: Bibliotecas
[02/02/2017 08:00:00]
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